Capítulo 6
— Você ficou louco? — exclamou Charlotte, com o pescoço ardendo.
Ela empurrou Alexander e se virou imediatamente para o espelho.
Uma marca vermelha se destacava na lateral do pescoço, gritante como um letreiro de neon. Charlotte tentou esfregá-la, mas só conseguiu piorar a situação.
Virou-se para Alexander, com a raiva queimando no peito.
— Você...
Pela primeira vez, ficou sem palavras.
Era impossível esconder aquela marca. Ela tinha entrado no banheiro parecendo perfeitamente normal. Se saísse daquele jeito, todas as esposas ricas e entediadas do prédio teriam um novo escândalo para saborear antes da sobremesa.
Alexander a observava, os olhos escuros indecifráveis.
— O que foi? Está com medo de o Jasper Sinclair entender tudo errado?
Charlotte soltou uma risada cortante.
— Medo? Por favor. Sou solteira. Oficial, dolorosa e gloriosamente solteira. Não sou esposa de ninguém me esgueirando pelos cantos.
Um sorriso surgiu no canto da boca dele.
— Então talvez seja melhor tornar isso mais convincente.
Ela estreitou os olhos.
— O que você quer dizer com...
Não conseguiu terminar.
Alexander avançou, segurou-a pela cintura e a beijou.
Nada de suavidade. Nada de doçura.
Ele a beijou como se quisesse começar uma guerra.
O perfume amadeirado dele invadiu os pulmões de Charlotte, quente e perigoso. Alexander manteve os olhos abertos, fixos nos dela, tão escuros que pareciam capazes de engoli-la inteira. Ela pressionou as mãos contra o peito dele, mas Alexander segurou sua nuca e a manteve no lugar.
Então prendeu o lábio inferior dela entre os dentes.
Um choque percorreu Charlotte. O coração deu uma única batida violenta e absurda. Ela conteve o som que ameaçava escapar, furiosa com ele — e ainda mais furiosa com o próprio corpo por ter reagido.
Aquilo nem sequer era um beijo.
Era uma briga que, por acaso, envolvia lábios.
Quando Alexander finalmente se afastou, Charlotte estava com a boca inchada, a respiração irregular e a paciência no limite.
— Você fez isso de propósito — disparou ela.
A camisa dele estava amassada, e o colarinho, torto e aberto. Alexander ergueu uma sobrancelha.
— Fiz?
— Não se faça de idiota. Isso não combina com essa sua pose de vilão bilionário de terno sob medida. — Os olhos dela faiscaram. — Você está tentando provocar Jasper.
Alexander não respondeu.
Charlotte passou o polegar pelo canto da boca.
— Péssima notícia para você, gênio. Seu planinho não vai funcionar. Ele tem esposa agora. Não tem direito nenhum de sentir ciúmes.
O tom dela ficou frio.
Para Charlotte, o assunto estava encerrado.
Sem esperar pela resposta de Alexander, ela se virou e abriu a porta do banheiro de uma vez.
E deu de cara com Jasper Sinclair.
Jasper tinha mandado Serena subir mais cedo e passara os últimos minutos procurando Charlotte. Assim que a viu, avançou em passos largos, com o rosto tenso e o desespero estampado nos olhos.
— Charlotte. — A voz dele baixou, suave e urgente. — Não leve a sério o que Serena disse. Nada daquilo importa. É tudo encenação. Você sabe que é você quem importa para mim.
Charlotte o encarou como se ele tivesse acabado de sair de um esgoto e pedido um abraço.
Jasper continuou, cada vez mais desesperado:
— Ela é ciumenta. Controladora. Impossível. Eu disse que a deixaria e estava falando sério. Só me dê mais um pouco de tempo, está bem?
Foi então que ele viu o pescoço dela.
A marca vermelha.
Depois, os lábios.
Ainda inchados.
A expressão de Jasper congelou.
— O que aconteceu com você?
Charlotte fechou as mãos ao lado do corpo.
Jasper tentou tocá-la.
— Quem fez isso?
Ela afastou a mão dele com um tapa.
— Por que você se importa? Saia da frente.
Atrás dela, a porta do banheiro se abriu ainda mais.
Alexander saiu como se tivesse esperado a deixa perfeita. Passou um braço pela cintura de Charlotte e a puxou contra o corpo, exibindo um sorriso de canto que deveria ser crime.
— Não é exatamente um mistério de assassinato — comentou.
O rosto de Jasper perdeu a cor.
— Vocês... vocês dois? — A voz dele falhou, carregada de incredulidade. — Por que estavam lá dentro juntos? Que diabos aconteceu?
Charlotte abriu a boca, mas Alexander falou primeiro.
— Seja lá o que a sua imaginação esteja gritando neste momento... — disse ele, arrastando as palavras. — Sim. Foi isso.
Charlotte quase deixou o queixo cair.
Jasper parecia ter sido desligado da tomada.
— Isso é impossível.
Charlotte foi a primeira a se recompor.
E rápido.
Abriu um sorriso doce, mas afiado como uma navalha.
— Impossível? Ótimo. Da próxima vez que dormirmos juntos, mando um convite para a sua agenda.
Alexander lançou um olhar para ela.
Nem ele esperava por aquilo.
Por um segundo, Charlotte se perguntou se tinha ido longe demais. Então viu o rosto de Jasper se contorcer de raiva e concluiu que não.
Na verdade, tinha ido exatamente até onde precisava.
— Você está fazendo isso para me punir — acusou Jasper, com os olhos injetados. — Não pode ser verdade. Só está tentando me irritar.
Charlotte inclinou a cabeça.
— Quem disse que não é verdade?
Antes que Jasper respondesse, ela agarrou Alexander pelo colarinho e o puxou para baixo.
Então o beijou.
Bem na frente de Jasper.
Alexander ficou imóvel por meio segundo. Depois, deixou que ela continuasse.
Não a afastou. Não estragou a encenação. Apenas permaneceu ali enquanto Charlotte o beijava como se tivesse todo o direito de fazer aquilo.
E talvez tivesse.
Quando se afastou, o pulso martelava, mas sua voz continuou glacial.
— Deu para ver direito ou você quer uma reprise?
A dor enrijeceu o rosto de Jasper.
— Não. Você só está fazendo isso para me deixar com ciúmes. Charlotte, pare de se machucar desse jeito.
Por um segundo terrível, ela viu a verdade nos olhos dele.
Jasper ainda a queria.
Só queria o nome Sinclair ainda mais.
Dinheiro. Poder. Status. Legitimidade.
Ele tinha passado a vida inteira odiando a palavra "bastardo" e vendera a alma em troca de um sobrenome mais respeitável.
Jasper tentou alcançar a mão de Charlotte outra vez, como se ainda pudesse afastá-la dali e reescrever toda a cena.
Uma voz furiosa cortou o ar:
— Charlotte, está falando sério?
Serena avançou na direção deles, com raiva em cada passo. O rosto estava vermelho, e os olhos brilhavam de humilhação.
— Eu me afasto por cinco minutos e você já está dando em cima do meu marido de novo?
A mão dela voou.
Charlotte estreitou os olhos.
Serena não chegou nem perto.
Charlotte agarrou o pulso dela no ar e apertou com força. Em seguida, ergueu a outra mão e acertou o rosto de Serena.
O estalo ecoou pelo corredor.
Todas as pessoas por perto viraram a cabeça.
Serena cambaleou para trás, levando a mão à bochecha. Arregalou os olhos.
— Você me bateu? De novo!
A expressão de Charlotte ficou glacial. Linda, fria e absolutamente decidida a pôr fim àquilo.
— Esse tapa foi a minha versão educada.
Os lábios de Serena tremeram de raiva.
Charlotte se inclinou um pouco e baixou a voz, tornando cada palavra ainda mais cortante.
— Você acha que todas as mulheres são tão desesperadas quanto você? Joguei Jasper fora como comida vencida. Só porque você o tirou do lixo não significa que ele virou um prêmio.
O rosto de Jasper se fechou.
Charlotte tirou o celular e tocou na tela.
Uma gravação começou a tocar.
A voz de Jasper preencheu o corredor, clara e incriminadora:
— Charlotte, não se rebaixe ao nível dela. Eu não amo Serena. Sempre foi você. Ela é controladora, desconfiada. Eu disse que me divorciaria dela e estava falando sério. Só me dê mais um pouco de tempo, por favor.
O silêncio caiu como uma lâmina.
Jasper perdeu toda a cor do rosto.
Serena virou a cabeça lentamente na direção dele, com os olhos em chamas.
O pânico atravessou a expressão de Jasper.
— Amor, me ouve. Você entendeu tudo errado. Ela saiu do banheiro com a roupa toda desarrumada e tentou me seduzir.
O peito de Serena subia e descia. As unhas se cravaram nas palmas das mãos.
— Vamos conversar sobre isso em casa — disparou.
Então, porque aparentemente a dignidade tinha feito as malas e a abandonado anos antes, Serena voltou o olhar furioso para Charlotte.
— Meu marido já explicou. Foi você quem o perseguiu.
Charlotte ficou encarando-a.
Então riu.
Ela sabia que Jasper não tinha vergonha na cara. Só não tinha percebido que ele tinha encontrado uma mulher disposta a carregar as mentiras dele como se fossem bagagem de grife.
Charlotte ergueu a mão outra vez.
Tapa.
Dessa vez, a palma acertou o rosto de Jasper.
A cabeça dele virou para o lado.
Um murmúrio de choque percorreu os convidados mais próximos.
Charlotte o examinou de cima a baixo como se ele fosse algo grudado na sola do sapato.
— Patético.
Então se virou e foi embora.
Atrás dela, Serena permaneceu imóvel, com os punhos cerrados e a bochecha ainda ardendo.
Todos tinham visto.
O tapa. A gravação. A humilhação.
O orgulho ferido gritava mais alto que a ardência no rosto.
Ela não deixaria Charlotte sair impune.
Não depois que Charlotte a fez parecer uma idiota diante de metade do salão.
— Pare aí mesmo! — gritou Serena para as costas de Charlotte.
