1.

Farryn ergueu a cabeça devagar por cima do tronco caído atrás do qual estava escondida. As unhas se cravaram na casca áspera, prontas para forçar o corpo a se pôr de pé, enquanto seus olhos verde-musgo acompanhavam o movimento de três homens à sua frente. Eles avançavam desajeitados pela floresta, com passos altos e inseguros. Era óbvio que eram humanos. Estavam fora do próprio ambiente, mas sabiam que estavam na área certa. Uma mão suave apertou com firmeza o ombro de Farryn; sua irmã, Rae, sinalizava que era hora de irem, já que os humanos estavam longe o bastante para não ouvi-las.

Engolindo em seco, Farryn assentiu; as duas lançaram um último olhar para os humanos antes de começarem a se esgueirar para longe e, aos poucos, se erguerem até a altura total. Farryn era quatro anos mais nova que a irmã, mas ainda assim era bem mais alta, com 1,78 m — algo bem incomum para uma fêmea. Elas tinham acabado de entrelaçar as mãos quando os humanos atrás delas gritaram. Pararam por um instante mínimo para olhar por cima dos ombros; foi tudo o que bastou. Um único tiro ecoou pela floresta; a cabeça de Rae tombou para trás quando a bala encontrou seu destino entre os olhos. O corpo dela desabou antes mesmo de o sangue começar a correr.

Farryn gritou, num misto de horror e dor, com a loba dentro dela uivando a raiva contra os humanos. Um vermelho começou a se assentar sobre sua visão como uma película; sua loba não queria nada além de rasgá-los em pedaços, mas, quando Farryn ergueu o olhar, viu que eles levantavam a arma mais uma vez, agora apontada para ela. Ela sabia que não conseguiria encurtar a distância até eles antes de levar um tiro. Com um soluço dilacerado, soltou a mão da irmã e correu, enquanto a bala zunia, passando um ínfimo segundo atrás de onde ela estivera. Deixar o corpo da irmã nas mãos dos humanos doía mais do que levar aquela bala doeria, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. A raiva em sua cabeça, pouco a pouco, mudou de direção — para ela mesma. Que tipo de loba ela era? Como podia simplesmente fugir como uma covarde? Farryn rosnou ao fechar os olhos, sacudindo para longe os pensamentos acusatórios da própria loba.

— Eu não vou morrer! Se isso significa correr, tudo bem, mas eu não vou morrer — ela rosnou para a loba.

A floresta ao redor estava silenciosa enquanto ela corria; as chances de os humanos alcançarem-na eram pequenas. A loba pressionava a borda da sua mente — queria sair, queria vingança.

— Para com isso! Eu não vou morrer! — gritou Farryn, antes de frear até parar.

Os olhos se apertaram, fechados, enquanto ela forçava a loba a recuar, a ficar quieta, a parar de pressioná-la.

Farryn se sentou de supetão, ofegante. O corpo estava em brasa, e havia suor em sua testa enquanto lutava por ar. Tinham se passado três anos e, quase todas as noites, a mesma lembrança assombrava seus sonhos. A febre tornava os sonhos piores, mais vívidos, e deixava a dor recente outra vez. Abafando uma tosse, virou de lado e se colocou de pé. O corpo oscilou, os músculos gritando em protesto, mas ela já tinha parado tempo demais e precisava de comida. Comida e água fresca seriam ótimas agora, né? Parecia que o pensamento ecoava dentro da sua cabeça, fazendo-a se encolher. Com um suspiro rouco, Farryn se agarrou a cada galho que encontrava para se impulsionar adiante. A floresta parecia ficar ainda mais silenciosa a cada dia; o outono estava quase no fim, e a comida ficava mais difícil de achar — assim como alguém como ela. Uma tosse úmida irrompeu do peito; ela cerrou os dentes com a dor latejando na cabeça enquanto tentava forçar os ouvidos a captar o som de água corrente. Caminhou um pouco mais de um quilômetro antes de finalmente dar sorte.

As árvores haviam começado a rarear e, aos poucos, abriram passagem para um córrego de água cristalina que desaguava num lago. As lágrimas se acumularam em seus olhos quando ela cambaleou até o córrego antes de desabar, aliviada. Suas mãos apanharam pequenos punhados de água, que ela bebeu depressa. Depois de se fartar, obrigou-se a se ajoelhar e fitou o lago. Era lindo. Sua mãe teria amado aquilo. De repente, a água refrescante ficou amarga em sua boca só de pensar nisso. Com um sacudir de cabeça, ela se levantou devagar e desgrudou a camiseta do corpo, desabotoando a calça antes de tirá-la desajeitadamente. Ela nem se lembrava da última vez que tomara um banho ou nadara, e a água fria ia ser maravilhosa na pele febril. Quando Farryn desafivelou o sutiã e deslizou a calcinha para fora, olhou para o próprio corpo. Com seus 1,78 m, era mais osso do que qualquer coisa; não sobrava músculo nenhum, dava para contar cada costela, então ela sabia que as bochechas estavam fundas. Era isso que ela merecia por ter abandonado a irmã.

Farryn já tinha entrado na água até os joelhos quando a floresta explodiu em vida ao redor dela. Por um instante, ela se assustou ao ouvir os pássaros e insetos voltarem a se agitar, mas o timing era estranho. Depois de olhar em volta, deu mais alguns passos, até que o som de um ronco grave alcançou seus ouvidos. No começo, pareceu trovão, mas não havia uma nuvem no céu. Quando o som veio de novo, ela entendeu o que estava ouvindo. Devagar, cautelosa, olhou por cima do ombro e encontrou dois lobos negros enormes, com a cabeça baixa, o rabo erguido e os lábios repuxados num aviso, enquanto rosnavam para ela. Tinham a mesma altura e os mesmos olhos azul-acinzentados; o fato de não terem partido para o ataque a deixou um pouco confusa, mas, mesmo assim, ela ergueu as mãos para mostrar que estava desarmada e se rendia. O lobo da esquerda levantou a cabeça, deu um passo à frente e a encarou, examinando seu corpo magro, antes de rosnar outra vez. Farryn se virou lentamente para encarar os dois de frente. Não se importou por estar nua.

— Eu não sou humana — sussurrou. A voz estava áspera por falta de uso, mas ela manteve o tom baixo; afinal, não era ameaça para eles. O rosnado cessou enquanto os dois se comunicavam por meio do vínculo; o lobo mais perto cheirou uma vez, depois outra. Os olhos do lobo se estreitaram, e o corpo não relaxou. Ele não parecia confiar nela. Com um último rosnado, os lobos se transformaram — como Farryn suspeitava, eram gêmeos idênticos. As duas garotas diante dela estavam bem alimentadas, o que arrancou um ronco do estômago de Farryn. Tinham o mesmo cabelo castanho-chocolate na altura dos ombros e olhos azul-claros.

— Se você não é humana, então se transforme — ordenou a garota mais próxima.

Farryn baixou as mãos ao lado do corpo, os olhos verde-opacos sustentando o olhar desafiador da estranha.

— Eu não consigo. Eu a perdi.

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