Capítulo 1
Assinei cinco contratos de anulação selados com sangue com meu marido, o don da máfia, Killian.
E, todas as vezes, ele me serviu a mesma ladainha: “Quando isso acabar, a gente se casa de novo.”
Mas cada uma dessas “coisas” era pela mesma mulher: Seraphina Moretti.
Encerramos nosso vínculo matrimonial pela primeira vez, e eu chorei em soluços, implorando que ele me dissesse se o amor dele por mim algum dia tinha sido real.
Ele apertou meu queixo com força, articulando cada palavra com frieza: “Elara, isso não importa.”
Quando chegou a segunda anulação, fui abertamente ridicularizada no baile de gala da família.
Eu me tranquei no banheiro da suíte e cortei os pulsos; o sangue escorreu pelas juntas do rejunte.
Minha melhor amiga me encontrou, tremendo.
Mas não era a dor do ferimento que me fazia tremer — Killian estava em algum lugar da propriedade naquela mesma noite e, ainda assim, não se deu ao trabalho de aparecer uma única vez para ver como eu estava.
Na terceira separação, eu já tinha me ensinado a nunca derramar uma lágrima na presença dele.
Na quarta ocasião, fui eu mesma que perguntei, sem rodeios: “Que farsa você precisa que eu encene agora?”
Ele ficou imóvel por um longo instante e, no fim, não disse nada.
Agora estamos aqui, pela quinta anulação.
Ele acha que só precisa estalar os dedos e eu vou voltar correndo para me casar com ele de novo, como fiz todas as vezes anteriores. O que ele não sabe é isto:
Desta vez, eu vou desaparecer da vida dele para sempre.
1
O arranhar de uma caneta rollerball raspando no pergaminho ecoa alto e agressivo no silêncio sepulcral do cômodo, soando como uma víbora lançando a língua bifurcada.
Eu sou Elara Rossi, a única herdeira da linhagem Rossi, e estou colocando minha assinatura no quinto termo de anulação da minha vida.
Isto não é papelada comum de negócios.
É um pacto de casamento jurado com sangue.
Do outro lado da mesa comprida está meu marido, Killian Voss. Vestido hoje com um terno de veludo preto, a beleza marcante e sombria dele parece ainda mais pálida contra o tecido escuro.
Dentro da propriedade particular da família Voss, no Brooklyn, o ar paira gelado como uma câmara fria. Os dois lados da longa mesa de jantar de carvalho estão lotados: anciãos do clã Voss, chefes de famílias mafiosas aliadas, advogados, todo mundo.
Os anciãos me observavam com expressões que eu conhecia bem demais.
Pena.
Diversão.
Desprezo.
Para eles, a herdeira siciliana enfim tinha sido quebrada. As arestas tinham sido gastas. Por fim, eu aceitara meu destino.
Todo mundo no submundo sabe muito bem que eu sou uma mulher que ele pode chamar quando quiser e descartar com a mesma facilidade.
Seis anos depois, casamos e nos separamos repetidas vezes, nossa união não passando de uma piada amarga e interminável.
Killian não levanta os olhos da papelada aberta diante dele. “Assine.” A voz dele ressoa baixa e áspera, completamente sem calor.
Eu estendo a caneta. Nossas pontas dos dedos se roçam, mas eu não recuo — e ele também não.
Ele me encara com intensidade, vasculhando meu rosto como se estivesse decidido a encontrar alguma coisa — qualquer coisa.
Uma rachadura? Um pedido? Um traço de desespero?
Mas não havia nada para ele encontrar.
Eu conhecia esse jogo bem demais.
As pupilas de Killian se contraem quase imperceptivelmente. Ele pega a caneta e rabisca a assinatura num floreio brutal, pressionando com tanta força que a ponta quase rasga o pergaminho.
“Quando isso acabar”, ele fecha a caneta-tinteiro com um clique, o tom afiado e autoritário como sempre, “vamos restabelecer nosso noivado, seguindo o protocolo do clã.”
Protocolo. Sempre esse maldito protocolo.
Eu apenas repuxo o canto da boca e fico em silêncio.
A assinatura formal chega ao fim.
Os convidados saem em fila, um após o outro, as pesadas portas de carvalho batendo atrás deles até restarmos apenas nós dois no salão cavernoso.
Ele permanece fincado no lugar, claramente esperando alguma coisa de mim — uma desculpa, um pedido para ficar ou, como em todas as vezes anteriores, que eu me agarrasse às promessas vagas e vazias dele e caísse de volta nesse ciclo ridículo e cruel.
Dou a volta na mesa e vou até uma malinha enfiada num canto; dentro, há apenas o punhado de pertences pessoais que eu mantive nesta chamada casa.
Por fim, a irritação se infiltra na voz dele: “Tem um motorista esperando para te levar.”
“Poupe-se do trabalho.” Eu saio sem olhar para trás uma única vez.
Ao passar pelos portões de ferro da propriedade, o vento noturno de Nova York me atravessa, cortante de tão frio. Puxo o celular e chamo um carro.
Fico na calçada por um instante e ergo o olhar para uma janela iluminada no segundo andar.
As cortinas estão um pouco entreabertas, emoldurando a silhueta alta de Killian, rígido junto ao vidro, o olhar fixo, sem piscar, exatamente onde eu estou.
Ele está me observando.
