2.
As duas garotas trocaram um olhar rápido; a que estava mais perto soltou um muxoxo. Seja lá o que a silenciosa tivesse dito, não era o que a outra queria ouvir.
— Você parece que vai cair se o vento soprar do jeito certo. Quem é você?
Os braços de Farryn se envolveram devagar ao redor do próprio corpo; a água fria estava ajudando a febre, ajudando sua mente a clarear.
— Farryn. Farryn Amari, anteriormente da alcateia Clear Oak.
Por instinto, Farryn abaixou um pouco a cabeça, em respeito. A garota mais próxima fez um “hm” de descontentamento antes de voltar para o lado da irmã, que enfim falou:
— Nós somos Amelia e Emily Taylor, da alcateia Storm. Você está invadindo o nosso território.
As sobrancelhas de Farryn se contraíram, confusas, enquanto ela erguia a cabeça. Aquilo não fazia sentido; era logo do lado de fora do território da antiga alcateia dela, não havia alcateia nenhuma tão perto. Antes que pudesse abrir a boca para corrigir a irmã simpática, a floresta voltou a ficar silenciosa. As irmãs se entreolharam depressa.
— Emily, não me diga que você…
Amelia falou. Emily deu de ombros, displicente, com um sorriso inocente.
— Ele queria saber se a gente tinha encontrado alguém — explicou.
Enquanto isso, Farryn só ficava mais confusa, até que um lobo cinzento enorme surgiu, com vários outros lobos grandes atrás — embora nenhum tão grande quanto o líder. O lobo cinzento lançou o olhar primeiro para as gêmeas, como se avaliasse se estavam bem, e então seus olhos encontraram Farryn.
O olhar vazio de Farryn encontrou o dele, hostil e ao mesmo tempo curioso. O pelo tinha a cor de uma nuvem de tempestade cinza-escura, enquanto os olhos eram como o céu azul e limpo de um dia de verão. Ele fungou algumas vezes, o som alto tirando Farryn da observação — e então ela percebeu que ele tinha se aproximado. A hostilidade dele diminuiu, mas a curiosidade cresceu. Farryn deu alguns passos rápidos para trás, surpreendendo a si mesma e a todos com a agilidade repentina.
— Então talvez ela não estivesse mentindo afinal.
Os olhos de Farryn se voltaram num estalo para Emily.
— Claro que eu não estava mentindo! — o lábio de Emily se ergueu enquanto ela rosnava um aviso para a suposta intrusa.
Um único latido seco do grande lobo cinzento à frente de Farryn calou Emily na hora e fez todos voltarem a atenção para ele. Então ele era um alfa, mas… como todos eles podiam estar ali? Os humanos tinham tomado o território dela anos atrás. Ele se virou rapidamente, fazendo um gesto com a cabeça para as garotas antes de ir embora. Amelia se aproximou devagar de Farryn, recolhendo as roupas dela na beira da água.
— Venha com a gente. — Amelia estendeu uma mão gentil e um sorriso ainda mais gentil para Farryn, embora estivesse claro que Farryn não tinha escolha nenhuma no assunto. Ainda assim, Farryn hesitou, os olhos se movendo rápido; a percepção da situação em que estava finalmente começou a se assentar em sua mente febril. As mãos dela começaram a tremer, até Amelia segurar uma delas com um toque suave, porém firme. — Não tenha medo, o nosso Alfa quer falar com você pessoalmente, mas num ambiente mais confortável e com pessoas mais vestidas. — Ela deu uma risadinha. Emily estava na beira d’água, de braços cruzados, a desconfiança assustadoramente nítida no olhar.
— Ah… tudo bem, então eu posso ir, né? Eu não percebi que tinha entrado no território de outra pessoa. Não notei nenhum marcador de cheiro. — As gêmeas trocaram mais um olhar, o que começou a preocupar Farryn cada vez mais. Nenhuma das duas disse mais nada enquanto Amelia entregava as roupas a Farryn e a puxava para longe da água. Amelia fez um gesto para Emily ir — provavelmente buscar as roupas delas. O estômago de Farryn roncou mais uma vez quando começaram a caminhar, mas a fome agora era a última coisa em sua mente. Eu não vou morrer. Eu me recuso.
A caminhada até a casa da matilha não era muito mais longe do lago; Farryn na verdade acabaria tropeçando nela em algum momento. Era uma cidadezinha, casas bem próximas umas das outras, com uma verdadeira mentalidade de matilha. Quanto mais Farryn olhava em volta, mais percebia que conhecia aquela cidade. Sempre tinham dito para ela ficar longe dali; humanos viviam ali. Mas, observando o jeito como Emily e Amelia caminhavam por lá, isso fez Farryn questionar a própria memória. Só que a memória era a única coisa que ainda estava intacta.
— Chegamos. — Farryn piscou ao erguer o olhar para a grande casa de três andares para onde a tinham levado. Parecia quase um prédio de prefeitura; certamente poderia passar por um.
— Vai. — Emily empurrou Farryn por trás; ela não tinha percebido que Amelia soltou sua mão e foi até a porta da frente. O rosto de Farryn corou quando ela se aprumou e entrou na casa.
— Amelia, Emily, agradeço às duas, mas podem ir. — As gêmeas congelaram no lugar e abaixaram a cabeça depressa, em respeito. Os olhos de Farryn seguiram o som daquela voz jovem e ao mesmo tempo autoritária até encontrar um homem alto parado numa porta próxima. O porte dele deixava óbvio que era o mesmo lobo cinza-escuro que tinha sustentado o olhar dela antes. Os olhos dele pareciam carregar o mesmo aspecto tempestuoso do pelo: um marrom chocolate tão escuro que, sob a luz certa, poderia passar por preto. Ele devia ter cerca de um metro e noventa e seis, ombros largos e cabelo loiro curto, mais baixo nas laterais do que no topo. Era um corte que Farryn havia notado ser bem popular entre os homens humanos. O homem pigarreou, aqueles olhos de tempestade fitando-a com expectativa.
— O quê? — Farryn olhou para trás, para ver se havia mais alguém ali e constatar que ele realmente estava encarando-a; por um instante, a expressão dele se quebrou, revelando surpresa, antes que percebesse que ela não estava escutando. — Eu perguntei se você estava com fome.
Farryn piscou uma vez. Que tipo de pergunta era aquela? Ela provavelmente estava a uma semana de morrer de fome.
— Sim... sim, estou... obrigada, hum... — A frase morreu, porque ela não sabia o nome dele, e ele se virou e começou a conduzi-la para dentro da casa, até a sala de jantar, onde uma grande variedade de comida já a aguardava. Os joelhos de Farryn tremeram de leve quando os diferentes cheiros chegaram ao seu nariz; ela nem hesitou em puxar uma cadeira e começar a comer, sem esperar para ver se ele se sentaria ou diria seu nome. Em vez disso, ele se encostou na parede, de braços cruzados, observando a fêmea faminta devorar o máximo de comida que conseguia até ficar saciada. Depois do que pareceu uma hora, Farryn finalmente começou a diminuir o ritmo e, por fim, parou, recostando-se e respirando fundo.
O macho não conseguiu evitar um sorriso de canto; será que ela tinha ao menos respirado enquanto comia?
— Seu nome era Farryn, certo? A Emily me disse, mas sempre existe a chance de ela ter entendido errado. Ela disse que você vinha da matilha Clear Oak...
Farryn limpou a boca com as costas da mão quando o macho finalmente se sentou à cabeceira da mesa, como se aquilo fosse instintivo para ele.
— Sim. Esse é o meu nome e essa... era a minha matilha. — Ela engoliu em seco, mas se obrigou a sustentar o olhar. — Eles foram exterminados quatro anos atrás; eu sou a única sobrevivente da matilha. Ainda assim, eu gostaria de pedir desculpas por invadir. Eu realmente não sabia. Antes não havia território de matilha aqui.
Dessa vez foi a vez dele respirar fundo.
— Sinto muito pela sua matilha. Nós ouvimos dizer que os humanos tinham eliminado alguns dos nossos irmãos, mas não achamos que chegariam a pegar uma matilha inteira. — Ele balançou a cabeça de leve antes de entrelaçar os dedos. — Nós somos originalmente de uma área mais ao norte. Ficou extremamente perigoso, então descemos para o sul, para cá. Esta cidade estava bem largada, com apenas alguns humanos aqui e ali. Decidimos que seria um bom lar para nós, então... nós a tomamos.
Farryn franziu a testa. Era assim que guerras começavam. Era por isso que eram caçados em primeiro lugar. Porque alfas territoriais achavam que estava tudo bem simplesmente tomar o que quisessem.
— Desculpe. Eu sou Jason. — Ele estendeu a mão com cuidado, para apertar a dela. Farryn observou a mão com outro franzir de testa; que alfa estranho, de fato. O alfa da matilha dela certamente não era assim, tão aberto e gentil. — Obrigada pela bondade que o senhor me mostrou, Alfa Jason. Eu vou seguir meu caminho agora e sair do seu território o mais rápido possível.
Farryn segurou a mesa e empurrou a cadeira para trás, mas antes que pudesse se levantar Jason esticou o braço e agarrou seu pulso, impedindo-a. Os olhos dele pareceram lampejar com outra emoção, mas ele foi rápido em escondê-la antes que desse para ler.
— Sim, eu lhe mostrei uma grande bondade, que eu certamente não precisava mostrar. Em troca, você pode explicar o que quis dizer quando disse à Emily que não se transformaria para provar que não é humana. Eu também ainda estou me perguntando sobre isso.
Farryn tentou puxar o pulso para longe, mas o braço dele não se mexeu, e a mão dele tampouco. Os olhos de Jason se estreitaram quando o aperto se intensificou; ela cerrou o maxilar, resistindo ao impulso de sibilar de dor.
— Você está me machucando — ela sussurrou.
Farryn colocou a mão livre sobre a dele e tentou forçar os dedos a se abrirem.
— Mesmo agora, você não mostra sinal nenhum de lobo — ele rosnou, antes de se levantar e puxá-la para cima também. — Você implora e se contorce como uma humana, você fede como uma humana, e ainda assim afirma ser uma de nós.
Agora ele começava a agir como o tipo de alfa a que ela estava acostumada. A dominância e a raiva que emanavam dele à ideia de que ela tinha tentado enganá-lo para salvar a própria vida fizeram lágrimas brotarem nos olhos dela, por algum motivo.
— Alfa Jason, por favor, eu juro pela Deusa da Lua que não estou mentindo. Eu não disse que não me transformaria; eu disse que não conseguia, então por favor... está doendo.
Mencionar a Deusa da Lua pareceu trazer um breve hesitar ao alfa, mas esclarecer o que tinha dito à Emily com certeza não ajudou. Ele rosnou mais uma vez antes de finalmente soltar o pulso dela. Farryn deu passos rápidos para trás, como no lago, com o pulso pressionado contra o peito.
— Você não vai a lugar nenhum até falar — ele ordenou, antes de sair do cômodo a passos duros, batendo a porta atrás de si e deixando Farryn sozinha na sala de jantar.
