Capítulo 5
— Charlotte? A neta do Sr. Whitfield? — Serena soltou uma risada ácida e apontou para ela. — Ah, por favor. Essa foi a coisa mais engraçada que ouvi a noite inteira. Não foi, Jasper?
Jasper continuava encarando Charlotte.
Por algum motivo, não riu de imediato.
Havia algo no jeito como ela permanecia ali que o incomodava.
Sem pânico. Sem vergonha. Sem aquela necessidade desesperada de se explicar.
Aquela não era a Charlotte de que ele se lembrava.
E isso o deixou inquieto.
Serena percebeu a hesitação e apertou o braço dele por cima da manga.
— Jasper — sibilou, num tom de aviso.
Ele finalmente desviou os olhos para a esposa.
Serena forçou um sorriso doce, inclinou-se na direção dele e disse entre os dentes:
— Fale alguma coisa.
Jasper limpou a garganta.
— Amor, não gaste energia com alguém irrelevante.
Charlotte sorriu.
Irrelevante?
Sem ela, Jasper nem sequer teria entrado em Princeton. Na época, as notas dele tinham ficado abaixo do exigido, e ele agira como se o mundo tivesse acabado.
Charlotte sentiu pena.
Por isso, implorou ao avô que mexesse alguns pauzinhos discretamente.
Jasper foi aceito e chamou aquilo de destino.
E aquelas "pesquisas brilhantes" das quais ele tanto gostava de se vangloriar? Charlotte tinha reescrito a maior parte para ele.
A sorte que ele insistia em chamar de sua trazia as digitais dela por toda parte.
Que vergonha.
— Irrelevante? — Serena se voltou para a multidão, visivelmente satisfeita com toda aquela atenção. — Não é isso que ela pensa. Todo mundo sabe que Charlotte persegue meu marido há anos.
Os cochichos logo se espalharam.
— Espera, eles namoraram?
— Então ela é a ex?
— Que confusão.
Serena ergueu o queixo.
— Da última vez, ela nos seguiu até um restaurante. Agora aparece aqui também? Isso não é coincidência. Ela descobriu que Jasper é um Sinclair e, de repente, não consegue tirar ele da cabeça.
Anos atrás, quando queria Jasper, Serena tinha se grudado em Charlotte. Chamava-a de querida. Pegava roupas emprestadas. Fazia perguntas sobre ele. Fingia o tempo todo ser a amiga perfeita.
Sinceramente, Charlotte preferia aquela versão dela.
Pelo menos a cobra tinha parado de se perfumar.
— Nem todo mundo quer o seu lixo — rebateu Charlotte, fria. — O homem de quem você tanto se orgulha não passa de um lixo bem penteado.
Alguém por perto tossiu, constrangido.
A expressão de Jasper escureceu.
Ser chamado de lixo em público tinha ferido em cheio aquele ego frágil.
Charlotte voltou a atenção para Serena.
— O tapa no restaurante não te ensinou nada? Ou você ficou corajosa porque eu não publiquei as fotos do Jasper de joelhos, me implorando?
O rosto de Serena ficou vermelho.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Charlotte.
— Eu te dei a chance de ficar calada, mas você resolveu latir de novo. Da próxima vez, quer que eu traga uma coleira?
Na varanda do segundo andar, Alexander Sinclair observava a cena, divertindo-se em silêncio.
Ele tinha saído para respirar um pouco porque a festa estava terrivelmente entediante. Sorrisos falsos demais. Champanhe caro demais. Gente demais fingindo não estar ali em busca de alguma vantagem.
Então Charlotte apareceu.
De repente, a noite ficou interessante.
Aquela mulher tinha garras.
Serena enfim perdeu o controle.
— O que te dá o direito de agir como se fosse superior a todos? — gritou. — Segurança! Joguem ela para fora. Agora!
Um dos seguranças avançou. Parecia desconfortável, mas não tinha escolha.
— Senhora, este é um evento privado — disse a Charlotte. — Posso ver o seu convite?
Charlotte levou a mão à clutch.
O convite estava lá dentro.
Alistair tinha cuidado de tudo, embora não fosse comparecer.
Antes que ela pudesse tirá-lo, porém, uma mão pousou de leve em seu ombro.
Uma voz arrastada soou ao lado dela:
— Ela está comigo.
A multidão se agitou.
Charlotte virou a cabeça.
Alexander Sinclair estava ao lado dela, vestindo um terno preto. Alto, frio e impossível de ignorar.
Com quase um metro e noventa, ele era mais alto que quase todos no salão. O cabelo penteado para trás realçava os traços marcantes e os olhos calmos, mas perigosos. Instintivamente, alguns convidados recuaram.
Sob as luzes dos lustres de cristal, ele e Charlotte estavam vestidos de preto.
Por um breve instante, pareceram ter planejado chegar juntos.
— Aquele é Alexander Sinclair.
— O irmão de Jasper.
— O verdadeiro herdeiro.
— Eles estão juntos?
O olhar de Jasper desceu até a mão de Alexander sobre o ombro de Charlotte.
Algo desagradável se retorceu em seu peito.
Por que Alexander estava tocando nela?
E por que Charlotte permitia?
Alexander encarou Jasper. Sua voz permaneceu serena, mas alta o bastante para que todos ao redor ouvissem.
— Jasper Sinclair. Isso é patético, até mesmo para você.
Jasper cerrou o maxilar.
— Alexander.
— Você deixa sua nova esposa difamar a mulher que você traiu durante três anos — disse Alexander. — Tudo porque sua mãe finalmente se casou com alguém rico e você acha que isso faz de você alguém importante?
O salão inteiro mergulhou em silêncio.
Então vieram os cochichos.
— Então Serena era a outra?
— Meu Deus.
— E ela chamou a ex de sem-vergonha?
— Os Wainwright vão odiar isso.
— Jasper Sinclair é um lixo.
Serena perdeu toda a cor.
— Eu não sou amante!
Alexander lançou um olhar para ela.
— Claro que diria isso. Amante nenhuma gosta de ser chamada pelo que é.
Algumas pessoas se esforçaram para conter o riso.
Alexander continuou, quase entediado:
— E a Sra. Sinclair entrou para a família do mesmo jeito, não foi? A história se repete. Basta uma amante esperar tempo suficiente para que o filho dela possa se fantasiar de herdeiro.
O rosto de Jasper ficou vermelho.
— Seu bastardo. O pai não vai deixar você sair impune dessa.
— Cuidado — alertou Alexander. — Estamos em um evento público. Não envergonhe seus novos benfeitores.
Charlotte riu antes que conseguisse se conter.
Ela não precisava que Alexander interviesse.
Ainda assim, tinha de admitir: aquele homem sabia detonar uma bomba e sair de mãos limpas.
Alexander se inclinou, aproximando os lábios do ouvido dela.
— Minha ferinha — murmurou — eu te ajudei de novo.
— Você não me ajudou. Só me usou para atingir Jasper.
— Não pode ter sido as duas coisas?
— Não.
A respiração dele roçou a orelha dela.
— Sempre tão implacável.
Do outro lado do salão de baile, Serena parecia prestes a explodir.
Fulminou Charlotte com os olhos e depois se virou para Jasper, apenas para flagrá-lo olhando outra vez na direção dela.
Foi a gota d'água.
Serena se colocou diante dele, bloqueando sua visão.
— Ainda está olhando? — perguntou entre os dentes. — Jasper Sinclair, você ainda não conseguiu esquecer ela?
A paciência de Jasper chegou ao limite.
— Eu me casei com você, Serena. Dá para parar de agir como louca por cinco segundos?
Ela arregalou os olhos.
— Louca? Todo mundo está me chamando de amante, e você não me defendeu nem uma vez!
Jasper segurou a mão dela e forçou um sorriso gentil.
— Escute. Nós representamos os Sinclair e os Wainwright. Não podemos perder o controle aqui. Sorria, respire e siga em frente.
O peito de Serena subia e descia com força, mas ela se obrigou a ficar quieta.
Quando Jasper tornou a procurar Charlotte, ela já tinha desaparecido.
Alexander também.
Naquele momento, ele puxava Charlotte para um lavabo reservado.
Ela se desvencilhou com um puxão e se virou para encará-lo.
— Sr. Sinclair — disse, fria —, o que você pensa que está fazendo?
— Relaxe.
— Quando um homem diz isso, normalmente está prestes a fazer algo que não tem nada de relaxante.
Ele avançou um passo.
Ela recuou.
Alexander parou diante dela, bloqueando parte da luz. O cheiro de cedro e menta a envolveu.
O mesmo cheiro daquela manhã.
Aquele que ela tinha se esforçado tanto para esquecer.
— Como pretende me agradecer desta vez? — perguntou ele. — E não diga jantar.
A respiração quente tocou a bochecha de Charlotte, fazendo o calor subir até seu rosto.
Ela virou a cabeça.
— Eu não pedi que você aparecesse. E, para ser sincera, você não fez grande coisa.
— Você é sempre tão ingrata? — Um sorriso curvou os lábios dele. — Sem mim, os seguranças teriam colocado você para fora. Agora todos sabem que Serena foi a destruidora de lares. Eu diria que isso foi útil.
— Você fez isso por si mesmo — retrucou Charlotte. — E gostou.
— Eu gosto de muitas coisas.
O olhar dele desceu até os lábios dela.
— Por exemplo...
Alexander abaixou a cabeça.
O coração de Charlotte deu um salto violento.
Ela odiava a forma como o corpo reagia antes que o cérebro pudesse impedi-lo.
Ergueu a mão e cobriu a boca.
Alexander parou.
Em vez de beijá-la nos lábios, baixou a cabeça e roçou os lábios pela lateral do pescoço dela.
— Alexander — advertiu Charlotte, enrijecendo o corpo.
Tarde demais.
Ele a mordeu na curva entre o pescoço e a clavícula, com firmeza, possessivo.
Uma fisgada aguda a atravessou.
Contra a pele pálida, destacou-se uma marca vermelho-escura.
