Capítulo 4 O ponto de vista do verão
— Você parece que vai a um velório, não a um jantar de noivado.
Ergui os olhos de onde eu alisava meu vestido de seda verde-esmeralda e encontrei Jade encostada no batente da porta. — É a mesma coisa, no fim das contas — resmunguei, conferindo se o corretivo tinha coberto os chupões no meu pescoço.
— Pelo menos tenta fingir um sorriso — Jade disse, ajeitando meu cabelo. — Você devia ser uma noiva coradinha, não uma refém.
— Eu sou uma refém.
Meu celular acendeu com uma mensagem do meu pai: O carro está esperando. Não me envergonhe.
— Me manda mensagem se precisar de uma emergência falsa — Jade gritou quando eu saí.
A viagem até os Hamptons levou uma hora. Três carros pretos de luxo já estavam na entrada circular da casa do meu pai. Os McAllister tinham chegado cedo.
Meu pai me encontrou no saguão de mármore, apertando meu cotovelo com força.
— Você vai sorrir para aquele garoto como se estivesse perdidamente apaixonada por ele, entendeu? Michael McAllister é meu bilhete para manter o FBI longe da nossa cola. Não estraga isso.
A sala de jantar era um exagero: uma mesa para vinte posta para oito de nós, lustres de cristal, orquídeas, talheres desnecessários e, de pé junto às janelas, Richard McAllister, nossos olhares se encontrando do outro lado do cômodo. O maxilar dele estava tenso, os ombros rígidos. Parecia que queria sair correndo.
O sentimento era recíproco.
— Summer! — Catherine McAllister deslizou até mim, toda miúda, loira e coberta de diamantes em roupas de grife da moda, acompanhada de um sorriso que nunca chegava aos olhos.
— Sra. McAllister…
— Para com isso, querida. Vamos ser família! E você é ainda mais linda ao vivo.
Michael McAllister foi o próximo a dar um passo à frente; era alto, com olhos cinzentos que pareciam calcular o meu valor. Ex-diretor da CIA, atual candidato à presidência, o homem que tinha intermediado esse acordo com o meu pai.
— E, claro, este é o Richard — Catherine empurrou o filho na minha direção.
Quando nossas mãos se tocaram, uma eletricidade atravessou meu corpo. O polegar dele roçou minha palma antes que eu me afastasse depressa.
Os lugares à mesa eram estratégicos, e eu acabei entre Richard e minha meia-irmã Autumn, que imediatamente voltou para ele uma atenção melosa.
— Richard, eu sou a Autumn. Você é ainda mais bonito ao vivo.
— Obrigado — Richard respondeu, frio.
— Quando eu soube do noivado, eu fiquei chocada — Autumn continuou, os olhos deslizando até mim. — A Summer nunca comentou que estava saindo com alguém.
Michael foi direto ao ponto. — Estamos pensando na primeira semana de outubro. Uma cerimônia pequena, exclusiva, com cobertura completa da mídia. A imagem é importante.
— Outubro? — larguei o garfo. — Isso é daqui a menos de um mês.
— A eleição é no começo de novembro. Precisamos resolver isso antes de a temporada de campanha atingir o auge. Um casamento bonito vai me humanizar para os eleitores.
— Que romântico — eu disse. — Se casar para humanizar seus números nas pesquisas.
Os olhos do meu pai faiscaram num aviso.
— E o pré-nupcial? — meu pai perguntou. — Seus advogados já têm os termos?
— Está tudo pronto. Eles assinam na semana que vem.
— Com licença. — A voz de Richard cortou o ambiente. — Eu não tenho direito a opinar em nada disso? Vocês estão planejando meu casamento como se eu nem estivesse aqui, inclusive a data, o que eu vou vestir, os termos dessa porra de acordo pré-nupcial. Alguém pensou em perguntar o que a Summer e eu queremos?
— Richard — Michael advertiu.
— Não. Vamos ser honestos sobre o que isso é. Vocês precisam de dinheiro pra campanha, a Sam precisa de proteção do FBI, então estão nos trocando como se fôssemos ativos. Pelo menos tenham a decência de não fingir que é outra coisa.
Silêncio.
— Bem... — Autumn disse, baixinho. — Pelo menos vocês dois são honestos sobre se odiarem.
Richard se levantou de supetão. — Com licença. Preciso de ar. — E saiu.
Os olhos do meu pai cravaram em mim. — Vai. Conserta isso.
— Consertar o quê? Ele está certo.
— Summer. — A voz dele baixou para aquele tom mortalmente calmo. — Vai falar com ele agora.
Eu corri para o banheiro, com as mãos tremendo. Três semanas até eu me tornar a senhora Richard McAllister e a minha vida inteira virar uma mentira.
Joguei água fria no rosto. Mal reconheci a pessoa bonita, mas vazia, que me encarava no espelho.
A porta se abriu de repente. Richard estava ali, assustado. — Merda. Banheiro errado.
— Você acha? — Eu recuei até encostar na pia. — Este é o feminino.
— As portas são todas iguais. — Mas ele não foi embora.
— Eu quis dizer o que eu disse lá fora — ele falou, entrando e fechando a porta. — Isso tudo é uma merda.
— Eu sei.
— Eu não quero esse casamento nem um pouco mais do que você.
— Eu sei.
— Só pra ficar claro. — Ele se aproximou. — Esse arranjo não significa nada.
— Claríssimo. — Mas meu coração martelava.
O olhar dele desceu até o meu pescoço, até onde os chupões estavam escondidos sob a maquiagem.
— Você devia ir — eu disse.
— Eu devia. — Ele deu mais um passo.
— Richard.
— Eu sei. — Mas continuou até ficar bem na minha frente, perto o bastante para eu sentir o perfume dele. O mesmo cheiro da noite passada.
— Richard...
A mão dele subiu e cobriu minha boca com delicadeza. — Não grita — ele sussurrou.
O polegar dele roçou meu lábio inferior, e um calor me atravessou inteira. Eu agarrei o pulso dele, puxei a mão para longe e o beijei antes que pudesse pensar melhor.
A resposta dele foi ainda mais intensa; as mãos dele se enfiaram no meu cabelo, e as minhas se agarraram ao paletó dele como se fosse a minha salvação. Ele me ergueu e me colocou sentada na bancada, se encaixando entre minhas pernas. A boca dele foi para o meu pescoço, por cima daquelas marcas escondidas.
— A gente não pode — eu ofeguei, mesmo enquanto minhas mãos iam até o cinto dele. — Eles estão logo ali no corredor.
— Eu sei. — As mãos dele deslizaram pelas minhas coxas, empurrando meu vestido para cima.
Aquilo era insano; nossas famílias estavam a seis metros de distância, mas eu não conseguia parar. Ele puxou minha calcinha para o lado e entrou em mim; eu tive que morder o ombro dele para não fazer barulho.
A gente se moveu junto, frenético, tentando ser silencioso e rápido, enquanto as mãos dele apertavam meus quadris com força suficiente para deixar marcas roxas. Era raivoso, delicioso e desesperado, nada parecido com o que o sexo deveria ser.
Mas, meu Deus, eu não me cansava.
Uma batida na porta fez nós dois congelarmos, a névoa sensual se dissipando na mesma hora.
— Summer? — A voz de Autumn. — Você está aí? Você sumiu faz um tempão.
