Capítulo 1 UMA MATÉRIA PERIGOSA
Mia acabou de realizar um dos maiores sonhos da sua vida: formar-se em Jornalismo. Recém-formada e trabalhando como estagiária em um jornal local, ela está prestes a receber a oportunidade que pode mudar seu futuro profissional. Mas, para conquistar sua tão sonhada efetivação, precisará provar que tem talento, coragem e competência para enfrentar uma grande reportagem.
A missão parece simples: realizar uma matéria especial, conquistar a confiança de suas fontes e mostrar que merece seu lugar entre os grandes profissionais da imprensa.
O problema começa quando Mia descobre quem será o centro de sua reportagem.
Intenso, misterioso e dono de uma presença impossível de ignorar, ele é um homem que desperta curiosidade por onde passa. Acostumado a manter o controle de tudo ao seu redor, não imagina que uma jovem jornalista poderá mexer com suas certezas. Muito menos que, por trás das perguntas profissionais dela, existe uma mulher determinada a construir o próprio futuro.
Mia sabe que precisa manter o foco. Seu emprego está em jogo, e misturar sentimentos com trabalho pode colocar tudo a perder. Entretanto, quanto mais se aproxima de seu entrevistado, mais difícil se torna separar a jornalista da mulher que começa a enxergar além das aparências.
Entre entrevistas, segredos, desconfianças e uma atração que cresce a cada encontro, Mia descobrirá que algumas histórias são muito mais perigosas do que parecem. E que, às vezes, a verdade pode machucar tanto quanto o amor pode transformar.
Ela entrou nessa missão para conquistar uma carreira.
Mas será capaz de sair dela sem perder o coração?
Porque, nessa reportagem, o maior desafio de Mia não será conseguir a matéria perfeita… será não se apaixonar pelo homem que deveria apenas entrevistar.
Mia narrando
Crescer em uma família desestruturada é complicado, principalmente quando você se lembra de que nem sempre foi assim.
Durante a minha infância, meus pais eram amorosos, trabalhadores e faziam de tudo para que nossa casa fosse um lugar feliz. Nosso lar vivia arrumado, as refeições eram feitas em família e, apesar das dificuldades que a vida pudesse apresentar, eu me sentia protegida.
Meu pai era bombeiro concursado e recebia um bom salário. Minha mãe, por sua vez, era sócia de uma loja bastante conhecida na cidade. Não éramos milionários, mas tínhamos uma vida confortável. Nunca me faltou comida na mesa, roupas para vestir ou carinho dos meus pais.
Pelo menos, era assim que eu me lembrava da nossa vida antes de tudo desmoronar.
Até hoje, não sei dizer exatamente quando as coisas começaram a mudar. Talvez tenha sido aos poucos, de uma maneira tão silenciosa que só percebemos a gravidade da situação quando já era tarde demais.
Meu pai, que costumava beber apenas nos finais de semana, começou a consumir bebidas alcoólicas durante a semana. No início, achei que fosse apenas uma fase ruim, talvez resultado do estresse do trabalho. Minha mãe, que gostava de jogar cartas com as amigas aos sábados, passou a sair também durante a semana. Depois, começou a frequentar outros jogos, envolvendo apostas cada vez maiores.
Uma aposta aqui, outra ali. Segundo ela, não havia motivo para preocupação.
Até que aquilo deixou de ser uma diversão e se transformou em um vício.
As bebidas começaram a mudar o comportamento do meu pai. Ele chegava em casa alterado, gritava por qualquer motivo e, algumas vezes, quebrava objetos que encontrava pela frente. O homem que antes me abraçava depois de um dia cansativo passou a ser alguém que eu observava com receio, tentando descobrir pelo som dos passos se aquela noite seria tranquila ou mais uma noite de confusão.
Minha mãe também já não era a mesma. O dinheiro que entrava em casa parecia desaparecer cada vez mais depressa, e as explicações nunca eram suficientes para esclarecer o que estava acontecendo.
Quando me dei conta, já estava no auge da adolescência, convivendo com um pai alcoólatra e uma mãe que havia perdido o controle sobre as apostas.
Foi doloroso perceber que as pessoas que deveriam cuidar de mim estavam, aos poucos, deixando de cuidar até de si mesmas.
Comecei a trabalhar assim que tive oportunidade. Meu salário não era grande coisa, mas representava alguma independência e, principalmente, uma chance de não depender completamente deles. Eu precisava esconder o dinheiro que conseguia guardar, porque, se meus pais descobrissem que eu tinha alguma quantia disponível, provavelmente encontrariam uma justificativa para usá-la.
Não era a vida que eu sonhava ter, mas aprendi cedo que, às vezes, precisamos nos tornar fortes antes mesmo de estarmos preparadas.
Quando entrei para a faculdade de Jornalismo, minha rotina se tornou ainda mais difícil. Eu trabalhava, estudava e tentava manter a casa funcionando como podia. Houve noites em que chorei escondida, sentada na beirada da cama, pensando em desistir de tudo.
Eu estava cansada.
Cansada de ser responsável por problemas que não havia criado, de tentar consertar o que meus pais destruíam e de fingir que estava tudo bem quando alguém perguntava sobre minha família.
Mesmo assim, continuei.
Cada prova concluída, cada trabalho entregue e cada semestre vencido me aproximavam do meu objetivo. Eu queria construir uma vida diferente, ter meu próprio espaço e nunca mais precisar escolher entre pagar uma conta e comprar alguma coisa de que precisava.
Consegui me formar.
E, quando segurei meu diploma, tive a sensação de que todas as noites mal dormidas finalmente haviam valido a pena.
Atualmente, trabalho como estagiária em um jornal local. Ainda não fui efetivada, mas estou determinada a conquistar minha vaga. O problema é que meus superiores querem resultados, e não basta demonstrar que sou dedicada ou que tenho boas ideias.
Preciso produzir uma reportagem de impacto.
Uma matéria capaz de chamar a atenção dos leitores e mostrar que estou preparada para assumir maiores responsabilidades dentro do jornal.
Foi assim que recebi a missão que poderia mudar minha carreira.
Ou acabar com ela antes mesmo de começar.
O assunto era o tráfico local.
Existe uma comunidade nos arredores da cidade onde o índice de criminalidade é elevado. Os relatos sobre o lugar são assustadores, e até mesmo os policiais parecem enfrentar dificuldades para realizar determinadas operações por lá. Quanto à imprensa, poucos profissionais se arriscam a entrar naquele território para investigar o que realmente acontece.
E adivinhem quem recebeu essa missão?
Exatamente. Eu.
Às vezes, acho que meu chefe tem uma maneira bastante peculiar de testar o comprometimento dos funcionários.
Eu poderia recusar? Talvez. Mas, se fizesse isso, estaria praticamente abrindo mão da oportunidade que tanto esperei.
Por isso, tomei uma decisão arriscada: aluguei uma pequena casa na comunidade. Minha intenção era observar a rotina do lugar, reunir informações e descobrir o máximo possível antes de escrever a reportagem.
Eu tinha um plano.
Observar. Anotar. Fotografar quando fosse seguro. Investigar com cautela. Organizar tudo e enviar a matéria ao jornal para avaliação antes da publicação.
Simples, pelo menos no papel.
Na prática, eu sabia que estava entrando em um território desconhecido, onde um erro poderia ter consequências graves.
O homem que comandava as atividades criminosas da região era bastante procurado. Os comentários a respeito dele variavam, mas quase todos concordavam em um ponto: era alguém perigoso, conhecido por sua postura implacável e por não tolerar traições.
Algumas histórias sobre o tratamento dado aos seus inimigos eram tão assustadoras que eu preferia não imaginar até que ponto poderiam ser verdadeiras.
Ainda assim, havia uma coisa que me deixava particularmente interessada.
Uma fotografia exclusiva daquele homem poderia transformar minha reportagem em um grande sucesso.
E, se eu conseguisse uma imagem acompanhada de informações relevantes, teria motivos de sobra para acreditar que finalmente seria efetivada.
Era nisso que eu tentava me concentrar.
No meu futuro.
Não no medo.
Já eram oito horas da noite quando finalmente recebi autorização para seguir até a casa alugada.
A primeira coisa que percebi foi a movimentação nas ruas. Havia homens circulando com armas à mostra, conversando em pequenos grupos e observando quem passava. O cheiro de maconha era perceptível em alguns pontos, e muitos jovens se reuniam pelas esquinas.
O que mais me incomodou, porém, foi ver crianças pequenas circulando por aquele ambiente, expostas a situações que nenhuma delas deveria precisar presenciar tão cedo.
Não conhecia a realidade de todas as comunidades e não pretendia fingir que sabia como resolver seus problemas. Mas era impossível não me perguntar quantas daquelas crianças cresceriam acreditando que aquela era a única vida possível.
Guardei minhas observações para mim e continuei andando.
Eu não estava ali para julgar as pessoas, muito menos para arrumar confusão. Se quisesse concluir meu trabalho, precisaria aprender a observar sem chamar atenção.
Quando finalmente encontrei a casa, senti um pequeno alívio.
Pelo menos, estava mobiliada.
O problema era o tamanho.
Aquilo não era uma casa; era praticamente uma caixa de sapatos com portas e janelas. Se eu desse alguns passos a mais, corria o risco de passar duas vezes pelo mesmo lugar sem perceber.
A sala era minúscula, a cozinha mal comportava o necessário e o quarto tinha espaço suficiente para uma cama e meus pertences.
Mas eu ficaria ali por pouco tempo. Ou, pelo menos, era o que esperava.
Deixei minha bolsa sobre a cama e fui até a janela.
Foi quando percebi uma construção do outro lado da rua. Havia vários homens armados na entrada, entrando e saindo do local com uma naturalidade que me deixou desconfortável.
Meu coração acelerou.
Peguei o celular e o coloquei no modo silencioso. Conferi se o flash estava desligado e, com muito cuidado, tirei algumas fotografias da janela, evitando movimentos bruscos.
Não eram imagens perfeitas, mas poderiam ser úteis.
Guardei os arquivos em uma pasta protegida por senha e abri o bloco de notas para registrar o que havia observado. Anotei o horário, a quantidade aproximada de homens e a movimentação na entrada.
Eu precisava ser organizada. Minha memória poderia falhar, mas minhas anotações estariam ali para me ajudar.
Depois de guardar o celular, organizei minhas poucas coisas e percebi que estava com fome.
Havia passado boa parte do dia resolvendo os detalhes da mudança e praticamente não tinha comido nada. Se quisesse continuar trabalhando, precisaria cuidar de mim também.
Saí para procurar algum lugar onde pudesse comprar comida.
Caminhei com atenção, tentando agir naturalmente. Algumas pessoas me cumprimentaram; outras me olharam de cima a baixo, como se estivessem tentando descobrir quem eu era e o que fazia ali.
Talvez estivessem apenas curiosas.
Talvez já tivessem percebido que eu era uma desconhecida.
De qualquer maneira, mantive a expressão tranquila e segui em frente. Não queria demonstrar nervosismo, mas também não pretendia bancar a corajosa e provocar alguém sem necessidade.
Minha melhor estratégia seria permanecer discreta.
Eu precisava daquela reportagem, e não permitiria que a ansiedade me fizesse cometer uma imprudência.
Em menos de um mês, pretendia ter informações suficientes para escrever a matéria dos meus sonhos.
Pelo menos, esse era o plano.
Encontrei uma lanchonete que parecia ser um dos principais pontos de encontro da região.
O lugar estava movimentado. Havia conversas espalhadas por todas as mesas, gargalhadas, brincadeiras e alguns gritos que faziam os clientes mais próximos rirem ainda mais.
Escolhi uma mesa no fundo, onde poderia comer tranquilamente e observar o ambiente sem precisar ficar no meio da movimentação.
Fiz meu pedido e peguei o celular, fingindo estar distraída enquanto prestava atenção ao que acontecia ao redor.
Eu ainda estava tentando me acostumar àquela realidade quando, de repente, o ambiente mudou.
As risadas diminuíram.
As conversas foram desaparecendo uma a uma.
Em poucos segundos, um silêncio desconfortável tomou conta da lanchonete.
Franzi a testa, sem entender o que estava acontecendo.
Será que alguém havia se machucado?
Será que tinha acontecido alguma coisa na rua?
Levantei os olhos em direção à entrada.
E foi então que o vi.
O tal chefe.
Ele entrou acompanhado de alguns homens e caminhou pelo estabelecimento como se estivesse completamente acostumado a provocar aquele tipo de reação.
Era alto, tinha uma postura firme e uma expressão fechada que não deixava espaço para brincadeiras. Não precisou levantar a voz, ameaçar ninguém ou fazer qualquer gesto exagerado. Sua simples presença pareceu suficiente para mudar o comportamento de todos.
Ele não cumprimentou ninguém.
Apenas observou o lugar por alguns segundos antes de seguir até uma mesa próxima à minha.
Meu estômago se contraiu.
Aquela era a minha oportunidade de vê-lo de perto, mas, naquele instante, eu preferia estar em qualquer outro lugar.
Os homens que o acompanhavam se acomodaram ao redor dele. Um dos funcionários se aproximou para atendê-los, e o movimento da lanchonete começou a voltar lentamente ao normal.
As conversas recomeçaram, primeiro em voz baixa, depois com um pouco mais de naturalidade.
Eu, entretanto, já não conseguia prestar atenção em quase nada.
Aquele homem estava a poucos metros de mim.
O mesmo homem que eu pretendia investigar.
O homem cuja fotografia poderia garantir minha efetivação.
E, pelo que eu estava vendo, não seria tão simples conseguir aquela imagem.
Continuei comendo devagar, tentando agir como se nada de extraordinário estivesse acontecendo. Não queria olhar diretamente para ele, muito menos permitir que alguém percebesse meu interesse.
Ainda assim, tive a incômoda sensação de estar sendo observada.
Uma sensação persistente.
Quase como se aqueles olhos estivessem acompanhando cada movimento meu.
Mantive a cabeça baixa.
Eu não olharia para o lado nem que me pagassem.
Quando terminei o lanche, paguei a conta e me levantei. Tentei não demonstrar pressa, embora cada segundo naquele lugar parecesse prolongar meu desconforto.
Saí sem olhar para trás.
Somente quando me afastei da lanchonete percebi que estava prendendo a respiração. Soltei o ar lentamente e levei uma das mãos ao peito, tentando acalmar as batidas descompassadas do coração.
Que loucura era aquela?
Eu sabia que a missão seria arriscada. Tinha consciência de que estava entrando em um ambiente desconhecido e de que precisava tomar cuidado com cada passo.
Mas uma coisa era ler relatos sobre um homem perigoso.
Outra, completamente diferente, era sentar a poucos metros dele e sentir o peso de sua presença sem sequer trocar uma palavra.
Continuei andando até chegar à minha casa.
Ao fechar a porta, encostei as costas na madeira e fechei os olhos por alguns segundos.
Eu estava com medo.
Não adiantava negar.
Uma parte de mim queria abandonar aquela ideia, pegar minhas coisas e voltar para a segurança da minha antiga rotina. Mas outra parte, aquela que havia enfrentado tantas dificuldades para chegar até ali, recusava-se a desistir.
Eu precisava daquele emprego.
Precisava provar que era capaz.
Precisava construir uma vida na qual o meu futuro não dependesse das escolhas erradas dos meus pais.
Respirei fundo e me afastei da porta.
Ainda tinha muito trabalho pela frente, e aquela noite havia me ensinado uma coisa importante: eu precisava ser mais cuidadosa do que imaginava.
O chefe estava mais perto do que eu esperava.
E, se quisesse concluir aquela reportagem, teria que descobrir como me aproximar dele sem despertar suspeitas.
Eu tinha um mês.
Trinta dias para investigar, reunir informações e conseguir a matéria que poderia mudar minha vida.
Só esperava que, quando tudo terminasse, eu ainda estivesse viva para comemorar.
Porque, se aquele plano desse errado, talvez minha carreira nem chegasse a começar.
E eu não pretendia descobrir tão cedo como seria estar sete palmos abaixo da terra.
