3.
Farryn girou os ombros devagar, soltando o pulso, e encarou a porta que havia sido fechada. Ele estava insinuando que agora ela seria uma prisioneira sem cela ali? Ela pressionou de leve as pontas dos dedos contra os olhos para impedir que as lágrimas escorressem pelas bochechas, antes de puxar o ar devagar. O corpo parecia mais pesado depois de enfiar tanta comida para dentro e, se tivesse uma cama, ela cairia no sono com prazer. Em vez disso, sacudiu a leve tontura que começava a tomar conta dela e se aproximou da porta. Com a mão na maçaneta, inclinou-se para a frente e encostou a orelha na madeira, devagar. Quando não ouviu nenhum movimento nem conversa do outro lado, abriu a porta e encontrou Emily ali, com as mãos na cintura e um sorriso de desdém no rosto.
— Estamos tendo que desperdiçar nosso tempo e nossos recursos com você.
Ela foi informada, e, mesmo sem Emily dizer, dava para perceber que a mulher preferia simplesmente matá-la e acabar logo com aquilo. Mas as ordens não eram essas. Emily passou os olhos pelo corpo de Farryn; é claro que tinha notado a magreza da intrusa e sabia que ela dificilmente poderia representar uma ameaça, mas humanos eram ardilosos. Sempre podia ser um truque.
— Não fica aí parada! — Emily rosnou de repente, começando a sair da casa. — Vamos.
Amelia esperava do lado de fora com paciência; a presença dela era muito mais acolhedora do que a da irmã.
— Obrigada, Emily, por... bem, você sabe, não me atacar à primeira vista.
A mulher revirou os olhos com tanta força que Farryn se surpreendeu por não ter ouvido o som. Amelia colocou uma mão orientadora logo acima do cotovelo de Farryn quando começou a andar, puxando-a junto.
— Não liga pra ela; ela é assim com todo mundo, então não leva pro lado pessoal. Enfim, o Alfa Jason mandou a gente ajudar você a se acomodar. Não sabemos quanto tempo você vai ficar aqui, mas não precisa que a sua estadia seja desconfortável. Você vai ficar com a gente. Acho que talvez a gente seja do mesmo tamanho, mas é meio difícil dizer agora.
Agora fazia sentido por que Emily tinha dito que eram os recursos delas que estavam sendo desperdiçados. Eram mesmo os recursos pessoais delas. Farryn olhou em volta; a cidade começava a ganhar vida aos poucos, apesar da chegada dela.
— Eu não vou ficar muito tempo — prometeu Farryn, e Emily finalmente sorriu.
— Ótimo! Então você vai contar pra gente por que não consegue se transformar?
Farryn ouvia a dúvida e a agressividade na pergunta de Emily; elas queriam uma prova de que ela era humana para ter uma desculpa para matá-la.
— Porque eu não consigo — respondeu ela simplesmente, com uma inclinação inocente da cabeça enquanto encarava o olhar furioso de Emily.
Amelia soltou uma risadinha ao lado de Farryn; talvez a garota se encaixasse melhor do que elas imaginavam.
— A Emily tem certa razão, no entanto: essa é a única condição do Alfa Jason antes de libertar você. A gente precisa saber, sem nenhuma dúvida, quem você é, Farryn. Sabemos que você estava sozinha; podemos supor que esteja sozinha há muito tempo, pelo seu estado, mas não sabemos quem está aí dentro.
Farryn obrigou a si mesma e suas escoltas a parar no meio da rua. As pessoas que passavam olharam com curiosidade, mas continuaram andando, ainda assim.
— Se eu provar que sou abençoada pela Deusa da Lua, eu posso ir?
Emily e Amelia assentiram ao mesmo tempo. Não havia necessidade de perguntar o outro lado da questão; o toque firme de Amelia, conduzindo-a, e a hostilidade de Emily já eram resposta suficiente. Ela não era exatamente uma prisioneira, mas seria vigiada o tempo todo até que eles soubessem o que precisavam. Farryn estava prestes a soltar um murmúrio pensativo quando uma crise de tosse a pegou. Ela foi rápida em cobrir a boca; apesar de estar longe da civilização havia anos, ainda tinha educação.
— Vamos, vamos pôr você pra dentro. Tem remédio lá em casa, e uma noite de sono de verdade provavelmente vai te fazer bem.
Amelia parecia do tipo maternal até com uma estranha, o que, em parte, confortou Farryn — mas provavelmente esse era o objetivo. Fazia todo sentido, afinal. Era mais fácil arrancar informação de alguém confortável do que de alguém que vivia na defensiva.
Farryn acordou na manhã seguinte se sentindo muito melhor do que antes. A febre tinha baixado, e a comida no estômago ajudou, junto com o remédio que as irmãs haviam dado a ela. Ela soltou um gemido baixo ao se sentar. As gêmeas tinham cedido o quarto de hóspedes para ela usar; não era nada sofisticado, mas, para Farryn, equivalia a uma suíte. A cama de casal ocupava um bom espaço do cômodo, e Amelia tinha sido gentil o bastante para emprestar algumas roupas suas, além de obrigar Emily a emprestar algumas também.
Ela se moveu devagar, empurrando os cobertores para longe do corpo, e foi até o banheiro anexo, os olhos captando o reflexo no espelho. Era a primeira vez, em quatro anos, que via a própria imagem em algo que não fosse a superfície de uma água. Sua altura ressaltava o quanto tinha definhado. O fato de ainda estar viva era, de verdade, chocante. O cabelo, que antes tinha ondas castanhas grossas e brilhantes, estava chapado e opaco, assim como os olhos. Os dedos seguiram lentamente a curva do osso do ombro, antes de descerem até os cotovelos, onde ela se abraçou por um instante. Precisava enrolar a alcateia tempo suficiente para recuperar um pouco de músculo e força. Se tentasse fugir, seria morta na hora; se conseguisse fugir, morreria aos poucos.
Farryn suspirou, então se despiu completamente e entrou no chuveiro para se limpar um pouco. Precisava ser o mais complacente possível ali dentro se quisesse sobreviver; quanto mais conseguisse se misturar ao fundo, mais fácil seria sumir depois.
