Capítulo 5 O ponto de vista de Richard

— Sorria como se você realmente quisesse se casar com ela, Richard.

Resisti à vontade de mandar Derek, o gerente de campanha do meu pai, tomar no cu enquanto ele ajustava minha gravata nos bastidores do Manhattan Center. Ao que parecia, eu fazia parte do show de hoje.

— Eu estou sorrindo — falei entre dentes.

— Você parece constipado. — Derek deu um passo para trás. — Esta é a sua primeira aparição pública com a sua noiva. A imprensa vai devorar isso. Então tente parecer que você não acabou de engolir vidro.

A verdade era que eu mal conseguia olhar para Summer sem lembrar dela prensada contra aquela pia do banheiro três dias atrás. O quão perto chegamos de sermos pegos.

A porta se abriu, e Summer entrou com o pai.

Ela usava um vestido azul-claro, o cabelo loiro caindo em ondas. Quando os olhos verdes dela encontraram os meus, vi o mesmo lampejo de lembrança.

— Vou deixar vocês dois pombinhos a sós — disse Sam, apertando meu ombro com força suficiente para doer. Um lembrete de quem realmente mandava.

— Você está bonita — eu disse quando ficamos sozinhos.

— Você também. — Ela não encarava meus olhos. — Então qual é a história?

— Nos conhecemos num baile beneficente seis meses atrás. Amor à primeira vista.

— Sei. Porque isso é super crível. — Ela finalmente olhou para mim. — Eu odeio isso.

— Bem-vinda ao clube.

— A gente provavelmente devia parecer que consegue se aguentar. As câmeras estão em todo lugar.

— Eu consigo fingir, se você conseguir.

Ela se aproximou, endireitando minha gravata. Para qualquer um que estivesse olhando, pareceria íntimo.

— Só não encosta em mim, a menos que seja absolutamente necessário.

— Não estava planejando.

Mas as mãos dela demoraram no meu peito, e eu conseguia sentir o perfume dela.

— Dois minutos — gritou Derek.

O barulho da multidão era ensurdecedor quando entramos na lateral do palco. O Manhattan Center estava lotado, câmeras alinhadas junto à parede do fundo. Meu pai já estava no palco.

— E agora — a voz de Michael trovejou —, eu gostaria de apresentar meu filho, Richard, e sua linda noiva, Summer Trudeau.

A plateia explodiu.

Ofereci a mão a Summer. Ela encarou, depois pegou, com a palma suada — ou talvez fosse a minha.

Caminhamos para o palco e os flashes dispararam como luzes estroboscópicas. Meu pai puxou Summer para um abraço, a oportunidade perfeita para uma foto.

— Richard e Summer têm uma linda história de amor — anunciou Michael. — Eles se conheceram seis meses atrás e souberam imediatamente que tinham encontrado algo especial. Em um mundo de cinismo político, o amor deles nos lembra que contos de fadas, sim, se tornam realidade.

A plateia engoliu aquilo com gosto.

— Agora, vou deixar o casal feliz dizer algumas palavras.

Summer olhou para mim, o pânico passando pelos olhos. Nós não tínhamos preparado discursos.

Inclinei-me para o microfone.

— Quando conheci Summer, eu não estava procurando amor. Mas às vezes as melhores coisas da vida são aquelas que a gente não planeja. Ela é inteligente, linda e me desafia todos os dias a ser melhor. Eu sou o cara mais sortudo do mundo.

A plateia aplaudiu, e a mão de Summer apertou a minha.

Ela foi até o microfone.

— Richard é tudo o que eu nunca soube que precisava. Ele é gentil, determinado, e me faz rir mesmo quando eu quero estrangulá-lo. — Algumas pessoas riram. — Estar com ele é como voltar para casa. Mal posso esperar para passar o resto da minha vida com ele.

Os aplausos foram ensurdecedores.

— Beija ela — sibilou Derek, da lateral do palco. — As câmeras querem isso.

Eu me virei para Summer.

— A gente tem que fazer.

Acariciei o rosto dela, erguendo-o. Pelas câmeras, eu disse a mim mesmo. Mas, no segundo em que meus lábios tocaram os dela, todo o resto desapareceu. Era para ser rápido, profissional. Em vez disso, aprofundei o beijo, minha mão deslizando para dentro do cabelo dela. Ela soltou um som baixinho e me beijou de volta, os dedos agarrando minha jaqueta.

A multidão foi à loucura.

Quando nos afastamos, Summer parecia tão chocada quanto eu me sentia.

O resto do evento virou um borrão. Mais discursos, mais fotos. Quando finalmente escapamos para os bastidores, meu rosto doía de tanto sorrir.

— Aquilo foi um pesadelo — disse Summer, chutando os saltos para longe.

— Podia ter sido pior.

Meu celular começou a vibrar. Notificações chegando sem parar.

— Estamos nos assuntos do momento. Número um no Twitter.

— Eles vão esperar mais disso. Mais aparições, mais beijos, mais fingimento.

— Esse era o acordo.

— Eu sei. Só não achei que ia parecer tão real.

— Não é real — eu disse, mas minha voz saiu incerta.

— Certo. Não é real. — Ela encontrou meu olhar. — Aquele beijo foi só para as câmeras.

— Óbvio.

Nós nos encaramos, e o ar pareceu pesado, carregado.

— Eu devo ir — disse Summer, por fim. — O carro do meu pai está esperando.

Ela foi embora, e eu fiquei ali sozinho, com o celular ainda vibrando sobre como éramos perfeitos juntos.

Uma mensagem de um número desconhecido apareceu bem naquela hora: Você ficou bem lá em cima. Passa no Four Seasons, quarto 2804. Prometo que sou melhor companhia do que minha irmã. — A

Autumn?

Eu apaguei. Alguns minutos depois, alguém bateu na porta.

— Está aberta.

Autumn entrou usando um vestido vermelho justo.

— O que você está fazendo aqui?

— Vim te parabenizar. — Ela veio na minha direção. — Foi uma bela atuação. Você quase me convenceu. Deve ser exaustivo fingir que está apaixonado pela minha irmã.

— Eu não vou entrar nessa com você.

— Entrar no quê? — Ela estendeu a mão, deslizando um dedo pela minha gravata. — Ter uma conversa?

Eu agarrei o pulso dela.

— Não.

— Por que não? — Ela se inclinou mais perto. — Nós dois sabemos que esse casamento é uma farsa. A Summer não te quer mais do que você quer ela. Então por que perder tempo com alguém que só está fazendo isso porque o papai obrigou?

— Você precisa ir embora.

— Eu poderia facilitar muito a sua vida, Richard. — A mão dela foi para o meu peito. — Eu realmente quero fazer parte desse mundo e eu seria muito mais... flexível do que a Summer.

Ela se inclinou para me beijar, mas eu me levantei de supetão, empurrando-a para trás.

— Sai daqui.

— Você está cometendo um erro. A Summer vai estragar isso para você. Ela não sabe jogar. Mas eu sei.

— Eu disse para sair.

— Tá bom. — Ela alisou o vestido. — Mas quando ela ferrar com tudo — e ela vai — não diga que eu não avisei.

— Fora. — Não havia necessidade de ser educado se ela não ia se respeitar. Eu já tinha ódio mais do que suficiente pela Summer. Não precisava acrescentar mais gente daquela família mafiosa ao meu mundo.

Virei de costas, puxando o celular, encerrando aquela conversa. Encerrando a família Trudeau e seus joguinhos.

Só quando ouvi o sussurro suave do tecido tocando o chão foi que percebi que Autumn nunca tinha ido embora.

Eu me virei devagar.

O vestido se acumulava aos pés dela como vinho derramado. Ela estava completamente nua, me observando com aqueles olhos escuros e calculistas, sem o menor traço de vergonha. O queixo erguido, me desafiando a desviar o olhar.

Eu abri a boca e, naquele mesmo instante, a porta se escancarou, e a última pessoa que eu esperava ver ficou paralisada na entrada.

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