Capítulo 1

— Jasper, você está casado com Serena há dois dias e ainda não contou nada para Charlotte? Vocês namoraram por cinco anos. Isso é muita frieza, cara.

— Para falar a verdade, Charlotte é linda. Até dá pena.

Os dedos de Charlotte se fecharam em torno da maçaneta.

Ela tinha ido até ali naquela noite para contar um segredo a Jasper. Um segredo capaz de mudar uma vida.

Agora, sentia o corpo inteiro gelado.

Do outro lado da porta, a voz familiar de Jasper chegou aos ouvidos dela, presunçosa e displicente.

— E daí que ela é bonita?

— Desde que minha mãe entrou para a família Sinclair, eu não sou mais o bastardo que todo mundo despreza. E Charlotte? Não passa de uma garota falida com um rosto bonito. Ela não combina mais comigo. Só não deixem que ela descubra ainda. Vai fazer um escândalo.

— Caramba — comentou outro homem. — Então Serena é o upgrade?

— Ela é uma Wainwright. A família dela tem dinheiro, contatos e influência. — O tom de Jasper endureceu. — Minha posição na família Sinclair ainda não está garantida. Meu pai continua valorizando mais Alexander. Com o apoio da família de Serena, finalmente tenho uma chance de verdade.

Alexander Sinclair.

O meio-irmão mais velho de Jasper.

O herdeiro legítimo da família Sinclair.

Jasper odiava aquele nome porque o lembrava de que, apesar de carregar o sobrenome Sinclair, ainda não tinha lugar à mesa principal.

— Você não ama mais Charlotte? — perguntou alguém.

— Não seja infantil — cortou Jasper. — Amor não te dá ações. Amor não te dá controle.

Foi como se Charlotte tivesse levado um soco no estômago.

Ele costumava dizer que o amor bastava.

Dizia que não se importava com luxo, status nem com a aprovação de ninguém. Que tudo de que precisava era tê-la ao lado dele.

Pelo visto, assim que a mãe se tornou a Sra. Sinclair, o amor perdeu o valor.

— Há quanto tempo você e Serena estão juntos? Essa certidão de casamento apareceu do nada.

Jasper soltou uma risada baixa.

— Ela me seduziu e foi parar na minha cama há três anos. Até ficou amiga de Charlotte por minha causa.

— Cara, isso é surreal. E se Charlotte descobrir?

— Ela é ingênua — respondeu Jasper. — Além disso, comprei um presente de aniversário para ela. É fácil acalmá-la.

Fácil de acalmar?

Charlotte respirou fundo uma única vez.

No instante seguinte, abriu a porta com um chute.

Jasper estava sentado no sofá de couro, com um copo na mão. Assim que a viu, o copo escapou dos dedos e caiu no chão.

— Charlotte? — Toda a cor sumiu do rosto dele. — O que você está fazendo aqui?

Ela entrou sem pressa e examinou o ambiente.

Ternos sob medida. Bebidas caras. Almas baratas.

— Uau — disse ela. — Então é aqui que homens inseguros ensaiam seus discursos de vilão.

Vários deles se mexeram nos assentos, desconfortáveis.

Jasper se levantou tão depressa que quase derrubou a mesa.

— Espera, Charlotte. Vamos conversar lá fora. Não faça um escândalo.

Ela recuou um passo antes que ele conseguisse tocá-la.

— Por quê? Você foi corajoso o bastante enquanto a porta estava fechada.

— Não é o que você ouviu. Não distorça tudo para parecer que—

Charlotte agarrou a garrafa sobre a mesa e a acertou na cabeça dele.

— Vai pro inferno, seu mentiroso desgraçado!

A garrafa atingiu a cabeça de Jasper com um estalo.

O sangue começou a escorrer pela lateral do rosto dele.

A sala virou um caos.

— Meu Deus!

— Cara!

Jasper gritou e levou a mão à cabeça.

— Charlotte, você enlouqueceu?

O peito dela subia e descia com força. A raiva percorria cada centímetro de seu corpo.

— A partir deste segundo, acabou entre nós.

— Charlotte...

— Cala a boca — cortou ela. — A menos que queira levar outra garrafada.

Jasper ficou imóvel, com o sangue escorrendo por entre os dedos.

Charlotte olhou Jasper de cima a baixo, o estômago embrulhado de nojo.

— Aproveite seu casamento — disse ela. — Um traidor e uma destruidora de lares. Você e Serena realmente são perfeitos um para o outro.

Ela se virou e foi embora.

Suas mãos só começaram a tremer quando chegou ao camarote privativo ao lado.

Charlotte sempre tinha acreditado que seu relacionamento com Jasper era estável. Nunca tinha sido contra a intimidade, mas ele insistia que uma garota deveria se respeitar. Esperar até o casamento. Manter-se pura. Ser paciente.

No fim, aquilo nunca tinha sido respeito.

Ele já tinha outra mulher na cama.

Charlotte pediu várias doses e bebeu uma atrás da outra, deixando a ardência anestesiar os pontos mais dolorosos daquela ferida.

Bastardo.

Mentiroso.

Lixo egoísta.

Tudo ao redor começou a ficar turvo. O grave da música vibrava sob seus pés, enquanto as luzes neon varriam o bar. As pessoas riam, dançavam, flertavam e se perdiam na noite.

Se Jasper podia traí-la, por que ela não poderia encontrar outra pessoa?

Charlotte saiu do lounge.

Um loiro de camisa chamativa bloqueou o caminho dela com um sorriso preguiçoso.

— Ei, linda. Está sozinha?

Charlotte o examinou de cima a baixo.

— Não estou tão desesperada assim essa noite.

E passou direto por ele.

Foi então que o viu.

Apesar da escuridão da boate, era impossível não notá-lo.

O homem estava sentado com uma perna cruzada sobre a outra, segurando displicentemente um copo de uísque. Metade do rosto permanecia escondida nas sombras, mas a luz destacava o contorno marcante do nariz e das sobrancelhas.

Ele se parecia um pouco com Jasper.

A diferença era que Jasper parecia um garoto se esforçando demais para provar que pertencia àquele lugar.

Alexander Sinclair parecia um homem que era dono do ambiente e considerava todos ali entediantes.

Charlotte ficou olhando para ele.

Bêbada e furiosa, sua mente conectou três fatos perigosos.

Jasper a tinha traído.

Jasper odiava Alexander.

Alexander era a vingança vestida com um terno sob medida.

Era uma decisão inteligente?

Claro que não.

Charlotte estava com vontade de ser inteligente?

Nem um pouco.

Antes que o bom senso pudesse detê-la, ela se acomodou entre as pernas de Alexander e sentou-se no colo dele.

— Ei, bonitão — disse ela. — Quer fazer uma loucura?

As pessoas ao redor prenderam a respiração ao mesmo tempo, claramente à espera de que Alexander a expulsasse dali.

Ele não fez isso.

As mãos dele pousaram na cintura de Charlotte, firmes e seguras. Quando falou, sua voz saiu baixa, quase fria.

— Você escolheu o homem errado, minha futura cunhada.

Aquela palavra a irritou.

Cunhada.

Charlotte fingiu não ter ouvido. Passou os braços ao redor do pescoço dele e se inclinou, deixando os lábios a um fio de distância dos dele.

— Não — sussurrou. — Eu vim atrás de você.

Então o beijou.

Um beijo desajeitado. Furioso. Quente.

Beijar o irmão do ex-noivo no meio de uma boate lotada não era coisa de uma garota comportada.

Por sorte, Charlotte tinha acabado oficialmente de deixar de ser boazinha.

Alexander estreitou os olhos. A curiosidade brilhou neles.

Por um momento, permitiu que ela o beijasse. Depois, segurou o queixo dela.

— Então... — murmurou contra a boca de Charlotte. — Meu irmão não conseguiu satisfazer você?

Ela soltou uma risada ofegante, ainda praticamente caída sobre ele.

— Eu terminei com ele. Se você não estiver interessado, vou encontrar outra pessoa.

Ela falava sério.

Não imploraria por homem nenhum naquela noite.

Charlotte começou a se afastar.

O braço de Alexander se fechou ao redor da cintura dela e a puxou com firmeza de volta contra seu corpo.

Ele se levantou, erguendo-a como se ela não pesasse nada, e a carregou em direção ao elevador privativo.

— Tarde demais para isso.

As portas do elevador se fecharam.

Alexander não lhe deu tempo para pensar. Os dedos longos envolveram a nuca dela, e sua boca tomou a de Charlotte mais uma vez.

Aquele beijo era diferente.

Começou lento. Profundo. Controlado.

Então ficou exigente.

A mão dele deslizou até a cintura dela e subiu sobre o tecido fino do vestido. As costas de Charlotte bateram contra a parede fria do elevador, mas ela só conseguia sentir o calor do corpo de Alexander pressionado contra o seu.

O coração martelava no peito.

A raiva se transformou em algo mais quente. Mais sombrio. Mais difícil de negar.

Os lábios de Alexander deixaram a boca dela e percorreram seu maxilar, descendo pela lateral do pescoço.

A voz dele vibrou contra a pele de Charlotte.

— Quem beija melhor? Eu ou Jasper?

O olhar dela vacilou.

— Você — respondeu sem hesitar. — Ele não é nada.

E o pior?

Era verdade.

Jasper sempre a beijava como se tudo girasse em torno dele. O ritmo dele. O humor dele. O prazer dele.

Alexander a beijava como se percebesse cada respiração que ela dava.

"Garota falida e de classe baixa?"

As palavras de Jasper quase a fizeram rir naquele momento.

Porque Jasper não fazia ideia.

Charlotte não era pobre.

Era neta do presidente aposentado do Grupo Whitfield.

A única herdeira.

A futura dona de um império empresarial tão grandioso.

Whitfield não era apenas um sobrenome.

Era acesso.

Era poder.

Era uma arma.

E Charlotte tinha escondido tudo.

Ela odiava os sorrisos falsos que as pessoas exibiam quando descobriam quem ela era. Os elogios repentinos. A bajulação cuidadosa.

Não queria um homem que amasse o Grupo Whitfield.

Queria um homem que a amasse.

Apenas Charlotte.

Agora sabia o quanto aquilo tinha sido ingênuo.

Jasper tinha sido colocado à prova sem sequer perceber.

E tinha fracassado de um jeito quase impressionante.

A parte mais cruel?

Charlotte tinha planejado contar a verdade naquela noite.

Mas, ele tinha se casado com Serena.

Sua família não significava quase nada diante do Grupo Whitfield.

Charlotte fechou os olhos quando a mão de Alexander se firmou em sua cintura.

"Parabéns, Jasper."

"Você acabou de jogar fora a única coisa que estava desesperado para conseguir."

E, naquela noite, ele sequer imaginava o tamanho da perda.

Próximo Capítulo