Capítulo 3 — O Primeiro Risco

Acordei às cinco e meia.

A criança estava chorando com aquela voz pequena de quem ainda não acordou de todo, só está protestando contra o mundo através do sono. Me levantei antes que o monitor acordasse o Felipe, fui até o quarto dela no escuro, peguei ela no colo. Ela parou de chorar em segundos — era só isso que precisava, o peso do colo, o cheiro da mãe. Sentei com ela na poltrona de amamentação que ficava perto da janela.

A rua lá fora estava quieta. Uma luz amarela de poste. O silêncio das cinco e meia da manhã que é diferente de todos os outros silêncios.

Enquanto a criança dormia de volta no meu colo, eu fiquei pensando.

Não pensando em termos vagos, não ruminando — pensando de verdade, com a clareza que às vezes só vem quando está escuro e quieto e você está com uma criança dormindo no peito e ninguém está pedindo nada de você. Pensando no que eu ia fazer.

Porque ela não ia parar. Essa era a conclusão que tinha ficado mais nítida na noite anterior. Ela não ia parar porque não tinha nenhuma razão para parar — toda vez que ela foi longe demais, alguém cedeu. Eu cedi, ou o Felipe ficou em cima do muro e ela avançou um passo, e depois de passar o suficiente ela parava de perceber que tinha avançado porque o novo ponto de partida já era o padrão.

Se eu começasse a gritar, ia virar briga. E briga com Dona Conceição era terreno em que ela tinha décadas de vantagem. Ela conhecia cada pessoa da família Lima, sabia como apresentar cada situação de um jeito que a deixasse certa e eu errada, sabia usar o choro no momento exato para mover o Felipe para o modo de proteger a mãe. Se eu levantasse a voz, eu ia parecer a nora difícil, a que cria problema, a que não sabe respeitar.

Não era sobre gritar. Não era sobre confrontar de frente.

Era sobre não jogar no escuro.

Por dois anos e quatro meses eu tinha jogado sem saber as regras, reagindo a cada movimento dela no calor do momento, sem guardar o que tinha acontecido, sem mapa. Era por isso que eu me sentia tão cansada — não do esforço, mas da sensação de estar sempre começando do zero enquanto ela acumulava.

Se eu pudesse guardar o que acontecia — com data, com contexto, com as palavras exatas que ela tinha usado —, eu ia parar de esquecer. Ia ter um padrão que eu podia ver de fora, não só sentir por dentro.

Coloquei a criança de volta no berço com os dois braços, devagar, esperando ela assentar. Quando soltei e ela não acordou, fui para a cozinha.

Coloquei água pra ferver. Enquanto esperava o café, peguei o celular da bancada. Abri o aplicativo de bloco de notas. Criei uma nota nova. Escrevi a data: 14/06/2026.

Parei, olhei para o cursor piscando, pensei por um momento.

Então comecei a escrever:

14/06/2026 — Prateleira do quarto esvaziada por Dona Conceição. Disse: "Estava empoeirado, não faz bem." Objetos removidos sem consulta: 3 porta-retratos da cerimônia de casamento (incluindo a que mamãe enquadrou), buquê de casamento seco, cavalinho de madeira de Ouro Preto (lua de mel), taça de cristal da vovó Lurdes (presente de casamento, valor sentimental irreparável), polaroid com dedicatória de Felipe. Nenhum testemunho de quando aconteceu — ela estava sozinha em casa. Context: eu estava no trabalho quando aconteceu. Felipe não sabia. Itens irrecuperáveis. Vi o sorriso quando ela fechou o saco de lixo. Resposta dele no jantar: "Que bom, mãe, a gente precisava."

Reli.

Era diferente de pensar sobre. Quando ficava só dentro de mim, a memória era borrada pelos sentimentos — a raiva, a tristeza, a exaustão. Escrita assim, com data e palavras exatas, era uma coisa sólida. Uma coisa que eu podia voltar e ler daqui a uma semana, daqui a um mês, e ia ser o mesmo registro que eu tinha feito agora.

O café ficou pronto. Servi uma xícara, fui até a janela da cozinha.

Era aquela janela que eu mais gostava: dava pra rua mas ficava alta o suficiente para que da calçada não se visse nada. Uma janela só pra mim.

Fiquei ali com o café, olhando para a rua que ia acordando devagar, e senti alguma coisa que levou um segundo para eu reconhecer: calma. Não a calma de resignação, não a calma de ter desistido de alguma coisa. A calma de quem acabou de decidir.

Não ia ser rápido. Ia exigir paciência. Ia exigir que eu continuasse funcionando normalmente por fora — jantar, sorriso, "que bom, Dona Conceição" — enquanto por dentro eu estava fazendo outra coisa.

Mas eu sabia fazer isso. Eu já tinha feito por dois anos e quatro meses. A diferença era que desta vez eu ia fazer com intenção.

Quando o Felipe desceu, eram quase oito. Ele foi direto ao café.

— Dormiu mal? — ele perguntou, me vendo com a segunda xícara na mão.

— Acordei cedo com a criança — eu disse. — Mas dormi bem.

Ele me deu um beijo no rosto, ficou olhando para a janela.

— Minha mãe ligou mais cedo — ele disse. — Perguntou se a gente estava bem.

— Que atencioso — eu disse.

E estava. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava bem de verdade.

Quatro: a primeira nota. Data registrada. Palavras dela guardadas.

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