Capítulo 1 O ponto de vista do verão
— Summer, você precisa me ligar de volta agora mesmo.
O recado de voz da Jade era o quarto nos últimos dez minutos, e a voz dela tinha aquela ponta de pânico que fazia meu estômago despencar. Eu estava na metade do meu café da manhã na cobertura da nossa família, ainda de pijama, quando meu celular começou a explodir de notificações.
— O que está acontecendo? — resmunguei, abrindo as mensagens. Cinquenta e três não lidas, o que já era estranho, e meu Instagram estava surtando. Melhor nem falar das notificações do Twitter, que tinham ido às alturas.
Aí eu vi a postagem de alguma conta de notícias políticas com mais de dois milhões de seguidores. Uma foto minha do baile beneficente do ano passado, editada ao lado de um cara que eu nunca tinha visto na vida. A gente sorria um para o outro como se estivesse apaixonado ou alguma merda assim.
A legenda fez meu sangue gelar.
“Urgente: noivado McAllister-Trudeau anunciado. Fontes dizem que o casamento está planejado para o mês que vem, no que está sendo chamado de a união política da década.”
— Não. — A palavra saiu estrangulada. — Não, não, não, não.
Rolei o feed freneticamente. Fotos minhas, editadas ao lado de fotos dele, estavam por toda a internet. Descobri que ele era Richard McAllister, filho do candidato à presidência — o mesmo homem com quem eu literalmente nunca tinha trocado uma palavra em toda a minha vida.
Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o celular cair quando ele tocou; era a Jade de novo.
— Me diz que isso é algum tipo de piada doentia — eu disse, em vez de dar oi.
— Eu estava torcendo pra você me dizer isso. — Jade parecia sem fôlego. — Summer, que porra está acontecendo? Você está mesmo noiva?
— Eu nem sei quem é esse cara!
— Seu pai não te contou?
Meu pai. Claro. Sam Trudeau do caralho não fazia nada sem um motivo, e esse motivo geralmente era dinheiro, poder ou manter a si mesmo fora da cadeia. Desliguei na cara da Jade e atravessei a cobertura a passos duros, direto para o escritório dele.
Ele estava ao telefone quando eu invadi a sala, todo de terno caro e cheiro de fumaça de charuto, completamente indiferente ao fato de que tinha acabado de me vender como gado.
— Eu te ligo depois — disse ele ao telefone, com aqueles olhos frios e calculistas em mim; eu conhecia bem aquele olhar, o mesmo que ele dava aos parceiros de negócios antes de destruí-los.
— O que você fez? — Minha voz tremia de raiva.
— Eu garanti o futuro da nossa família. — Ele pousou o telefone com uma calma que me deu vontade de gritar. — Você vai se casar com Richard McAllister no mês que vem. O anúncio saiu hoje de manhã.
— Você só pode estar brincando. Você não pode simplesmente arranjar um casamento sem nem me avisar!
— Eu acabei de fazer isso. — Ele puxou uma longa tragada do charuto. — Michael McAllister precisa de financiamento para a campanha. Nós precisamos tirar os holofotes das nossas operações. O filho dele casa com você, todo mundo sai ganhando.
— Menos eu!
— Você vai fazer o que é melhor para esta família, Summer. Como sempre fez. — O tom dele não deixava espaço para discussão; estava escancarado que aquilo não era uma conversa, era uma ordem.
Então eu corri. Peguei meu celular e minhas chaves e saí daquela cobertura como se ela estivesse pegando fogo. Eu precisava ver o Marcus, meu namorado há dois anos, a única pessoa na minha vida que de fato me amava por mim — e não pelo meu sobrenome ou pelo dinheiro do meu pai.
O Marcus saberia o que fazer. A gente ia dar um jeito nisso juntos e, talvez, a gente simplesmente deixasse toda essa merda para trás e fugisse para algum lugar onde meu pai não pudesse me controlar.
A viagem até o apartamento dele, no Brooklyn, levou trinta minutos, mas pareceu durar horas. Usei minha chave para entrar no prédio do Marcus, subi as escadas de dois em dois degraus até o apartamento dele, no terceiro andar.
Eu já estava planejando o que diria. A gente podia fugir e se casar, sair do país. Eu tinha certeza de que meu pai não conseguiria me forçar a um casamento se eu nem estivesse aqui.
Abri a porta do apartamento dele chamando seu nome.
— Marcus, você não vai acreditar no que meu pai aca—
As palavras morreram na minha garganta.
Havia roupas no chão, um rastro levando até o quarto, onde vi um casaco feminino que reconheci porque eu tinha ajudado minha irmã a escolher no mês passado, acompanhado de sons vindo do quarto que fizeram meu estômago revirar do avesso.
Eu devia ter ido embora e virado as costas naquele instante, mas meus pés me carregaram para a frente como se eu estivesse num pesadelo do qual não conseguia acordar.
Empurrei a porta do quarto.
Marcus estava completamente nu na cama com alguém; os dois se moviam num ritmo inconfundível de sexo. A porta bateu atrás de mim e eles se viraram para me olhar com os olhos arregalados, assustados. Eu vi exatamente quem era — Autumn, minha irmãzinha.
— Summer. — Marcus nem teve a decência de parecer envergonhado. Só puxou o lençol para cima com preguiça, como se eu tivesse interrompido o café da manhã dele em vez de pegá-lo transando com a minha irmã. — Não é o que parece.
— Ah, é mesmo? — Minha voz saiu fria. — Porque parece que você está comendo a minha irmã.
Autumn se sentou, o cabelo escuro todo bagunçado, usando aquele mesmo sorriso presunçoso.
— Ah, Summer, não seja tão dramática.
— Há quanto tempo? — Eu olhei para Marcus, o homem que eu achei que amava. — Há quanto tempo isso está acontecendo?
— Isso importa? — Ele teve a audácia de parecer entediado. — Qual é, você tinha que saber que isso não ia durar. Você é uma Trudeau, e o único motivo de eu ter ficado com você esse tempo todo foi pelos contatos.
Cada palavra era uma faca, mas eu me recusei a deixar que ele me visse sangrar.
— E você? — Virei para Autumn. — Você é minha irmã.
— Meia-irmã — ela corrigiu, examinando as unhas como se essa conversa a entediasse. — E, sinceramente, você devia me agradecer. Agora você pode focar no seu casamento arranjado com aquele cara, o McAllister. Que sorte a sua, subindo na vida.
A risada que escapou de mim soou desequilibrada até para os meus próprios ouvidos.
— Vocês dois são patéticos.
Eu fui embora antes de começar a chorar ou dar a eles a satisfação de me ver quebrar. Consegui chegar ao meu carro e dirigir três quarteirões antes de ter que encostar, porque eu não enxergava através das lágrimas.
Tudo o que eu achava que sabia era mentira. Meu namorado não me amava, minha irmã me odiava e meu pai me via como uma moeda de troca. Para piorar, em quatro semanas eu deveria me casar com um completo estranho para salvar uma família que nunca deu a mínima para mim.
Eu precisava de uma bebida. Ou dez.
O bar que encontrei era escuro e quase vazio, exatamente o que eu precisava. Deslizei para um banquinho e pedi vodca, depois pedi outra quando a primeira sumiu rápido demais.
Na terceira dose, meu celular tinha parado de vibrar; na quinta, eu reparei no cara na outra ponta do balcão, que parecia tão miserável quanto eu me sentia, bebendo uísque como se ele tivesse feito algo pessoalmente contra ele. Havia algo no perfil dele que me parecia familiar, mas eu estava bêbada demais para identificar.
Nossos olhares se encontraram do outro lado do bar.
