Capítulo 3

— Dona Charlotte? — A voz de um homem veio pelo celular.

— Estou na entrada — respondeu Charlotte. — Surgiu um pequeno problema.

O tom dele mudou na mesma hora.

— Já estou indo.

Serena soltou uma risada debochada.

— Chamando reforços? Que ridículo.

Menos de um minuto depois, Lawson, o gerente do restaurante, apareceu às pressas.

Foi direto até Charlotte e inclinou ligeiramente a cabeça.

— Dona Charlotte, desculpe a espera — disse ele, respeitoso. — A sala reservada para a senhora já está pronta. Por favor, permita que eu a acompanhe.

Serena ficou paralisada.

Até Jasper pareceu atordoado.

Ela virou o rosto de repente para Charlotte.

— Dona Charlotte? — Sua voz subiu, carregada de incredulidade. — Desde quando você conhece o gerente?

A expressão de Lawson endureceu.

— Senhora Wainwright, a senhora Charlotte é uma de nossas clientes mais estimadas.

— Cliente estimada? — Serena quase riu de tanta raiva. — Ela? Impossível.

Deu um passo à frente e baixou a voz, embora todos ao redor ainda pudessem ouvi-la.

— Então foi assim que você conseguiu entrar? Arranjou um homem rico da noite para o dia?

— Senhora Wainwright — advertiu Lawson, com frieza — meça suas palavras. Dona Charlotte, minhas mais sinceras desculpas. Vou chamar a segurança agora mesmo.

— Charlotte, para de fingir! — retrucou Serena. — Você não passa de uma vadia barata...

Plaft!

Charlotte acertou um tapa no rosto dela.

O estalo ecoou pelo saguão.

A cabeça de Serena virou para o lado com o impacto. Ela levou a mão à bochecha e, por um instante, pareceu chocada demais até para respirar.

— Você... — A voz dela tremeu. — Você bateu em mim?

Charlotte baixou a mão.

— E olha que eu peguei leve. Nós duas sabemos muito bem quem é a amante, Serena. Se não quer que eu diga isso na frente de todo mundo, saia da minha frente.

Os lábios de Serena estremeceram de raiva.

— Você é patética.

— Não, querida. — Charlotte se aproximou e baixou a voz. — Patético é se casar com um homem que manteve outra mulher por perto durante anos porque era covarde demais para ser honesto.

Serena perdeu a cor.

Charlotte se voltou para Jasper.

— Quanto aos anos que desperdicei com você, teriam sido mais bem aproveitados se eu os tivesse jogado direto no lixo.

O rosto de Jasper se contraiu.

— Charlotte, me escute...

— Acabou — cortou ela. — Chegue perto de mim outra vez e, da próxima, não será apenas um tapa.

O saguão mergulhou em silêncio absoluto.

Charlotte se virou para Lawson.

— A reserva está no nome de Hart.

Ele se recompôs depressa.

— Sim, Dona Charlotte. Por aqui.

Sem olhar para trás, Charlotte seguiu Lawson para o interior do restaurante.

Jasper permaneceu no saguão, acompanhando-a com os olhos enquanto ela se afastava.

Uma frustração estranha apertou o peito dele.

Charlotte sempre se destacava. Não daquele jeito impecável e ensaiado que Serena exibia diante das câmeras, mas de uma forma vibrante, destemida, impossível de ignorar.

Um dia, Jasper tinha amado aquilo.

Não.

Ele tinha desejado aquilo. Precisado daquilo.

Mas ela vinha de uma origem humilde demais. Charlotte jamais poderia dar a ele a vida que queria.

Ele repetia para si mesmo que tinha feito a escolha certa.

Ainda assim, algo amargo continuava preso em seu peito.

Se Charlotte tivesse sido mais esperta, se tivesse aceitado o próprio lugar, poderia ter permanecido ao lado dele.

A expressão de Serena escureceu ao perceber que ele ainda olhava para Charlotte.

— Você ainda está pensando nela, não está?

Jasper voltou à realidade de repente.

— Claro que não.

— Não minta para mim, Jasper.

Ele forçou um sorriso e segurou a mão dela.

— Amor, é você que eu amo. Durante todos esses anos, por sua causa, nunca toquei nela.

Aquilo era quase verdade.

Ele tinha escolhido Serena.

Dinheiro. Poder. Um futuro.

O amor era bom, mas o poder durava mais.

Charlotte se sentou junto à janela e soltou o ar devagar.

Não iria tremer.

Quinze minutos depois, a porta da sala reservada se abriu de repente.

Isabella Hart entrou como um furacão, de óculos escuros e sobretudo.

— Estou atrasada — anunciou, desabando na cadeira em frente a Charlotte. — O trânsito estava um inferno. Além disso, vi Serena no saguão.

Charlotte sorriu.

— Já está resolvido.

Isabella engasgou.

— Você deu um tapa nela?

Charlotte ergueu uma sobrancelha.

— Como você sabe?

— Metade do rosto dela estava vermelha. Parecia um guaxinim mimado de família abastada que perdeu uma briga.

Isabella tirou várias caixas de presente elegantes da bolsa e as enfileirou sobre a mesa.

— Presentes para sua recuperação emocional. Uma bolsa de Milão. Batons de Paris. E um colar daquela boutiquezinha que encontrei.

Charlotte contemplou os presentes.

Nada era berrante ou chamativo.

Ainda assim, estava claro que Isabella tinha escolhido cada peça pensando nela.

Um calor reconfortante se espalhou por seu peito.

— Obrigada, Isabella — disse baixinho.

Isabella fez um gesto de pouco caso.

— Não fique sentimental. Depois do jantar, vamos a um bar. Tenho vários modelos masculinos, todos absurdamente gatos, para te apresentar. Todos mais bonitos que Jasper.

Na metade do jantar, Charlotte se levantou para ir ao banheiro.

Lavou as mãos e tentou controlar os últimos resquícios de nervosismo.

De repente, dois braços a envolveram por trás.

— Se você não se importa nem um pouco comigo, por que me bloqueou? — A voz de Jasper soou rente ao seu ouvido.

O corpo inteiro de Charlotte enrijeceu.

— Tira as mãos de mim.

— Eu não tive escolha — respondeu ele depressa. — Assim que eu garantir meu lugar na família, vou me divorciar de Serena e me casar com você. Não é isso que você sempre quis?

O nojo subiu pela garganta de Charlotte.

Houve um tempo em que ela amava aquela voz. Em que ouvi-la a fazia se sentir segura.

Agora, só fazia sua pele se arrepiar.

— Você é nojento.

Algo sombrio atravessou os olhos de Jasper.

Antes que Charlotte pudesse reagir, ele a arrastou em direção ao banheiro masculino.

— Jasper — disse ela entre os dentes. — Me solta.

O coração começou a martelar no peito.

Ele a empurrou contra a parede.

Uma dor atravessou seu ombro ao atingir o azulejo frio.

— Me escuta. — Os olhos dele estavam injetados de sangue. — Você é minha.

Charlotte o empurrou pelo peito.

— Fica longe de mim.

Jasper se inclinou.

Ela virou o rosto, e foi então que ele viu as marcas no pescoço dela.

A voz dele falhou.

— O que é isso?

Charlotte ficou imóvel.

Depois, ergueu o queixo.

— Faz um esforço, Jasper. Outro homem deixou essas marcas.

O rosto dele se contorceu.

— Não. Você não faria isso.

— Eu fiz.

— Quem?

— Não é da sua conta.

— Charlotte! — rosnou ele.

Por uma fração de segundo, ela estremeceu.

Então ergueu o joelho com força entre as pernas dele.

Jasper gemeu e agarrou o pulso dela, o rosto retorcido de dor.

— Acha que dormir com um cara qualquer vai livrar você de mim? — perguntou entre os dentes. — Vou mostrar a quem você pertence.

A mão dele avançou para a cintura dela.

O estômago de Charlotte despencou.

No segundo seguinte, Jasper foi arrancado de perto dela.

Ele cambaleou para trás, furioso.

— Quem diabos...

Ao se virar, congelou.

Alexander estava parado à entrada do banheiro, vestindo um casaco preto. Seus olhos eram frios, calmos e letais.

Por um instante, Charlotte perdeu o fôlego.

— O que você pensa que está fazendo? — perguntou Alexander, devagar.

Os olhos de Jasper se encheram de ódio.

— Isso não tem nada a ver com você.

Alexander entrou e fechou a porta atrás de si.

— Arrastar uma mulher para o banheiro de um restaurante. Esse é o seu novo hobby?

— Ela é minha namorada.

— Sua esposa está lá fora, no salão principal.

Jasper travou o maxilar.

Alexander manteve o tom impassível.

— Devo chamar a imprensa? Contar a todos que o novo herdeiro Sinclair está tentando agredir a ex?

Jasper perdeu o controle.

— Seu filho da...

Não conseguiu terminar.

Alexander acertou um soco em seu rosto.

O impacto foi brutal.

A cabeça de Jasper foi lançada para trás, e o sangue jorrou de seu nariz. Ele cambaleou, mas Alexander não lhe deu tempo para se recuperar.

Com um golpe preciso, derrubou Jasper no chão.

Ele gemeu e tentou se levantar.

Alexander pisou em seu peito, mantendo-o imobilizado.

Então olhou para Charlotte.

— Ele fez isso com você, e você vai simplesmente deixá-lo sair daqui se arrastando?

Charlotte não esperava que Alexander aparecesse.

Muito menos que fosse gostar tanto de ver Jasper esmagado sob o sapato dele.

Ela avançou.

— Claro que não.

As pupilas de Jasper se contraíram.

— Charlotte...

Ela ergueu o salto e pisou no rosto dele.

Os lábios de Jasper se deformaram sob a pressão. A mesma boca que já tinha sussurrado palavras de amor. A mesma que a tinha chamado de inútil atrás de uma porta fechada.

O olhar de Charlotte ficou ainda mais frio.

Ela pressionou o salto com mais força.

— Jasper Sinclair, eu disse que acabou. Completamente. Para sempre.

Ele soltou um som abafado.

Charlotte não se importou.

— Se tentar fazer isso outra vez, juro que eu mesma passo com o carro por cima de você. E, se ainda conseguir rastejar de volta para a propriedade dos Sinclair depois disso, acredite em mim: não vai sair andando de novo.

O sangue se espalhava pelo rosto pálido de Jasper.

— Entendeu? — perguntou Charlotte.

Preso sob o salto dela e o sapato de Alexander, Jasper fez o menor e mais humilhante aceno de cabeça.

Charlotte recuou.

— Ótimo. Agora rasteje para fora.

Alexander tirou o pé.

Jasper conseguiu se levantar de qualquer jeito e fugiu do banheiro como um cão escorraçado.

Ainda respirando com dificuldade, Charlotte se virou para Alexander.

— Obrigada pela ajuda. Te devo um jantar.

Ele a encarou, indecifrável.

— Só um jantar? — Um leve sorriso surgiu em seus lábios. — Você acha que eu sou tão fácil assim?

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