5.

Jason e Farryn se encararam em silêncio, o peito dela subindo e descendo depressa com a respiração ofegante, enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas. Jason estava rígido como uma estaca, tenso, pronto para qualquer coisa que viesse na direção dele. Farryn foi a primeira a desviar o olhar. Com uma expiração brusca, virou o corpo todo, apertando com força a ponte do nariz.

— Eu não sei mais quem eu sou, mas sei quem eu não sou. Posso ter perdido minha loba, mas nunca vou me aliar a eles.

O maxilar de Jason endureceu quando ele cruzou os braços sobre o peito. Ele estava com vontade de andar de um lado para o outro, mas não ousou tirar os olhos dela.

Perder a loba deveria tê-la enlouquecido e, talvez, ela estivesse enlouquecendo e só estivesse minimizando. Uma parte da alma dela tinha desaparecido; isso podia explicar por que ela tinha ficado tão tranquila com a ideia de morrer de fome.

— Quem era ela?

A pergunta pegou Farryn de surpresa; a cabeça dela virou de volta para Jason num estalo, os olhos arregalados. Ele acreditava nela.

— Namia... ela era linda, tão inteligente e tão forte. O pelo dela era de um ruivo acobreado lindo; os olhos, de um verde mais vivo que os meus.

Farryn soou tão saudosa ao falar da própria loba. Não era comum alguém saber o nome do seu lobo; em geral, só quem tinha sangue de alta patente possuía uma ligação tão forte assim. Jason observou Farryn se acalmar aos poucos — pensar na sua outra metade ajudava.

— Vamos pra casa — murmurou ele baixinho, girando nos calcanhares e seguindo depressa de volta por entre as árvores.

Farryn piscou uma vez, enxugou os olhos antes de piscar de novo e começou a segui-lo devagar. Era certo ela chamar a matilha de casa? O coração dela doeu ao pensar nisso, mas uma parte pequena sentiu que soava tão certo que não havia nenhum outro lugar em que preferisse estar. Ela lançou um último olhar por cima do ombro, pronta para se despedir mentalmente, quando avistou uma figura entre as árvores, de pé no meio dos escombros. Ela inspirou bruscamente, em choque, piscando enquanto virava o corpo, pronta para correr até aquela pessoa, mas, depois de piscar, a figura tinha sumido.

— Farryn? — a voz de Jason pareceu tão distante, mas, aos poucos, ela se virou de volta para ele; a preocupação estava clara nos olhos dele.

— Desculpa. Só... me despedindo.

Ele assentiu, solene, em compreensão. Ela não ia contar o que tinha visto; não tinha certeza do que era, exatamente, e sabia que ele já estava questionando a estabilidade dela. Farryn ajustou o passo ao lado de Jason; ele não resistiu nem deu qualquer sinal de desaprovação. Os olhos dela percorreram o corpo dele devagar, uma pergunta evidente no olhar, mas ele não olhou para ela. Como se soubesse que, se olhasse, ela começaria a importuná-lo.

— Eu não posso ser a única a me sentir exposta e vulnerável agora... Você pode me contar alguma coisa sobre você, por favor? — ela fez uma tentativa fraca de risada para esconder o desconforto.

Não era exatamente um segredo que ela precisasse guardar — que era humana —, mas não dava para saber como alguns membros da matilha dele reagiriam ao ouvir a notícia.

— Não tem nada pra contar sobre mim — ele respondeu, seco; qualquer demonstração de emoção que ele tivesse dado a ela se desfez conforme se aproximavam da matilha.

Farryn mordeu o lábio inferior, as pontas dos dedos tamborilando na coxa enquanto caminhavam.

— Dá pra parar com isso?! — Farryn se sobressaltou com o rosnado repentino de Jason. Os olhos dele estavam nos dela, mas, de vez em quando, escorregavam para o lábio preso entre os dentes. Farryn franziu as sobrancelhas e segurou o cotovelo de Jason.

— Com licença? Quem você pensa que é? — ela retrucou, irritada. Machos alfa eram sensíveis pra cacete.

Ele fez uma careta, passando a mão pelo cabelo; o movimento obrigou Farryn a soltar o braço dele.

— Desculpa, eu... eu não sei o que deu em mim.

A voz dele saiu mansa, como a de uma criança pega comendo doce antes do jantar. O lábio superior de Farryn tremeu, ameaçando formar um rosnado, mas simplesmente não parecia certo.

— Eu entendo que alguns caras achem esse negócio de “fêmea indefesa chorando” atraente, mas isso é patético — ela cuspiu, com os olhos estreitos, antes de passar à frente dele.

Ela praticamente conseguiu ouvir ele engolindo em seco, alarmado.

— Não, Farryn, não foi isso que aconteceu. Eu não sou assim. — Ele deu uma risadinha, tentando fazer de conta que estava tudo bem. — Cala a boca! — ela ordenou com aspereza e, para sua surpresa, a cabeça dele recuou como se tivesse levado um tapa, mas ele se calou.

O olhar nos olhos dele escureceu, um rosnado vibrando no peito. — O que foi isso? — ele exigiu, mas ela não tinha resposta. Ele reagiu como qualquer lobo inferior reagiria diante de um alfa, ou como um macho quando é humilhado pela própria companheira… mas ela não era alfa, nem lobo, e certamente não era companheira dele. Ela começava a balançar a cabeça quando se ouviu o som de passos correndo, e então um macho jovem surgiu à vista.

— Alfa! Alfa! — ele arfou baixo, os olhos arregalados de preocupação. Abriu a boca para dar o relatório, até que seus olhos encontraram Farryn. Ela virou o rosto, enquanto ele direcionava seu olhar hostil ao lobo jovem.

— O quê? — ele rosnou. O rapaz se encolheu e desviou os olhos depressa. — Desculpe, Alfa, mas há humanos na fronteira norte e disseram que não vão embora… — Ele mexeu os pés, ansioso, antes de fixar os olhos em Farryn. — …até falarem com ela. — Farryn e Jason encararam o jovem de olhos arregalados; ele tinha mesmo acabado de dizer aquilo?

— Por quê? — ela perguntou a Jason; a confusão em seus olhos e na sua voz deixava claro que ela não fazia ideia de quem eram aqueles humanos nem do motivo de quererem falar com ela. Isso não impediu Jason de se virar contra ela. Suas mãos grandes agarraram com força a parte de cima dos braços dela, as íris girando, e o azul-céu dos olhos do lobo começando a invadir o castanho de chocolate.

— Quase me enganou. — ele rosnou, com as presas estendidas em ameaça. A breve postura irritada que ela tivera antes foi rapidamente varrida por um novo medo. Seu corpo começou a tremer, e ela sacudia a cabeça, frenética.

— Não, não, não, Jason, não! E-eu não estava mentindo! — O macho jovem recuou, desconfortável; o aperto de Jason nos braços dela aumentou.

— É Alfa Jason pra você, e vai ter sorte se voltar a ver seus humanos preciosos. — Os olhos dele lampejaram de azul quando ele mostrou os dentes, e as mãos apertaram mais uma vez, enquanto Farryn soltava um grito de dor quando o úmero estalou nos dois braços. Sua visão explodiu em branco; tudo o que sentia era a dor ardente nos braços. Seus olhos reviraram, e ela não queria nada além de desmaiar, sabendo que a dor cessaria por um breve momento, porque não a sentiria no subconsciente. Mas não podia se permitir isso, sabendo que ele estava pronto para matá-la ali e agora.

— Eu nunca vou me chamar de humana. Eu não sou uma deles! — Farryn arfou, forçando os olhos a focarem. — Me solta. Me deixa ir. — Os olhos dele giraram de novo, o castanho sangrando para o azul, mostrando a luta entre homem e fera. — Me solta agora! Você não tem direito de tocar em mim e vai me soltar… agora! — Assim como na primeira vez em que ela perdeu a paciência com ele, os olhos dele voltaram a ser castanhos e, desta vez, ele a soltou rapidamente. Ela resistiu ao impulso crescente de socá-lo, apesar de agora estar com os braços quebrados.

Os dois machos ficaram olhando em silêncio: Jason para a fêmea, e o lobo jovem para seu Alfa. As bochechas de Jason ficaram vermelhas, mas seus olhos estavam apavorados. O jovem rapidamente recompôs o rosto quando seu alfa se virou para ele. Fingiria que não tinha visto nada, se isso significasse continuar vivo.

— Diga a eles que ela estará lá em breve. — ele rosnou. Para seu desgosto, o jovem olhou para Farryn, nem que fosse só com um tique dos olhos. O queixo dela mal baixou, mas Jason viu o menor dos movimentos. O lobo jovem então se virou e saiu correndo, deixando os dois a sós. Jason deu alguns passos para longe, depois se voltou para ela depressa.

— Eu quero você fora do meu território. Você vai falar com os humanos, fazê-los ir embora, e depois de hoje nunca mais vai chegar perto da minha matilha.

Jason nem se deu ao trabalho de olhar nos olhos dela enquanto falava; era como se não conseguisse. Quase como se tivesse medo de encará-la. Farryn soltou um suspiro trêmulo. Precisava manter a cabeça fria apesar da dor queimando e do terror no coração, enquanto seguia para a fronteira norte para encontrar os humanos.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo