Capítulo 3: O ponto de vista do verão
“Ah, Deus. Ah, Deus, Deus, Deus, Deus.”
Minha cabeça latejava como se alguém tivesse enfiado uma marreta no meu crânio. Minha boca tinha gosto de que eu tinha lambido o chão daquele bar e, para piorar, eu estava completamente nua.
Num quarto que eu não reconhecia, ao lado de um homem que eu não—
Sentei tão rápido que o quarto girou e o lençol escorregou. Agarrei-o, apertando-o contra o peito enquanto olhava ao redor, em pânico.
Roupas espalhadas pelo chão; meu vestido estava pendurado numa luminária e minha calcinha tinha sido arremessada em algum lugar no canto mais distante.
Que porra aconteceu ontem à noite?
Eu me lembrei do bar, depois de conversar com um cara que parecia tão miserável quanto eu me sentia e, então... nada, exceto fragmentos da boca dele na minha, mãos no meu cabelo e… Não.
“Não, não, não, não.” Olhei para o homem ainda dormindo ao meu lado, o rosto meio enterrado no travesseiro, emoldurado por cabelo escuro, ombros largos e um corpo completamente nu sob os lençóis.
Eu tinha dormido com um completo desconhecido.
Eu nunca fazia esse tipo de coisa. Eu era a responsável, a que pensava antes de agir, a que—
Ele se mexeu, virando de barriga para cima. E, quando vi o rosto dele com clareza pela primeira vez à luz do dia, meu corpo inteiro gelou.
Era Richard McAllister, o homem com quem eu deveria me casar.
“Não.” Saí da cama às pressas, arrastando o lençol comigo. “Não, não, não, isso não pode estar acontecendo.”
Ele acordou com o som da minha voz, piscando; por um segundo, pareceu confuso, então os olhos se fixaram em mim e eu vi o exato momento em que o reconhecimento o atingiu.
“Você.” Ele se sentou rápido, olhando ao redor do quarto como se tentasse entender se aquilo era real. “Você é a Summer Trudeau.”
“E você é o Richard McAllister.” Minha voz saiu estridente. “O que você fez comigo?”
“O que eu fiz?” Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido. “Foi você que veio até mim no bar!”
“Então você achou que ia me drogar e me trazer pra cá?” Eu recuava em direção ao banheiro, o coração disparado. “Isso é algum tipo de jogo doentio pra você?”
“Te drogar?” Ele saiu da cama e eu desviei o olhar porque ele estava completamente nu e eu não precisava dessa imagem gravada no meu cérebro agora. “Você bebeu vodka o bastante pra matar um cavalo. Eu nem precisei te drogar.”
“Então por que eu não lembro de nada?”
“Porque você estava bêbada!” Ele pegou a calça do chão e a vestiu num puxão. “Nós dois estávamos bêbados. Isso não foi planejado, só aconteceu.”
“Nada ‘só acontece’!” Eu vi meu sutiã perto do criado-mudo e o peguei, tentando me vestir enquanto ainda segurava o lençol. “Você sabia quem eu era. Você planejou isso tudo.”
“Eu não sabia quem você era até dois segundos atrás!” A voz dele subiu para acompanhar a minha. “Você acha que eu queria dormir com alguma princesa da máfia que meu pai está me obrigando a casar?”
“Princesa da máfia? Mas é você que tem o pai te chantageando pra entrar nesse casamento porque, aparentemente, você é um traficante!”
“Ex-traficante, e isso foi há dez anos!” Ele achou a camisa e a vestiu do avesso. “Pelo menos a minha família não está sendo investigada pelo FBI por crime organizado!”
“Pelo menos o meu pai não está dormindo com a minha namorada!”
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir, e eu vi o rosto dele empalidecer. Como eu sabia disso? Ele tinha me contado ontem à noite?
—Como é que você… —Ele parou, passando a mão pelos cabelos. —O que foi que eu te disse?
—Eu não sei! Eu não lembro de nada depois do quarto drinque! —Por fim consegui vestir o vestido, embora estivesse amassado. —Só sei que acordei pelada ao lado da última pessoa na Terra que eu queria ver de novo e agora minha vida está ainda mais desastrosa do que estava ontem.
—Acredite, o sentimento é recíproco. —Ele procurava os sapatos. —Isso nunca aconteceu. Nós dois estávamos bêbados, nós dois cometemos um erro, e vamos fingir que isso nunca aconteceu.
—Combinado. —Encontrei meu celular no chão e olhei a hora: nove da manhã. —Eu vou embora. Você fica aqui por uns vinte minutos pra gente não sair junto.
—Eu não vou ficar aqui. —Ele pegou a jaqueta. —Tenho coisas pra fazer.
—Então eu vou sair primeiro.
—Nem a pau.
Nós nos encaramos do outro lado do quarto de hotel, e eu senti aquela mesma atração de ontem à noite. Aquela coisa magnética que tinha me feito atravessar o bar para falar com ele em primeiro lugar. O que era insano, porque eu odiava tudo o que ele representava.
—Tá. —Peguei minha bolsa. —A gente sai os dois e, se alguém perguntar, isso nunca aconteceu.
—Não vai ser difícil, já que eu estou tentando esquecer isso desde já. —Ele foi em direção à porta.
—Ótimo. Porque você foi péssimo, de qualquer jeito.
—Ah, fui? —Ele se aproximou e eu senti o cheiro da colônia dele misturado com uísque. —Porque eu me lembro perfeitamente de você implorando pra eu não parar.
—Sai de perto de mim. —Mas minha voz saiu ofegante em vez de irritada.
—Com prazer. —Ele se afastou da parede, mas não antes de eu ver os olhos dele descerem até meus lábios. Ele saiu sem dizer mais nada, batendo a porta com força suficiente para fazer o batente tremer.
Fiquei ali, tremendo —se de raiva, de adrenalina ou de outra coisa completamente diferente, eu não sabia. Eu tinha acabado de transar com Richard McAllister. O homem com quem estavam me obrigando a casar, e a pior parte nem era meu corpo ainda vibrando por ele ter ficado tão perto de mim.
Meu celular tocou quando eu entrava num táxi alguns minutos depois; meu pai vinha ligando sem parar. Na quarta chamada, eu atendi.
—Onde você estava? —A voz de Sam estava fria. —O jantar de noivado é hoje à noite, às sete. Você precisa estar na casa às cinco pra se arrumar.
—Eu sei.
—Onde você está?
—Fora. —Eu não ia dar nada a ele. —Eu vou estar aí às cinco.
—Summer…
Desliguei. O que quer que ele queira dizer só vai piorar as coisas.
Meu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido.
Se você contar pra alguém sobre ontem à noite, eu vou negar tudo. —R
Eu respondi, furiosa: Não se ache. Eu estou tentando esquecer que isso aconteceu.
A resposta dele veio na hora.
Ótimo. Te vejo hoje à noite, futura esposa.
Eu quis jogar meu celular pela janela, mas em vez disso digitei uma última mensagem. Este casamento é um acordo de negócios, e o que aconteceu ontem à noite foi um erro de bêbados que nunca vai se repetir.
Desde que estivéssemos na mesma página de que ontem à noite foi um erro e de que o casamento era de fachada, então, depois do jantar de hoje, a gente daria um jeito de sobreviver a esse arranjo sem se matar.
Eu só precisava aguentar um jantar. Quão difícil isso podia ser?
