Capítulo 2 O ponto de vista de Richard

— Você vai se casar, filho. Parabéns.

Levantei os olhos do laptop e encontrei meu pai parado na porta do meu escritório, com aquele sorriso de político estampado no rosto, como se tivesse acabado de me dizer que eu ganhei na loteria, e não que estava destruindo a minha vida.

— Que porra você está falando? — Fechei o laptop devagar, cada músculo do meu corpo se retesando.

Ele jogou um tablet sobre a minha mesa. Na tela, havia uma matéria com uma foto minha e de alguma loira que eu nunca tinha visto, montados no Photoshop, sob uma manchete anunciando nosso noivado.

— Isso é insano. — Empurrei o tablet de volta para ele. — Eu nem sei quem é essa garota.

— Summer Trudeau. Vinte e três anos, estudou história da arte em Columbia, filha do Sam Trudeau. — Meu pai se sentou à minha frente, cruzando as pernas como se estivéssemos falando do tempo. — Você vai se casar com ela no mês que vem.

— Nem fodendo.

— Cuidado com o tom, Richard. — A voz dele perdeu aquela cordialidade fingida. — Esse casamento vai acontecer, você gostando ou não.

Eu me levantei, a cadeira raspando no chão.

— Você não pode me obrigar a casar com uma garota aleatória.

— Eu não estou obrigando você a fazer nada. Só estou lembrando que a sua cooperação seria do seu melhor interesse. — Ele tirou o celular do bolso, rolando alguma coisa na tela. — A família Trudeau vai fornecer um financiamento substancial para a minha campanha e, em troca, você casa com a filha. É um acordo comercial simples.

— Um acordo comercial. — Eu ri, mas não havia humor nenhum. — Você está me vendendo por dinheiro de campanha.

— Não seja dramático, Richard. Aos vinte e nove anos, sem perspectivas e sem rumo. Esse casamento te dá propósito, te dá legitimidade; e o público adora um romance político. — Ele se levantou, ajeitando o terno. — Além disso, não é como se você tivesse algo melhor engatilhado. O que você vai fazer, casar com a Jennifer?

Jennifer é minha namorada há três anos. A mulher a quem eu estava planejando pedir em casamento no mês que vem.

— Eu e a Jennifer estamos falando sério — eu disse. — Eu a amo.

— Ama? — Algo no tom dele fez meu estômago afundar. — Interessante. Porque ela não parece sentir o mesmo por você.

— Do que você está falando?

Ele abriu algo no celular e virou a tela para mim. Havia fotos da Jennifer com um homem em um restaurante, de mãos dadas, entrando em um hotel — e todas tinham marcação de data e hora da semana passada, quando ela me disse que ia visitar a irmã.

— Quem é ele? — Minha voz saiu sem cor.

— Isso importa? — Meu pai guardou o celular no bolso. — O ponto é: a sua namorada vem te traindo há meses. Então não vamos fingir que esse casamento está destruindo alguma grande história de amor.

De repente, o cômodo pareceu pequeno demais. Jennifer tinha me traído; todos aqueles fins de semana “visitando a família” tinham sido mentira.

— Eu quero ver mais dessas fotos — eu disse.

— Pra que se torturar?

— Mostra.

Ele suspirou, como se eu estivesse sendo difícil, mas tirou o celular de novo. Eu rolei a tela e vi o que devia ser dezenas de fotos da Jennifer com esse homem misterioso em restaurantes diferentes, hotéis diferentes, diferentes—

Eu parei de respirar.

Em uma das fotos, o rosto do homem estava perfeitamente visível enquanto ele beijava a Jennifer do lado de fora de algum hotel.

Era o meu pai.

— Você. — A palavra saiu como um rosnado. — Você está transando com a minha namorada.

Ele nem teve a decência de parecer envergonhado.

— A Jennifer é uma mulher ambiciosa. Ela sabe quem realmente pode ajudar a carreira dela.

Eu avancei na direção dele, mas ele recuou com suavidade, como se estivesse esperando por isso.

— Controle-se — ele disse, frio. — Você não é mais um adolescente.

— Você está dormindo com a minha namorada e está me dizendo pra eu me controlar? — Eu queria enfiar o punho na cara dele. — Que tipo de pai doente—

— Do tipo que manteve você fora da prisão. — A voz dele atravessou minha raiva como água gelada. — Ou você já esqueceu aquele pequeno incidente no ensino médio?

Meu sangue gelou. — Isso foi há dez anos.

— E o prazo de prescrição ainda não acabou. Vender cocaína para menores é um crime grave, Richard, e o único motivo de você não estar na prisão agora é porque eu fiz isso desaparecer. — Ele ajustou as abotoaduras com calma.

— Então é o seguinte que vai acontecer: você vai se casar com Summer Trudea, vai sorrir para as câmeras e vai me ajudar a ganhar esta eleição. Em troca, seu passado continua enterrado e você fica fora da prisão. Recuse, e eu mando prender você antes do fim da semana.

— Você está me chantageando.

— Eu estou protegendo os interesses desta família. Há uma diferença. — Ele foi em direção à porta. — O jantar de noivado é amanhã à noite, às sete. Não se atrase, Richard.

Ele foi embora, fechando a porta atrás de si, enquanto eu ficava ali no meio do meu escritório, com o meu mundo inteiro desmoronando ao meu redor. Meu pai estava dormindo com a minha namorada, que vinha me traindo havia meses, e agora eu estava sendo obrigado a me casar com alguma princesa da máfia que eu nunca tinha visto na vida — ou ir para a prisão por crimes que cometi quando tinha dezessete anos.

Peguei minhas chaves.

O bar que eu encontrei era exatamente o tipo de lugar que meu pai odiaria, o que o tornava perfeito. Escuro, quase vazio, com aquele clima em que ninguém dava a mínima para quem você era ou o que seu sobrenome significava.

Pedi um uísque e virei de uma vez. Pedi outro. Quando cheguei ao quinto, eu quase tinha me convencido de que aquilo tudo era só um pesadelo do qual eu ia acordar.

Foi então que notei a garota loira na outra ponta do balcão.

Ela era linda daquele jeito sem esforço, embora o rímel estivesse borrado, como se ela tivesse chorado.

Nossos olhares se encontraram através do bar e alguma coisa passou entre nós — reconhecimento, ou só o entendimento compartilhado de duas pessoas tendo o pior dia das suas vidas.

Ela ergueu o copo num brinde de deboche.

Eu ergui o meu de volta e, então, ela se levantou e cambaleou até mim.

— Você está com cara de quem acabou de ter a vida destruída — disse ela, se acomodando no banco ao lado do meu. A voz estava um pouco arrastada, mas os olhos verdes eram atentos.

— Engraçado, eu ia dizer a mesma coisa sobre você.

— Meu pai me vendeu num casamento arranjado com um babaca que eu nunca vi. — Ela virou o resto da bebida. — Aí eu peguei meu namorado transando com a minha irmã. Então, é, a vida está uma maravilha.

Alguma coisa no jeito como ela disse “casamento arranjado” fez alarmes dispararem na minha cabeça, mas eu estava bêbado demais para me importar.

— Meu pai está me chantageando pra eu me casar com uma princesa da máfia — eu disse. — E ele está dormindo com a minha namorada. Então nós dois estamos tendo um dia espetacular.

Ela riu, amargo e cortante. — A gente devia criar um grupo de apoio pra pessoas cujas famílias destruíram a vida.

Batemos os copos. Eu não lembro quem beijou quem primeiro, nem como a gente foi parar num táxi. Só lembro de olhos verdes e cabelo loiro e da sensação de que, por uma noite, eu podia esquecer tudo o que me esperava de manhã.

Uma noite em que eu não era Richard McAllister, prisioneiro político e ela…

…… Seja lá qual fosse o nome dela.

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