4.
Já fazia pouco mais de uma semana desde que as gêmeas tinham encontrado Farryn, e o tempo passado com a Matilha Storm ajudara a estranha a começar a recuperar o peso. Ela já não era só pele e osso, à espera de definhar, e agora começava a voltar a preencher o corpo de jovem adulta. Estava magra pelo trabalho que vinha fazendo, ajudando onde podia; insistia que, se fosse ficar, então tinha que ajudar. Ninguém jamais a chamou de prisioneira; a maioria dos membros da matilha era gentil com Farryn quando interagia com ela, mas outros preferiam apenas manter distância. Ainda assim, todos sabiam que o Alfa só estava ganhando tempo.
No dia seguinte ao que as gêmeas a levaram para casa, Farryn encontrou a primeira tesoura que pôde e cortou o cabelo, que ia até as costelas. No fim, Amelia acabou tendo que ajudar para impedir que Farryn se deixasse careca, mas se livrar dos fios grossos foi como tirar um peso. Agora, logo abaixo do maxilar, aquilo fazia sua cabeça parecer mais leve. Emily nunca admitiria em voz alta, mas até ela começara a gostar da intrusa com o tempo que passaram juntas. Era quase como uma Síndrome de Estocolmo ao contrário.
Farryn passou os dedos pelas mechas mais curtas ao sair de casa; quanto mais tempo ficava, mais a cidade parecia ganhar vida. Ela tinha percebido, poucos dias depois, que a maioria da matilha saíra em patrulha quando souberam que ela tinha sido encontrada; se era uma humana perdida, em geral significava que havia mais gente procurando. Mas humanos raramente eram vistos perto do território deles — mais um motivo pelo qual era tão difícil descobrir o que, exatamente, Farryn era.
— Você parece muito mais saudável do que no seu primeiro dia com a gente.
A voz suave que chegou aos ouvidos de Farryn era uma que ela não escutava desde o primeiro dia. Foi fácil identificar o homem mais alto se aproximando; com uma expressão estoica, o Alfa Jason parou diante dela. Farryn abaixou a cabeça instintivamente em cumprimento antes de erguer o olhar de novo. Normalmente, alguém de fora jamais ousaria sustentar o olhar de um alfa do jeito que Farryn fazia, considerando a diferença entre os dois. No entanto, Farryn tinha poucos motivos para se importar, embora duvidasse que ele fosse reagir com violência.
— Eu me sinto muito mais saudável, graças à Amelia e à Emily, claro. As duas foram gentis o bastante para cuidar de mim quando a minha febre chegou ao pior ponto.
A explicação saiu rígida e formal, no tom que o pai dela a ensinara a usar ao falar com o alfa dela. As sobrancelhas do Alfa Jason se mexeram só um pouco; ela era, de fato, uma coisa intrigante.
— Fico feliz em ouvir isso, embora eu duvide muito que a Emily tenha ajudado em alguma coisa. — Ele fazia um esforço para parecer normal, para tentar fazer Farryn relaxar perto dele. O comentário arrancou um leve sorriso dos lábios dela, mas só. — Enfim, o verdadeiro motivo de eu estar aqui: quero que você venha comigo hoje. Vou sair por algumas horas para assegurar uma fronteira e gostaria da companhia de alguém que não tenha ouvido todas as minhas histórias… ou cujas histórias eu ainda não tenha ouvido.
Os olhos de Farryn se arregalaram um pouco; por que, em nome de tudo, ele iria querer levá-la para qualquer lugar fora da cidade, a não ser para matá-la? Mas matá-la em particular era incomum, quase inaudito para um alfa. Ele tinha formulado como se ela tivesse escolha; isso significava que ela podia dizer não e tentar se esconder de volta na casa pelo resto do dia? Jason pigarreou alto, fazendo Farryn se sobressaltar, alarmada. Ela estava encarando-o de olhos bem abertos, provavelmente parecendo uma completa lunática.
— E-eu ficaria honrada. — Ela disparou, rápido, antes de se dar tempo de processar a própria resposta. Seu rosto empalideceu um pouco. Um convite de um alfa era algo que você nunca recusava, a menos que estivesse disposta a enfrentar as consequências. Concordar em ir com ele nem tinha sido algo em que ela tivera tempo de pensar. Jason sorriu diante da resposta e fez um gesto para que ela o acompanhasse, abrindo caminho para fora da pequena cidade.
As palmas de Farryn começaram a suar enquanto caminhavam; ela seguia só um pouco atrás do alfa. Andar ao lado dele seria afirmar que ela era igual a ele, e ela sabia que não era. Ele se manteve em forma humana por consideração a ela, o que era estranhamente gentil, mas, depois do primeiro encontro entre os dois, ela sabia que era melhor não presumir que ele fosse diferente. Ela tinha feito um bom trabalho mantendo distância, e aquela era a primeira vez que estavam na mesma proximidade por mais do que um instante.
— Por que você não me fala sobre Clear Oak? — Farryn ergueu o olhar dos próprios sapatos para as costas do alfa. Ele não se virou para reconhecê-la, mas saberia que ela o observava. Um músculo na mandíbula dela pulsou enquanto permanecia em silêncio. Sua matilha tinha acabado, então não havia uma necessidade real de se calar, mas doía. Fazia ressurgir lembranças nas quais ela não pensava fazia o que parecia uma eternidade. Por fim, Farryn inspirou de leve pelo nariz e endireitou as costas.
— Nós costumávamos ser uma matilha grande, com mais de trezentos, incluindo os filhotes. Nosso número foi diminuindo ao longo dos anos, mas, mesmo antes do fim, ainda tínhamos mais de cem guerreiros. Os humanos que costumavam viver na cidade que vocês ocupam agora… — Ela interrompeu por um momento ao limpar a garganta. — A gente tinha uma espécie de acordo: nós ficávamos nas árvores, e eles ficavam na cidade. Não era uma solução, mas tinha funcionado por anos. Então, um dia, quatro anos atrás, dois deles foram mortos por renegados. Eles nos acusaram na hora; nós nos oferecemos para caçar os renegados nós mesmos, para manter a paz. Tentamos, mas não foi o suficiente para eles.
— Então eles exterminaram a matilha? — Jason olhou por cima do ombro, os olhos avaliando o estado dela enquanto ela falava.
— Não.
Ele franziu a testa, confuso, antes que ela continuasse.
— Eles nos deram uma escolha primeiro. Abandonar o lar que conhecíamos havia gerações… ou então. Nosso alfa, o Alfa Michael, sabia que nós jamais iríamos querer abandonar a nossa casa. E ele estava certo, todo mundo concordou. Nós lutaríamos pelo direito de sobreviver, não iríamos fugir. Então, os humanos vieram à noite, enquanto todos, menos os batedores, estavam dormindo.
Jason soltou um som pensativo, voltando a se virar para prestar atenção por onde andava.
— Então como você é a última viva? Se eles vieram de noite, como os covardes que são, para massacrar todo mundo… como você conseguiu escapar?
Era uma pergunta válida, mas isso não impediu que o estômago de Farryn se revirasse, inquieto.
— Minha irmã… — ela engasgou, e mais uma vez pigarreou. — Minha irmã mais velha, Rae, ainda estava acordada. Ela tinha saído escondida com um macho e estava voltando bem na hora em que os humanos atacaram. Ela nos acordou. Meus pais ficaram para trás, mandaram a gente fugir e encontrar algum lugar para esperar até passar. Eu tinha só dezesseis anos, minha irmã tinha vinte; nenhuma de nós era habilidosa o bastante para fazer mais do que nos defender, e só teríamos atrapalhado nossos pais. Então achamos um lugar para nos esconder, como eles mandaram. Ficamos só nós duas. Fomos as únicas a escapar. Nós nos mantivemos no nosso território, conhecíamos a terra e tentamos vasculhar a área inteira sozinhas, procurando sobreviventes, mas os humanos nem sequer tinham ido embora dali. Ficamos juntas por um ano, até que… eu fiquei sozinha.
Ela não conseguiu dizer as palavras em voz alta — que sua família estava morta. Ela sabia a verdade, tinha visto com os próprios olhos, mas não conseguia falar.
— Sinto muito pela sua perda.
A gentileza que o alfa estava disposto a demonstrar a uma estranha era desconcertante de um jeito quase inacreditável.
— Eu vi como você interage com a minha matilha. Não acho que você esteja mentindo sobre quem é. Eu consigo ver a dor nos seus olhos quando fala da sua matilha e da sua família. Mas você está escondendo alguma coisa.
Os dois se encararam quando Jason parou e se virou para ficar de frente para a fêmea.
— Do que você está falando?
Os lábios de Jason se contraíram num esgar diante da confusão evidente de Farryn.
— Você disse que não sentiu nenhum marcador de cheiro do nosso território… e, mesmo agora, não percebeu que nós já saímos dele. Você nem se deu conta de onde estamos ainda, não é?
Ele gesticulou com a mão direita, puxando a atenção dela para longe dele. A sensação de afundamento que ela tivera antes piorou quando ela olhou ao redor. Agora ela sabia onde estava — mas ele tinha razão. Ela tinha ficado tão perdida na própria cabeça que nem percebeu para onde ele a estava levando.
Farryn não conseguiu se segurar; virou de lado e vomitou o café da manhã. Os restos dos prédios mal eram visíveis através das árvores.
Jason a tinha levado para casa.
A alfa esperou pacientemente enquanto ela recuperava o fôlego, lágrimas pingando da ponta do nariz quando apoiou as mãos nos joelhos. — Por que você me trouxe aqui? — ela perguntou, rouca. A garganta ardia por causa da bile. Ela não voltava ali desde que a irmã morrera, e não queria ver o que um dia tinha existido e o que a floresta agora estava retomando.
— Pra ver se você estava falando a verdade. — ele respondeu, antes de passar uma mão grande pelos cabelos e desviar os olhos da figura patética dela. — Eu falei sério naquele primeiro dia em que te trouxeram pra gente: você cheira a humana. Você age como humana. Mas eu consigo ver que isso aqui foi tudo real, eu consigo ver que você está dizendo a verdade... então por quê, Farryn? — Farryn inclinou a cabeça para o lado, encarando-o com só uma lasca de ódio.
— Porque é tudo verdade. — ela cuspiu no chão antes de se obrigar a ficar de pé. Mantinha os olhos baixos para evitar olhar para o que havia atrás dele. — Minha família foi massacrada, minha matilha foi massacrada, e eu culpei a própria Deusa da Lua por tudo isso. — Um silêncio estranho caiu sobre os dois diante daquela afirmação. — Por dois anos, eu desejei com cada fibra do meu ser que a Deusa da Lua aparecesse pra mim, só pra eu poder matar ela pelo que tirou de mim. Nós somos os filhos dela; somos dela para proteger, e ainda assim ela deixou tantos de nós morrerem! — Os ombros de Jason se enrijeceram, alarmados; dizer aquilo em voz alta, sequer desejar uma coisa tão horrível, era blasfêmia. — Ela abandonou todos nós, então eu virei as costas pra ela... e silenciei a minha loba. — Os ombros dela tremeram quando soltou um soluço mudo. Ela não tinha ninguém a quem recorrer; durante a maior parte da vida, a alma dela fora compartilhada entre dois seres.
Jason recuou meio passo, como se ela fosse uma praga, como se estar perto dela pudesse fazer o lobo dele desaparecer também. Nunca tinha ouvido falar de algo assim em toda a vida, mas também nunca tinha ouvido alguém culpar a Deusa da Lua pelas tristezas da existência. Engoliu em seco ao pensar nas palavras dela; será que ela estava à beira de um surto? Era, de fato, mais perigosa do que ele imaginara? — Você sabe que isso não é verdade. Ela não é culpada pelo que aconteceu aqui. Ela não nos abandona. — Ele não sabia se devia tentar confortar a fêmea que chorava ou simplesmente deixá-la ali.
— Ela abandonou, e você sabe! Senão, você não teria abandonado sua casa! Por culpa dela, eu sou humana! — A voz saiu num rosnado, mas era óbvio que não havia força nenhuma por trás do som. O rosto de Jason empalideceu quando ele percebeu que, quando ela silenciou a loba e se afastou da Deusa da Lua, ela perdeu a conexão. O motivo de nada fazer sentido havia uma semana, o motivo de ela parecer tão humana, era que ela realmente era.
