Capítulo 1 De volta ao meu passado
Ponto de vista de Mia
Sentei-me na ponta mais afastada da mesa de conferências do escritório de advocacia Aldrin and Vale, com as costas retas e a postura calma e controlada. Minha caneta repousava de leve entre meus dedos, intocada.
Por um momento, meu olhar se desviou para além das paredes de vidro da sala de reuniões, contemplando a cidade lá embaixo. Dali de cima, tudo parecia tranquilo e fácil de controlar.
Exatamente do jeito que eu gostava.
Eu não tinha anotado uma única observação, e não precisava. Já entendia como aquelas reuniões funcionavam.
— Mia — chamou o sr. Vale.
Ergui o olhar, firme e serena. Richard Vale, meu chefe e um dos sócios seniores do escritório, me observava atentamente.
— Você vai me acompanhar na segunda-feira — disse ele. — Cliente grande. Muito grande.
Inclinei a cabeça de leve, mantendo a expressão indecifrável.
— Quão grande?
— Do tipo que não perde — respondeu ele. — O CEO é um jovem bilionário. Perigoso. Do tipo que constrói impérios e queima pontes sem olhar para trás.
Algo se agitou dentro de mim. Não medo, mas expectativa.
— E o senhor quer que eu cuide dele ou da empresa dele? — perguntei, com a voz calma e controlada.
Vale não respondeu de imediato. Ele me estudou por um instante, com os dedos entrelaçados diante de si, antes de se recostar na cadeira. Sua expressão mudou, mais séria agora.
— Eu quero você no seu melhor, Mia — disse ele. — Embora você nunca entregue menos do que isso.
Sustentei seu olhar, esperando. Ele fez um pequeno aceno de cabeça, como se confirmasse algo para si mesmo.
— Claro que você é uma profissional de primeira. Eu precisava apenas da melhor para isso, e essa é você.
Algo silencioso e firme se acomodou no meu peito; não era orgulho, não mais. Apenas certeza.
— Mas essa conta — continuou ele, com o tom mais incisivo —, nós precisamos dela.
Não o interrompi. Deixei que continuasse.
— Há vários escritórios tentando conquistá-lo — acrescentou Vale. — Escritórios de ponta. Agressivos. Eles sabem o que está em jogo.
Ele fez uma pausa e então se inclinou um pouco para a frente.
— E esse CEO... ele não é fácil de agradar. Extremamente rigoroso quando se trata de questões jurídicas. Cada detalhe precisa ser impecável. Não há espaço para erros. Nem segundas chances.
Uma centelha se acendeu dentro de mim. Era exatamente o tipo de cliente que eu queria. O tipo que não apenas testa suas habilidades, mas exige tudo o que você tem.
O olhar de Vale endureceu.
— Um passo em falso, e ele vai embora. Esse é o tipo de cliente que ele é.
— E o senhor ainda quer que eu cuide dele? — perguntei, firme, sem me abalar.
Um sorriso lento, cheio de certeza, curvou seus lábios.
— Acho que você consegue dobrá-lo. Você tem um certo... efeito sobre os homens.
Franzi levemente a testa ao encará-lo.
— Eu não conto com charme, senhor — respondi com firmeza. — Eu conto com estratégia.
As palavras saíram firmes, ancoradas em algo mais profundo do que confiança. Esta não era a garota que um dia questionou seu lugar em uma sala. Eu tinha conquistado cada assento, cada título, cada grama de respeito.
Vale deu uma risadinha, claramente satisfeito.
— Exatamente por isso escolhi você.
Mas meus pensamentos já estavam seguindo adiante.
Eu não estava pensando em quão difícil o cliente poderia ser. Estava pensando em como homens como ele costumavam ser previsíveis. Poderosos. Controlados. Acostumados a vencer.
Eu já tinha lidado com coisa pior.
Vale deslizou um arquivo pela mesa, e a pasta parou bem à minha frente. Não estendi a mão para pegá-la.
“Você não vai perguntar quem é esse grande cliente, dra. Villaruiz?”, ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Balancei a cabeça, com um leve sorriso tocando meus lábios.
“Não é necessário”, respondi. “Não importa o quão rico ou poderoso ele seja, eu posso lidar com ele. Conheço o tipo.”
Fiz uma pausa, sustentando seu olhar com uma certeza tranquila.
“Eu mesma vou cuidar disso. Obrigada por confiar isso a mim. Garanto ao senhor, sr. Vale, que vamos conquistar essa conta.”
O sorriso dele se alargou, o orgulho inconfundível. “Era exatamente isso que eu estava esperando ouvir de você, Mia.”
O jeito como ele disse meu nome suavizou alguma coisa dentro de mim. Um lembrete silencioso: eu já pertencia àquele lugar. E fosse quem fosse esse cliente, ele só ainda não sabia disso.
Na segunda-feira, cheguei cedo, com o som firme dos saltos no mármore, a pasta ainda fechada descansando dentro da minha bolsa. Eu preferia assim. Sem expectativas. Sem vieses. Só instinto.
“Bom dia! Está pronta?”, Vale perguntou ao entrar no veículo da empresa.
“Claro, estou sempre pronta e animada para novas oportunidades”, respondi com confiança, e o sorriso dele se ampliou.
No instante em que o veículo parou diante de um prédio familiar, meu corpo inteiro congelou, mas não deixei que Vale percebesse minha expressão abalada, então tentei parecer calma, mesmo que meu coração não estivesse.
De todos os prédios desta cidade, por que tinha que ser justamente este? Por que tínhamos que parar aqui, na Alcaraz Tower?
Mantive o olhar à frente quando saímos do carro, meus saltos firmes contra o asfalto, minha expressão calma. Mas, por dentro, algo que eu havia enterrado muito tempo atrás começou a se agitar, silencioso, porém impossível de ignorar.
Eu não me permitia nem pensar no nome dele.
Eu havia me treinado para não fazer isso.
Durante anos, construí essa disciplina com cuidado, pedaço por pedaço, até que ela se tornou algo natural. Porque eu sabia que, no momento em que me permitisse lembrá-lo, nem que fosse por um segundo, tudo o que eu tinha trabalhado tanto para reconstruir poderia começar a rachar.
Não era como se eu nunca tivesse ouvido falar dele. Isso teria sido impossível. Liam Alcaraz estava em toda parte. O nome dele tinha peso no meio empresarial, nas manchetes, em conversas que não tinham nada a ver comigo e que, ainda assim, encontravam um jeito de chegar aos meus ouvidos. As pessoas o admiravam e o temiam. Falavam do sucesso dele como se fosse algo intocável. E, toda vez que eu ouvia isso, escolhia ignorar.
Eu evitava as notícias sempre que o nome dele aparecia. Me afastava de conversas que mencionavam sua família, sua empresa ou as pessoas poderosas ligadas a ele. Até o nome da família da noiva dele era algo que eu me recusava a reconhecer.
Era mais fácil e mais seguro assim. Eu dizia a mim mesma que o passado tinha ficado para trás. Que o que quer que tivéssemos tido um dia já não importava mais. Mas, agora, estando aqui, bem em frente ao prédio que levava o nome dele, percebi o quão frágil aquela mentira realmente era.
Voltei à capital pouco depois de ser aprovada no exame da Ordem, atraída por uma oportunidade que eu não podia ignorar. O próprio Richard Vale me ofereceu um cargo. Ele não deixou isso nas mãos de um assistente nem de um e-mail formal. Ligou para mim pessoalmente. Só isso já dizia o bastante.
Durante aquela ligação, ele deixou claro que não estava procurando apenas mais uma associada. Queria alguém capaz de assumir os tipos de casos que os outros evitavam, aqueles que exigiam precisão, resiliência e disposição para se manter firme sob pressão.
Ele acreditava que eu era essa pessoa porque tinha feito sua pesquisa sobre mim. Depois que meu nome se tornou uma sensação nacional por ter ficado em primeiro lugar no exame da Ordem, tudo sobre a minha vida foi exposto.
Descobriram que eu trabalhei em empregos de meio período só para conseguir concluir meus estudos, que eu me sustentava muito antes de sequer pisar num tribunal.
E, para eles, isso significava uma coisa só. Eu sabia trabalhar sob pressão. Eu não apenas sobrevivia a ela. Eu prosperava nela.
Tornar-me a número um enquanto lutava para bancar minha educação e minhas necessidades diárias não foi sorte. Foi prova de que eu conseguia suportar. De que eu podia lutar e vencer.
Além disso, a oferta dele era mais do que generosa. Era o tipo de oportunidade pela qual as pessoas esperam anos, o tipo que não aparece duas vezes.
E Aldrin and Vale não era apenas qualquer firma. Era um dos escritórios de advocacia mais respeitados do país. Um lugar onde carreiras eram construídas, onde reputações eram forjadas, onde só os melhores tinham permissão para ficar.
Recusar teria sido um erro. E eu nunca fui o tipo de pessoa que vira as costas para algo que conquistou.
Eu era grata por Josh já ter estabelecido seu escritório principal aqui, o que tornou a decisão mais fácil. Saber que meu melhor amigo estaria na mesma cidade me dava uma sensação de conforto que eu não queria admitir que precisava.
Forcei-me a voltar ao presente e caminhei ao lado de Vale, mesmo com o caos se agitando dentro de mim, meus pensamentos disparados, meu coração inquieto diante de cada possibilidade. Enterrei tudo isso. Por enquanto, eu tinha um objetivo. Pretendia provar que Vale estava certo.
Mas, no instante em que entrei na sala de reuniões, tudo parou. Minha respiração falhou, meus passos vacilaram pela fração mais breve de um segundo, e o mundo pareceu inclinar-se sob meus pés.
Porque, sentado ali, como se nunca tivesse ido embora, estava o homem que um dia me despedaçou. Oito anos, e ainda assim... meu coração se lembrava dele bem demais.
Liam Alcaraz se levantou. Parecia composto, poderoso, exatamente como eu me lembrava e completamente diferente ao mesmo tempo. Parecia mais largo, mais frio e mais afiado, como se os anos o tivessem transformado em alguém mais fechado e no controle.
Aqueles anos desapareceram em um único batimento do coração. Foi Richard Vale quem deu um passo à frente primeiro, completamente alheio à tempestade na qual acabara de nos lançar.
— Sr. Alcaraz — ele disse, com suavidade, gesticulando na minha direção. — Esta é a advogada Mia Villaruiz, uma das melhores do meu escritório. Na verdade, no momento ela é a nossa advogada mais requisitada. Ela vai conduzir as negociações do seu contrato.
As palavras dele ecoaram nos meus ouvidos, mas tudo o que eu conseguia ouvir era a disparada do meu próprio pulso.
Naquele exato instante, o olhar de Liam Alcaraz encontrou o meu, e tudo pareceu parar. Eu me esqueci de como respirar, mas me recusei a demonstrar. Forcei minha expressão a um profissionalismo calmo, trancando toda emoção atrás de um muro que eu tinha passado anos construindo. A raiva, a ansiedade e as lembranças que eu não estava pronta para encarar. Enterrei tudo aquilo.
Eu não estava preparada para vê-lo de novo. E eu tinha jurado a mim mesma que jamais permitiria que ele voltasse para a minha vida, de forma alguma.
— Sr. Alcaraz — eu disse, com a voz firme, controlada.
— Advogada Villaruiz — ele respondeu com a mesma suavidade.
Como se fôssemos estranhos e nunca tivesse acontecido nada. Eu me agarrei a isso. Agi como se não o conhecesse de jeito nenhum. Como se ele fosse apenas mais um cliente. Apenas mais um homem sentado do outro lado da mesa.
Mas a diferença era impossível de ignorar. Porque, enquanto eu me recusava a olhar para ele por mais tempo do que o necessário, ele não desviava o olhar. Eu conseguia sentir os olhos dele em mim o tempo todo.
O jeito como ele me olhava parecia pesado e intenso. Como se estivesse tentando enxergar através de tudo o que eu escondia.
Depois disso, a reunião virou um borrão. Números foram discutidos. Contratos, revisados. Termos, negociados.
Eu falava quando era preciso. Eu anotava. Eu respondia com precisão. Mas nada daquilo realmente entrava na minha cabeça.
Porque, toda vez que eu me dava conta de que ele estava me observando, era como se ele estivesse arrancando cada camada que eu tinha construído ao longo dos anos. Como se ele ainda me conhecesse. Como se ainda pudesse alcançar partes de mim que eu tinha me esforçado tanto para enterrar.
Eu o odiava por isso. E, mais do que tudo, eu odiava o fato de que, depois de tudo, ele ainda tinha aquele efeito sobre mim.
E pior: eu me odiava por notar o quanto ele tinha mudado, por lembrar o som da voz dele e por perceber que ele estava ainda mais bonito do que antes.
Eu tinha prometido a mim mesma que seria intocável. Mas, no momento em que nossos olhos se encontraram, eu soube que aquela promessa tinha rachaduras.
Por fim, a reunião terminou. Eu saí primeiro, mais depressa do que pretendia. Quando cheguei ao fim do corredor, precisei parar, pressionando a mão contra a parede enquanto minha respiração ficava irregular.
— Se controla, Mia — eu sussurrei para mim mesma.
— Você não é mais aquela garota.
Aos poucos, endireitei a postura de novo, forçando-me a manter a calma. Cada passo que dei depois disso foi firme, cuidadoso e sob controle.
Qualquer um que me visse acharia que eu estava bem. Mas, por dentro, eu estava me despedaçando em partes que eu achava que tinha enterrado. Eu aceitei a oferta de Richard Vale sem hesitar. Achei que estava apenas escolhendo o meu futuro. Não percebi que também estava caminhando diretamente de volta para o meu passado.
