Capítulo 4 Adesivos para mamilos e saltos de cinco polegadas

Ponto de vista de Natalie

O alarme tocou às seis, me arrancando de um sono tão profundo que, por alguns segundos desorientados, eu não fazia a menor ideia de onde diabos estava.

Sentei num pulo debaixo do edredom horroroso laranja e marrom, com o coração disparado, enquanto meus olhos vasculhavam o quarto desconhecido. O abajur parafusado. As cortinas desbotadas. A televisão que aparentemente tinha problemas de raiva. O ar-condicionado berrando debaixo da janela.

Novo México.

O Silver Dollar.

O Devil’s Den.

Minha primeira noite como stripper.

“Foda-se a minha vida.”

Peguei o celular e silenciei o alarme antes que ele pudesse berrar comigo de novo. Eu tinha trinta minutos para atravessar o estacionamento, e Marge tinha deixado mais do que claro que chegar às seis e trinta e um seria tratado como algum tipo de crime federal.

Não dava tempo de ficar embaixo do chuveiro e ter outro colapso emocional, então joguei água fria no rosto, escovei os dentes e passei um pente no cabelo. Prendi num rabo de cavalo alto, vesti uma camiseta cinza e um short jeans, e enfiei os pés no tênis.

A mulher que me encarava de volta no espelho do banheiro parecia ter dormido doze minutos depois de ser arrastada atrás de um veículo em movimento.

Os olhos estavam inchados.

A pele, pálida.

O corte perto da linha do cabelo ainda estava visível.

E ela também parecia apavorada pra caralho.

“Você consegue”, eu disse ao meu reflexo.

Meu reflexo não pareceu convencido.

“Você sobreviveu ao Daniel. Sobreviveu a três ônibus, a um caminhoneiro que cheirava a repolho cozido e a um banheiro de strip club que provavelmente tem sua própria cepa de hepatite. Você consegue sobreviver a uma noite.”

Meu estômago roncou tão alto que olhei para a porta do banheiro, como se alguém mais pudesse ter ouvido.

“Eu sei”, murmurei. “Também estou morrendo de fome.”

O punhado de bolachas salgadas que eu tinha comido antes de apagar não tinha feito absolutamente nada, exceto lembrar meu corpo de que comida existia. Rezei para todo deus, santo, anjo e ser sobrenatural que aceitasse pedidos desesperados para que a proposta que a Marge tinha me oferecido incluísse uma refeição.

Eles com certeza não podiam esperar que as mulheres sacudissem a bunda a noite inteira de estômago vazio.

Por outro lado, os homens esperavam que as mulheres fizessem coisas impossíveis com fome, exaustas e desconfortáveis desde o começo dos tempos.

Olhei o relógio de novo.

6:17 p.m.

“Merda.”

Peguei a chave do quarto e o celular, enfiei os dois nos bolsos e me apressei para fora. O calor me deu um tapa na cara no instante em que pisei na passarela. A temperatura tinha caído um pouco com o sol se pondo, mas o concreto ainda irradiava calor suficiente para assar pão.

O Devil’s Den me esperava do outro lado do estacionamento, parecendo ainda mais intimidador agora que várias motos tinham aparecido perto da varanda que contornava a fachada. Homens de coletes de couro estavam ao lado delas, fumando e conversando, e a risada deles atravessava o ar pesado do começo da noite.

Mantive o olhar bem à frente.

Nenhum deles prestou muita atenção em mim, mas isso não impediu que cada músculo do meu corpo se retesasse enquanto eu passava. Uma das motos deu partida com um ronco violento, e eu quase pulei da própria pele.

Quando cheguei ao clube, minhas palmas já estavam suando.

18h25.

Cinco minutos adiantada.

A Marge provavelmente ergueria um monumento em minha homenagem.

Puxei a porta da frente e entrei. O clube parecia diferente de mais cedo. As luzes do teto tinham sido apagadas, deixando o ambiente banhado em vermelhos e roxos profundos das luzes ao redor do palco. A música tocava nas caixas de som enquanto os bartenders abasteciam garrafas e enchiam os baldes de gelo atrás do bar.

O cheiro não tinha melhorado.

Fumaça de cigarro, álcool velho, perfume barato e alguma coisa frita pairavam no ar.

A parte do frito quase me fez gemer.

Marge estava atrás do bar, contando notas para colocar no caixa. No instante em que me viu, um sorriso genuíno atravessou seu rosto.

— Ora, vejam só você chegando cedo. Eu já estava me preparando para mandar uma equipe de busca pelo estacionamento.

— Você me disse seis e meia, e você parecia o tipo de mulher que me bateria com uma garrafa de bebida se eu me atrasasse.

— Eu não desperdiçaria uma bebida boa.

— Isso é reconfortante.

Ela contornou a ponta do bar e passou um braço pelos meus ombros, me puxando contra o lado dela. O gesto me surpreendeu tanto que eu enrijeçi antes de me obrigar a relaxar.

Marge ou não percebeu, ou foi educada o bastante para fingir que não tinha percebido.

— Vamos, sardenta. Hora de conhecer o circo.

— Achei que isso aqui fosse o inferno.

— Mesma administração.

Ela me guiou além do palco até uma escadinha estreita escondida atrás de uma cortina escura. Eu não tinha notado antes, mas, por outro lado, eu estava ocupada questionando cada decisão que já tinha tomado na vida.

A escada era íngreme o suficiente para ser considerada uma escada de mão. Quando chegamos lá em cima, eu estava respirando mais forte do que queria admitir.

O segundo andar se abria para um camarim enorme que se estendia por quase todo o comprimento do prédio. Várias penteadeiras ladeavam as paredes, cada uma cercada por lâmpadas redondas. Paletas de maquiagem, spray de cabelo, babyliss, apliques, joias, frascos de perfume, sapatos, fantasias e pilhas de roupa estavam espalhados por toda superfície disponível.

Um arara no canto tinha lantejoulas, penas, couro e tecido transparente o bastante para abastecer uma produção da Broadway absurdamente puta.

A fumaça de cigarro grudava no ar apesar da placa de PROIBIDO FUMAR pendurada torta ao lado da porta. Um cinzeiro transbordando ficava diretamente embaixo dela.

— Ninguém aqui segue regras? — perguntei.

Marge bufou, rindo pelo nariz.

— A gente segue as importantes.

— Que regras são essas?

— Não esfaquear ninguém dentro do prédio, não transar com clientes na sala do champanhe e não roubar do caixa.

— Dentro do prédio?

— O estacionamento é propriedade privada. O que acontece lá fora depende de quanto trabalho eu estou a fim de ter.

Antes que eu decidisse se ela estava brincando, um gritinho agudo veio do outro lado do cômodo.

Uma mulher se levantou num pulo da cadeira e veio apressada na nossa direção, com os dois braços bem abertos.

Ela parecia ter mais ou menos a minha idade, talvez uns vinte e cinco, com a pele bem bronzeada, cabelo loiro tingido caindo além dos ombros e olhos verde-vivo cercados de tanto glitter que dava pra ver do espaço. Uma blusinha curtinha mal dava conta dos peitos mais empinados que eu já tinha visto na vida.

— Essa é a Lola — Marge sussurrou no meu ouvido.

Lola me abraçou antes que eu conseguisse me preparar.

— Ai, meu Deus, você é uma fofura!

Fiquei presa dentro do abraço, encarando por cima do ombro dela na direção de Marge.

Marge sorriu, sem fazer o menor esforço para me salvar.

Lola me soltou e me segurou à distância de um braço, os olhos correndo pelo meu rosto, minhas roupas, meu cabelo e meus sapatos com o entusiasmo de alguém examinando um filhote novo.

— Olha essas sardas! Elas são fofas pra caralho. A Marge me falou delas, mas não disse que você parecia uma criaturinha sexy da floresta.

— Uma criatura da floresta?

— Uma gostosa.

— Isso não ajudou.

— Me ajudou. — Ela enlaçou o braço no meu. — Vamos te arrumar, amiga.

Lola me puxou até uma penteadeira vazia perto do fim da fileira. Um papel rosa plastificado tinha sido colado acima do espelho, com SARDAS escrito em letras pretas grossas, cercado por coraçõezinhos.

Eu parei de andar.

— Sério?

Marge deu de ombros.

— Todo mundo precisa de um nome de stripper, Sardas.

— Parece nome de cachorro de desenho animado.

Lola arfou.

— Não, não parece. Parece doce, inocente e secretamente safado. Homem adora essa merda.

— Eu estou começando a odiar homens mais a cada minuto que passa.

— Ótimo — Marge disse. — Isso vai te impedir de se apaixonar por um.

As palavras dela acertaram mais perto do que ela poderia imaginar, mas eu escondi a reação me jogando na cadeira.

Marge apoiou um quadril na penteadeira e apontou para mim com o cigarro que ainda não tinha acendido.

— Não conte pros clientes seu nome de verdade, onde você mora, de onde você é, nem qualquer outra coisa que eles possam usar pra te rastrear. Se alguém encostar em você sem permissão, te ameaçar, te encurralar ou te fizer se sentir insegura, grite chamando a segurança.

— Eu grito o quê?

— “Segurança” provavelmente já ajuda.

— Eu não sabia se tinha uma palavra-código especial.

— Isso aqui não é uma loja de departamento.

— Na real — Lola disse —, às vezes eu grito “Tira esse filho da puta de cima de mim”. Também funciona.

Marge apontou o cigarro para Lola.

— Porque você nunca para de gritar tempo suficiente pra lembrar o nome de alguém.

— Continua sendo eficaz.

— No fim da noite, você dá a porcentagem da casa. A Lola vai te explicar quanto vai pro DJ, pros bartenders e pra segurança. Nada de drogas no camarim. Não me importa o que você faz no seu tempo livre, mas se eu te pegar cheirando alguma coisa em cima das minhas penteadeiras, você tá fora.

— Eu não uso drogas.

— Ótimo. Continue assim. O dinheiro parece fácil o bastante pra deixar as pessoas burras.

Marge se endireitou e olhou na direção da escada.

— Tenho que deixar o bar pronto. Lola, cuida bem da nossa garota.

“Eu sempre faço.”

“É essa parte que me preocupa.”

Quando Marge se afastou, a pequena dose de confiança que eu tinha pegado emprestada dela foi embora junto. Meus nervos voltaram tão rápido que meus dedos começaram a tamborilar nas coxas.

As mulheres começaram a entrar aos poucos no camarim conforme o relógio se aproximava da hora de abrir. Algumas me ignoraram completamente. Outras encararam sem pudor enquanto falavam entre si em voz baixa.

Uma ruiva me avaliou de cima a baixo com hostilidade suficiente para arrancar minha pele.

Uma mulher alta, de cachos escuros, sussurrou alguma coisa no ouvido dela, e as duas riram.

Pareciam abutres rodeando carniça na estrada.

Aparentemente, eu era a carniça.

“Não liga pra elas”, disse Lola, largando uma sacola de compras enorme sobre a penteadeira. “Garota nova deixa todo mundo ouriçado.”

“Por quê?”

“Porque algumas dessas vadias acham que todo par de peitos que entra no prédio tá vindo atrás dos clientes fixos delas.”

Olhei para o meu peito. “Meus peitos não fazem a menor ideia do que estão fazendo.”

“Nem a maioria dos homens. Você vai ficar bem.”

Ela enfiou a mão na sacola e puxou um pacote de círculos rosa brilhantes.

“O que é isso?”

“Protetores de mamilo.”

Ela rasgou o pacote e me entregou.

Eu encarei os círculos adesivos. “Parece figurinha.”

“São figurinhas. Pros seus mamilos.”

Olhei dos protetores para Lola.

“Você tá me dizendo que meus mamilos vão fazer artesanato hoje à noite?”

Lola caiu na gargalhada. “A lei do Novo México diz que a gente não pode ficar completamente nua enquanto estiverem servindo álcool. Você mantém a calcinha fio-dental e esses filha da puta brilhantes cobrem as partes importantes. O resto todo pode sair e dar oi.”

Meu coração falhou uma batida.

“O resto todo?”

“Peitos, gata.”

“Eu sei o que você quis dizer.”

“Você pareceu confusa.”

“Eu não tô confusa. Eu tô tendo uma emergência médica particular.”

A diversão no rosto de Lola diminuiu um pouco quando ela viu minhas mãos começarem a tremer.

“Eu não sei se eu consigo fazer isso”, sussurrei.

A sala continuou se movendo ao nosso redor. Secadores sopravam. Pincéis de maquiagem batiam nas bancadas. Mulheres riam, discutiam e gritavam para alguém devolver um rímel que tinha sumido.

Lola colocou a mão por cima da minha.

A empolgação borbulhante no rosto dela se suavizou, virando algo verdadeiro.

“Todas nós já passamos por isso”, ela disse. “Eu vomitei quatro vezes na minha primeira noite.”

“Quatro?”

“A última foi em cima de um cliente.”

“Jesus Cristo.”

“Ele pagou a mais.”

Eu encarei ela.

“É sério. Disse que curtia humilhação.”

“Isso me faz sentir pior, de algum jeito.”

“A questão é: ninguém entra aqui sabendo como fazer isso. As mulheres que agem como se tivessem saído do útero usando salto de quinze centímetros tão cheias de merda. Todo mundo teve medo. Todo mundo se sentiu esquisita. Todo mundo achou que o clube inteiro tava encarando cada estria, cicatriz, sardinha e cada pedacinho de pele balançando.”

“Essa sensação passa?”

“Com o tempo. Aí você percebe que a maioria dos homens só fica animada porque uma mulher tá voluntariamente perto deles.”

Uma risada escapou de mim antes que eu conseguisse impedir.

— Lá está ela. — Lola apertou minha mão. — Você consegue. Não precisa ser a melhor dançarina do lugar hoje à noite. Só precisa aguentar o turno sem cair do palco nem dar um soco em um cliente.

— Isso parece um padrão incrivelmente baixo.

— É sua primeira noite. A gente acredita em metas alcançáveis.

Ela enfiou a mão na bolsa de novo e tirou uma peça inteira cor-de-rosa choque que parecia ter sido montada com fio dental e uma oração.

Eu a segurei entre dois dedos.

— Que porra é essa?

— Seu figurino.

— Isso não é figurino. Isso são três triângulos ligados por barbante.

— É um body fio-dental de cintura alta.

— Parece uma coisa que um ginecologista desenhou.

— Vai deixar sua bunda fenomenal.

— Vai deixar minha bunda visível do Arizona.

— Esse é o espírito.

A parte de baixo subia alto sobre os quadris, enquanto duas tiras estreitas de tecido escalavam em direção ao topo. As partes destinadas a cobrir meus seios pareciam ofensivamente pequenas, prendendo atrás do pescoço num estilo frente única.

Lola acrescentou uma liga combinando à pilha.

— Isso vai na sua coxa. Os clientes podem enfiar notas por baixo.

— Eles podem tocar na minha perna?

— Só se você deixar. Você controla o quanto eles chegam perto. Se alguém esquecer disso, a segurança lembra.

Aí ela tirou os sapatos.

Saltos transparentes de cinco polegadas, com plataformas grossas e tiras em volta dos tornozelos.

Eu encarei aquilo com medo de verdade.

— Isso não é sapato. Isso é tentativa de assassinato.

— É salto de iniciante.

— Iniciante pra quem? Pra uma girafa?

— Você disse que sabe andar de salto.

— Minha mãe me ensinou a andar com salto normal pra casamentos e jantares beneficentes. Ela não me preparou pra pernas-de-pau transparentes.

Lola os pressionou nas minhas mãos. — Sua mãe te preparou melhor do que a minha. A minha me ensinou a fazer ligação direta num Honda e a saber se a cocaína foi batizada com talco de bebê.

Eu pisquei.

— Ela parece interessante.

— Ela tá na prisão.

— Faz sentido.

Lola apontou para uma fileira de cabines de troca de roupa perto da parede do fundo.

— Vai vestir tudo. Primeiro os tapa-mamilos, depois o figurino, por último os sapatos. Não cole os tapa-mamilos por cima de hidratante, a menos que você queira ver um deles voando pra dentro do drink de alguém mais tarde.

Eu levei as roupas até a cabine e fechei a cortina atrás de mim.

Por alguns segundos, fiquei ali parada, encarando o conjunto.

Minha respiração começou a acelerar de novo.

Era real.

Eu estava mesmo fazendo isso.

Tirei a camiseta e o short, depois removi o sutiã com mãos que se recusavam a parar de tremer. Os tapa-mamilos demoraram mais do que deviam porque colei o primeiro torto e tive que descolar.

— Merda — sibilei quando o adesivo puxou minha pele.

— Tá tudo bem aí? — Lola chamou.

— Eu acabei de arrancar metade do meu mamilo.

— Beleza dói!

— Quem disse isso tinha que levar um soco na garganta.

Por fim, consegui posicionar os dois tapa-mamilos antes de entrar na roupa rosa. Arrumar as tiras exigiu mais engenharia do que eu esperava, mas, quando tudo ficou no lugar, o tecido tecnicamente cobria o que deveria cobrir.

Mal.

Prendi a liga na parte alta da minha coxa e enfiei os pés nos saltos transparentes. Para ficar de pé, precisei apoiar uma mão na parede.

A cabine de troca tinha um espelho de corpo inteiro.

Eu quase não olhei.

Quando por fim me obriguei a virar, a mulher me encarando de volta não parecia em nada com Rina Blakely.

Não parecia a filha que tinha ido a almoços de clube de campo com a mãe. Não parecia a mulher que passou quatro anos no braço do Daniel enquanto todo mundo a parabenizava pela vida perfeita que tinha.

Ela parecia perigosa.

Exposta.

Apavorada.

O tecido rosa-choque fazia minha pele parecer ainda mais pálida, e minhas sardas se destacavam no peito e nos ombros. As laterais cavadas faziam minhas pernas parecerem mais longas, enquanto os saltos empurravam meus seios para a frente e levantavam minha bunda.

Eu nunca tive vergonha do meu corpo.

O Daniel tentou me fazer ter. Criticava cada roupa, cada quilo, cada centímetro de pele que outros homens pudessem ver. Ele gostava de mim coberta porque acreditava que meu corpo pertencia a ele.

Agora eu estava me preparando para mostrar tudo a uma sala cheia de estranhos por dinheiro.

A ironia me deu vontade de rir e gritar ao mesmo tempo.

“Este corpo é meu”, sussurrei para o espelho.

Minha voz tremeu, mas me obriguei a dizer de novo.

“É a porra do meu.”

Abri a cortina e entrei no camarim.

Lola se virou para mim.

A boca dela se abriu.

“Caralho, Sardinhas. Você tá gostosa pra cacete.”

O calor subiu para o meu rosto. “Eu tô pelada.”

“Você tá cara.”

“Eu sinto como se um fio dental estivesse me cortando no meio.”

“Você para de notar depois da primeira hora.”

“Isso não parece medicamente possível.”

Lola deu uma volta ao meu redor, ajustando uma das alças e puxando a liga mais para cima na minha coxa. Depois me sentou diante da penteadeira e, antes que eu sequer entendesse o que estava acontecendo, ela já tinha cacheado meu cabelo e tacado tanta maquiagem e glitter em mim que eu mal me reconhecia.

Duas das mulheres que estavam encarando mais cedo se aproximaram. A ruiva parou ao lado da Lola, enquanto a mulher de cabelo escuro ficou um pouco atrás.

De perto, a ruiva era linda, com maçãs do rosto marcadas, delineador preto dramático e uma argola prateada atravessando uma narina. Ela me avaliou devagar, fazendo questão de que eu sentisse cada segundo da inspeção.

“Nem pense em roubar nossos clientes de sempre, sua puta”, ela disse, apontando uma unha longa e vermelha para a minha cara. “Entendeu?”

Meu medo se transformou imediatamente em irritação.

Eu passei anos sendo mandada pelo Daniel. Não estava interessada em substituí-lo por uma mulher seminúa que cheirava a spray corporal de coco.

“Os clientes de sempre vêm com documentos de propriedade?”, perguntei.

Os olhos dela se estreitaram.

Lola se colocou entre nós.

“Dá um passo pra trás, porra, Maria.”

“Eu tô avisando a novata.”

“Não, você tá sendo uma babaca insegura antes mesmo de ela pisar no palco.”

Maria ergueu as duas mãos numa rendição de brincadeira, embora o sorriso que se espalhava pelo rosto não tivesse nada de humor.

— Tá bom. Deixa ela aprender do jeito difícil.

A mulher ao lado dela riu.

Maria se virou para ir embora, mas não antes de olhar por cima do ombro para mim.

— Sardas bonitinhas.

O jeito como ela disse fez as palavras soarem como uma ameaça.

Quando elas foram embora, soltei o ar preso dentro do peito.

— Ela é sempre assim?

— Ela é pior quando gosta de você.

— Ela não gosta de mim.

— Então você tá no lucro.

Lola agarrou meu pulso e me puxou em direção às escadas.

— Não liga pra elas. A Maria fica toda ouriçada sempre que acha que alguém pode roubar um dos clientes fixos dela. A competição pode ficar pesada, principalmente nos fins de semana.

— Eu não quero os clientes fixos de ninguém. Eu nem quero estranhos.

— Quando começarem a te enfiar notas de vinte, você vai ficar mais flexível.

— Essa frase soou mais suja do que você pretendia.

— Eu pretendi cada pedacinho.

Descemos a escada e pisamos no salão principal. O clube continuava fechado, mas aumentaram o som enquanto a equipe terminava de preparar tudo.

Uma música em espanhol tocava nas caixas, a batida pesada vibrando pelo palco sob meus pés. Eu achei que era reggaeton, embora não soubesse o suficiente do gênero para ter certeza.

Lola subiu no palco sem usar as mãos.

Eu encarei lá de baixo.

— Como caralhos você fez isso?

— Músculos da coxa e trauma. Sobe aqui.

Segurei na borda e tentei subir com alguma graça. Um salto transparente escorregou na lateral, me obrigando a me atrapalhar e acabar no palco de joelhos.

Lola cobriu a boca.

— Não ri.

— Não tô rindo.

— Você tá tremendo.

— Tô segurando o incentivo.

— Vai se foder.

— É dessa confiança que a gente precisa.

Ela me conduziu até um dos postes cromados e envolveu minha mão ao redor dele.

— Primeira regra da pole dance: o poste é seu amigo.

— O poste tá melequento.

— Isso significa que alguém esqueceu de limpar.

Arranquei a mão na hora.

Lola caiu na gargalhada e borrifou o metal com produto de limpeza antes de passar um pano.

— Você é uma péssima professora.

— Eu sou uma professora divertida. Tem diferença.

Nos vinte minutos seguintes, ela me mostrou como me mover ao redor do poste sem parecer que eu estava dando voltas nele procurando uma saída. Demonstrou como deslizar uma mão mais para cima, dar a volta com a perna de fora, rebolar, e virar o corpo na direção da plateia.

Lola se movia como se tivesse nascido no palco. Cada passo escorria para o seguinte, o corpo dela acompanhando a música sem hesitar.

Eu me movia como um filhote de cervo bêbado.

— Para de pensar tanto — ela chamou da beirada do palco. — Sente a batida.

— Eu sinto a batida. A batida e eu não estamos nos dando bem.

— Mexe o quadril.

— Eu tô mexendo.

— Você tá mexendo os ombros.

— Meu corpo tá em pânico!

Ela veio e colocou as duas mãos nos meus quadris.

— Relaxa.

— Eu tô usando um salto de doze centímetros e três tiras de tecido rosa na frente de uma mulher que vomitou num cliente. Relaxar não tá disponível no momento.

— Você tem um corpo lindo. Use isso.

— Parece simples quando você fala.

— É simples. Homem não liga se você tem treinamento profissional. Eles querem contato visual, confiança e a ilusão de que você talvez esteja mesmo interessada neles.

— Então mentir.

— Exatamente. Você está aprendendo.

Lola desceu do palco e mandou eu tentar de novo sozinha.

A música mudou para algo mais lento, com uma linha de baixo pesada. Respirei fundo e enrolei a mão direita na barra.

Minha mãe tinha me obrigado a fazer aulas de dança quando eu tinha oito anos. O balé durou três semanas, até eu chutar outra criança durante uma pirueta e derrubar a instrutora. Dança de salão tinha ido um pouco melhor, mas só porque meu pai me enfiava doce na mão toda vez que eu terminava uma aula sem reclamar.

Nada disso tinha me preparado para esfregar a bunda num poste de metal usando adesivos nos mamilos.

Dei a volta na barra, tentando fazer o rebolado que a Lola tinha me mostrado.

— Melhor! — ela gritou.

Virei rápido demais, quase tropecei no meu próprio pé e me segurei na barra.

— Quase morrer não fazia parte do movimento — rosnei.

— Não, mas você se recuperou. Recuperação é sexy.

— Acho que você tá inventando essa merda.

— A maior parte do strip é inventar merda.

Tentei de novo.

Dessa vez, me movi mais devagar. Deixei o ritmo guiar meus passos, deslizando uma mão pela barra enquanto rebolava. Quando cheguei à frente do palco, caminhei pela passarela estreita e tentei imitar a virada que a Lola tinha demonstrado.

Meu tornozelo bamboleou.

Meus braços se abriram para os lados.

Consegui continuar em pé, embora fosse totalmente possível que eu tivesse distendido alguma coisa na bunda.

Lola bateu palmas alto.

— Isso, vadia!

— Foi horrível.

— Foi sua primeira vez. Horrível é esperado.

— Obrigada pelo apoio.

— De nada.

A música parou.

Uma voz masculina grave saiu pelos alto-falantes.

— Dez minutos para abrirem as portas.

Meu estômago despencou com tanta força que eu podia jurar que ele tinha caído no palco, bem debaixo de mim.

Pelo salão, os bartenders terminaram de passar pano nos balcões. Os seguranças foram em direção à entrada. As dançarinas começaram a descer as escadas em meio a glitter, saltos e roupas que deixavam ainda menos para a imaginação do que as minhas.

Lola subiu de volta no palco e parou ao meu lado.

— Pronta?

— Não.

— Boa resposta.

A primeira fechadura da porta da frente fez clique e abriu.

Depois a segunda.

Vozes masculinas vinham da varanda quando o segurança estendeu a mão para a maçaneta.

Apertei a barra com mais força e encarei a entrada.

Em menos de dez minutos, estranhos estariam me olhando.

Me julgando.

Querendo coisas de mim.

Esperando que eu sorrisse enquanto ficava quase pelada sob as luzes piscando e fingia que eu não estava a uma lembrança ruim de desmoronar.

Lola encostou o quadril no meu.

— Respira, Sardenta.

As portas se abriram.

Engoli o grito que subia pela minha garganta e forcei os ombros para trás.

Isso ia ser uma completa merda de um show.

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