Capítulo 7

Aurora

Olhei ao redor do quarto. Riven estava apagada, roncando suavemente com um braço pendurado na beirada da cama. Mira estava encolhida, um livro abraçado ao peito como se tivesse adormecido no meio da leitura. Do outro lado do quarto, os fones de ouvido de Lira brilhavam levemente, a playlist ambiente que ela colocou tocando alto o suficiente para ser ouvida. Selene já estava acordada, rolando preguiçosamente a tela do celular com o polegar.

O quarto parecia... tranquilo. Normal.

Normal demais.

O cronograma que nos deram na noite passada estava na minha mesa - papel azul escuro, letras prateadas em uma caligrafia chique que eu nem conseguia ler. Como tudo no Moonbound, tinha aquele ar polido e secreto. Como se pertencesse a um mundo ao qual eu não deveria pertencer.

O que, honestamente, era verdade.

Eu não era um lobisomem.

Eu não era um Lycan.

Na verdade, eu mal sabia a diferença.

Tudo o que eu sabia era que tinha sido matriculada na escola errada, e agora só precisava sobreviver tempo suficiente para que alguém percebesse. Ou consertasse. Ou me expulsasse.

De preferência, sem me comer nesse meio tempo.

Uma batida na porta me fez pular.

"Verificação matinal," alguém chamou. "Aula em quarenta e cinco minutos."

Lira gemeu debaixo do travesseiro. "Já?"

Riven murmurou, meio adormecida. "Que dia é hoje?"

"Primeiro," disse Mira, sentando-se e se espreguiçando como se estivesse acordada há horas. "Não se atrase, ou você vai pegar detenção no primeiro dia. O que seria trágico."

Ela encontrou meu olhar e sorriu. "Dormiu bem?"

"Mais ou menos," respondi rouca. "Sonhos estranhos."

"Isso é normal aqui," disse Mira casualmente. "A primeira semana mexe com todo mundo. Você vai se acostumar."

Não respondi. Não tinha certeza se queria.

O resto da manhã passou em fragmentos, como se meu sonho ainda não tivesse me soltado. Vesti-me no piloto automático, puxando o uniforme azul-marinho e prata que tinham colocado em nossas sacolas de boas-vindas. Cheirava levemente a cedro - intencional demais para ser um acidente - e me peguei alisando a gola repetidamente, até perceber que minhas mãos estavam tremendo.

"Você está em Artes de Combate, certo?" perguntou Selene, colocando o celular no bolso.

"Ah... não. Estudos Gerais." Selene ergueu uma sobrancelha, um lampejo de diversão passando por seu rosto.

"Cursos introdutórios. Fofo."

"Selene," disse Mira, com a voz baixa enquanto prendia o cabelo em um coque. "Seja legal."

"Eu estou sendo," Selene murmurou. "Isso foi eu sendo legal."

"Não ligue para ela," disse Mira para mim, sorrindo facilmente. "Nos encontramos no almoço, ok? O refeitório fica na ala oeste - jantamos lá ontem."

"Obrigada," eu disse, desejando que pelo menos uma delas tivesse o mesmo horário ou a mesma especialização.

Tudo teria sido mais fácil. Mas, infelizmente, eu não tinha essa sorte.

Elas saíram em um grupo barulhento, botas batendo contra o piso de madeira. Fiquei para trás, esperando até a porta se fechar e o silêncio voltar ao quarto.


O corredor estava cheio quando finalmente saí. Não de pessoas, obviamente, mas de lobos. Altos. Pareciam que poderiam me quebrar ao meio sem pensar duas vezes. Alguns já estavam meio transformados, garras arranhando as paredes como se não conseguissem mantê-las guardadas.

Risos ecoavam pelo corredor - baixos, ásperos, muito parecidos com uivos.

Abaixe a cabeça e abracei minha mochila com mais força.

O campus era muito maior do que eu imaginava. Caminhos de pedra se dividiam em todas as direções, serpenteando entre árvores de abeto tão altas que bloqueavam metade do céu. Os prédios simplesmente... emergiam da névoa, como algo deixado de outro mundo. E aquelas bandeiras prateadas penduradas nos arcos? Sim, nem eram de tecido. Metal. Tecido tão fino que ondulava como água sempre que o vento as atingia.

Era lindo.

E errado.

Quando finalmente encontrei a porta marcada Fundamentos da História da Matilha, o sinal de alerta já estava tocando. Entrei o mais silenciosamente possível.

A sala parecia mais uma catedral—janelas enormes, tetos que pareciam infinitos e velas flutuando em orbes de vidro acima das mesas. Não vi nenhum interruptor de luz em lugar nenhum. A maioria dos assentos já estava ocupada.

Algumas cabeças se viraram quando entrei. Alguns deles cheiraram o ar. Literalmente cheiraram.

O calor subiu pelo meu pescoço.

Mantive a cabeça baixa, encontrei o primeiro assento vazio e afundei nele. O caderno que me deram tinha o brasão da academia estampado em prata na capa. As páginas pareciam grossas e caras e... erradas. Como se eu nem devesse tocá-las.

A porta se abriu, e um homem mais velho entrou, alto, com cabelo grisalho preso para trás, uma presença tão imponente que silenciou a sala instantaneamente. Ele nem precisou falar.

"Bem-vindos à Moonbound," ele disse, a voz profunda o suficiente para vibrar o ar. "Para aqueles que nasceram na matilha, isto é um lembrete. Para aqueles que foram trazidos de outros lugares..." Seu olhar percorreu a sala. Parou em mim por um instante longo demais. "...este é o começo."

Meu estômago revirou.

Ele começou a falar sobre algo chamado Tratado da Lua de Sangue de 1724 e o primeiro conselho dos Lycans. Tentei escrever, mas as palavras continuavam se embaralhando.

A ponte é a oferenda, e a floresta não esquece o que foi prometido.

A voz do meu sonho pressionava contra meu crânio como se tivesse sido gravada ali.

Continuei movendo a caneta, como se isso de alguma forma provasse que eu pertencia ali. Como se eu não estivesse ainda em espiral por dentro.

Na hora do almoço, meus ombros estavam doloridos, e minha mandíbula doía de tanto apertá-la. Não percebi que estava prendendo a respiração a manhã toda até entrar na cafeteria e finalmente soltá-la.

Apertei a bandeja com mais força. Pelo menos a Academia Moonbound tinha comida normal também—frango, salada, pão e sopa. Eu conseguia lidar com isso.

Mira acenou para mim de uma mesa perto das janelas. Riven estava esparramada com as botas no banco, Selene estava mexendo no celular, e Lira estava beliscando algumas frutas.

"Primeiro dia, né?" Mira sorriu quando me sentei. "Como foi História da Matilha?"

Hesitei.

Estranho. Errado. Como se eu tivesse entrado na vida de outra pessoa.

"Foi bem," respondi ao invés.

Selene levantou os olhos, sobrancelha arqueada. "Você parece pálida. Como se tivesse visto um fantasma."

Engoli em seco. Pensei no berço na ponte. Olhos cinzentos à luz do fogo.

"Talvez eu tenha visto," murmurei.

E então eu senti de novo. Não alto, não na sua cara—apenas um puxão silencioso, como se algo na sala tivesse se movido em minha direção sem aviso.

Olhei para cima.

Zayn tinha acabado de entrar.

Seu cabelo escuro estava desgrenhado, como se ele tivesse acabado de vir do treino. A jaqueta do uniforme estava desabotoada no colarinho, as mangas arregaçadas, e um pingente de prata pendia solto contra seu peito. Ele se movia como se não tivesse pressa, mas cada movimento ainda tinha um propósito.

Ele não olhou diretamente para mim.

Mas ele sabia que eu estava ali.

Eu podia dizer pela maneira como seu olhar passou pela nossa mesa antes de se afastar. Pela maneira como sua mandíbula se apertou, quase imperceptível, mas presente.

Como se ele tivesse visto algo que não gostou.

Qual era o problema dele?

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