Capítulo 2 UMA INVASÃO INESPERADA

Lúcifer narrando

Comandar uma comunidade não era tarefa para qualquer um. A responsabilidade era grande, os problemas surgiam a todo instante e, se eu não estivesse atento, bastava um descuido para que tudo saísse do controle.

Eu sabia muito bem o que fazia. Não tinha chegado até ali por acaso, e muito menos pretendia perder o que havia conquistado por falta de atenção.

Quando aparecia um novo morador, minha preocupação aumentava. Eu precisava entender quem era aquela pessoa, de onde vinha e quais eram suas intenções. Não podia simplesmente confiar em qualquer desconhecido que resolvesse se estabelecer no meu território.

Afinal, nunca faltava gente interessada em descobrir os nossos passos para depois entregar informações aos inimigos.

Eu não gostava de injustiças. Quem era trabalhador, respeitava os outros e procurava viver em paz não precisava ter medo de mim. Eu conhecia as dificuldades enfrentadas por muitas famílias e sabia que nem todo mundo tinha as mesmas oportunidades.

Mas também não era nenhum santo.

Quem tentava me passar para trás precisava estar preparado para enfrentar as consequências. Traição era algo que eu não tolerava, principalmente quando colocava em risco a vida de outras pessoas.

Minha rotina era praticamente a mesma todos os dias: resolver problemas, receber informações, organizar a segurança e garantir que ninguém se aproveitasse da situação para prejudicar os moradores.

Relacionamentos amorosos? Nem pensar.

Já tinha responsabilidades demais para permitir que uma mulher entrasse na minha vida e se tornasse mais uma preocupação. Não precisava de complicações sentimentais, cobranças ou desconfianças. Meu mundo já era complicado o suficiente.

Pelo menos, era isso que eu pensava até a chegada da nova moradora.

Aquela mulher tinha despertado minha curiosidade desde o primeiro dia.

Não porque tivesse feito alguma coisa extraordinária, mas justamente pelo contrário. Ela quase não saía de casa. Aparecia apenas para comprar alguma coisa e logo voltava para o seu pequeno imóvel.

O detalhe que me incomodava era a maneira como observava tudo ao redor.

Ela olhava para as ruas, acompanhava a movimentação dos homens e parecia prestar atenção até mesmo nas conversas mais banais.

Talvez fosse medo.

Talvez estivesse tentando se acostumar com o lugar.

Ou talvez escondesse alguma coisa.

Eu já tinha visto mulheres chegarem à comunidade carregando histórias complicadas. Algumas fugiam de companheiros violentos e procuravam um lugar onde pudessem recomeçar. Outras apareciam com intenções menos inocentes, enviadas por pessoas que queriam descobrir nossos segredos.

Por isso, eu não tirava conclusões precipitadas.

Mas também não baixava a guarda.

Se aquela mulher estivesse ali para prejudicar os moradores ou colocar o comando em risco, descobriria rapidamente que havia escolhido o lugar errado para brincar com a minha paciência.

Eu só precisava descobrir quem ela era.

Naquela noite, resolvi dar uma volta pela comunidade.

As rondas me ajudavam a acompanhar a movimentação e perceber qualquer mudança na rotina. Gostava de observar as ruas pessoalmente, conversar com alguns moradores e verificar se estava tudo em ordem.

Durante o percurso, passei pela praça e resolvi comprar uma Coca-Cola.

Estava tudo relativamente tranquilo quando ouvi o primeiro foguete.

Parei imediatamente.

Poucos segundos depois, outros disparos de alerta ecoaram pelo lugar.

A expressão dos moradores mudou na mesma hora. Algumas pessoas recolheram os filhos, outras correram para dentro de casa, e os homens que estavam espalhados pelas ruas começaram a se movimentar.

Peguei o rádio.

— Qual é a situação? — perguntei, tentando manter a voz firme.

As informações chegaram quase ao mesmo tempo: a polícia estava subindo por um dos acessos.

Olhei ao redor. Eu estava armado, mas sozinho naquele ponto, e não fazia sentido permanecer exposto enquanto tentava entender o que estava acontecendo.

Precisava sair da rua e me comunicar com os homens que estavam coordenando a segurança.

Corri até a primeira casa que encontrei com a porta acessível e entrei sem pensar duas vezes.

Só percebi onde estava quando ouvi uma cadeira se arrastar.

A nova moradora estava sentada diante de um computador, usando fones de ouvido. Parecia tão concentrada no que fazia que não tinha percebido a movimentação do lado de fora.

Quando me viu, levou um susto tão grande que fechou o computador de repente.

Aquilo me chamou a atenção.

Ela retirou os fones, arregalou os olhos e ficou me encarando por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se gritava ou perguntava o que eu estava fazendo ali.

Foi ela quem falou primeiro.

— O que você está fazendo na minha casa?

Olhei para a porta e depois voltei os olhos para ela.

— A comunidade está sendo invadida.

A expressão de surpresa deu lugar à preocupação.

— Por quem?

Quase soltei uma risada diante da pergunta, mas não havia tempo para aquilo.

— Pela polícia, menina. Os botas estão subindo.

Ela franziu a testa.

— Botas? Quem são os botas?

Olhei para ela, tentando entender se estava brincando comigo.

— Os policiais. É assim que alguns moradores chamam eles.

— Ah...

A resposta saiu baixinha.

Passei a mão pelo rosto, impaciente com a quantidade de perguntas que aquela mulher conseguia fazer em tão pouco tempo.

— Eles estão tentando entrar por alguns acessos. Agora, se me permite, preciso resolver essa situação.

— Mas por que fazem isso?

Virei o rosto lentamente na direção dela.

— Você pergunta demais, não acha?

Assim que falei, ela abaixou a cabeça.

— Desculpa.

Foi nesse instante que consegui observá-la melhor.

Ela vestia um blusão largo, um short curto e meias compridas. Os cabelos estavam bagunçados, e os óculos escorregavam um pouco pelo nariz. Havia algo naquela aparência despretensiosa que contrastava com a postura atenta que eu tinha observado nas ruas.

Parecia uma daquelas garotas que a gente via nas novelas, concentradas nos estudos e preocupadas com coisas que não envolviam problemas como os meus.

Mas aparência não significava nada.

Eu já tinha aprendido que as pessoas podiam esconder muita coisa por trás de um rosto inocente.

E aquela mulher estava na minha lista de dúvidas.

— Está me olhando assim por quê? — ela perguntou de repente.

Desviei os olhos.

— Estou olhando normalmente.

— Não parece.

Soltei uma respiração impaciente.

— Olha, menina, não estou aqui para discutir com você. Preciso resolver um problema lá fora. Fique longe das janelas e não abra a porta enquanto a situação não estiver controlada.

Ela assentiu.

— Está bem.

Peguei o rádio e comecei a transmitir as orientações necessárias. Minha atenção estava dividida entre as informações que chegavam e a mulher que permanecia em silêncio a poucos passos de mim.

Ela pegou o celular, mas não parecia concentrada na tela. Seus pés se movimentavam inquietos, denunciando o nervosismo que tentava esconder.

Aquilo me chamou a atenção.

Não era a primeira pessoa que eu via ficar assustada durante uma operação policial. O barulho, a correria e a incerteza eram suficientes para deixar qualquer um apreensivo.

Ainda assim, havia alguma coisa na maneira como ela reagia que não me deixava tranquilo.

Continuei ouvindo as informações pelo rádio.

Alguns homens haviam conseguido sair da área mais exposta, enquanto outros permaneciam tentando encontrar uma rota segura. Em seguida, recebi a notícia de que três policiais estavam isolados em um trecho da comunidade.

Fechei a expressão.

A situação estava ficando mais séria do que eu gostaria.

Passei novas orientações à equipe responsável pela segurança e deixei claro que ninguém deveria colocar os moradores em risco desnecessariamente. Não queria gente inocente no meio de um confronto.

Também não pretendia permitir que aquela noite se transformasse em uma tragédia.

A mulher continuava quieta.

Quando encerrei a comunicação, percebi que ela havia bloqueado o celular e agora me observava com uma expressão difícil de interpretar.

— O que foi? — perguntei.

— Nada.

— Então por que está me olhando?

Ela desviou os olhos depressa.

— Você parece estar muito preocupado.

Aquilo me fez estreitar o olhar.

— Tem policiais entrando na comunidade. É claro que estou preocupado.

— Eu sei. Só achei que...

Ela interrompeu a própria frase.

— Achou o quê?

— Nada. Esquece.

Fiquei alguns segundos esperando que continuasse, mas ela não disse mais nada.

Era estranho.

Desde que eu havia entrado, ela fazia perguntas sobre tudo. Agora, de repente, parecia ter medo de falar.

Talvez estivesse apenas assustada. Talvez fosse uma pessoa curiosa que ainda não sabia quando deveria ficar em silêncio.

Ou talvez estivesse tentando descobrir alguma coisa.

Eu precisava parar de imaginar possibilidades e encontrar respostas concretas.

Voltei minha atenção para o rádio e aguardei novas informações. Aos poucos, a movimentação começou a diminuir. Ainda não era possível dizer que tudo estava resolvido, mas a situação parecia menos caótica.

Olhei para a janela, tomando cuidado para não me expor.

Depois, voltei a encarar a dona da casa.

— Qual é o seu nome?

Ela pareceu surpresa com a pergunta.

— Mia.

— Mia de quê?

— Só Mia está bom.

Ergui uma sobrancelha.

— Você sempre responde às perguntas pela metade?

Ela apertou os lábios, aparentemente incomodada.

— E você sempre entra na casa dos outros sem pedir licença?

Por um instante, fiquei sem resposta.

Aquela mulher realmente não sabia com quem estava falando ou tinha mais coragem do que juízo.

— Entrei porque precisava de abrigo durante a invasão — respondi, controlando o tom de voz. — Não foi exatamente uma visita planejada.

— Poderia ter batido.

Olhei para ela, incrédulo.

— Enquanto os foguetes estavam estourando e a polícia subia a comunidade?

Mia ficou em silêncio por um instante.

— Tá. Nesse caso, eu entendo.

Quase sorri, mas me controlei.

Aquela garota tinha uma resposta para tudo. Mesmo nervosa, conseguia encontrar um jeito de me enfrentar sem levantar a voz.

Era irritante.

E, por algum motivo, interessante.

Eu não estava acostumado a prestar tanta atenção em uma desconhecida. Muito menos em alguém que acabara de chegar à comunidade e já despertava tantas dúvidas.

Mas ainda não havia motivo para tirar conclusões.

Talvez ela fosse apenas uma jovem tentando se adaptar a uma realidade diferente. Talvez tivesse vindo para fugir de algum problema. Ou talvez existisse uma razão para aquela atenção exagerada aos detalhes.

Eu descobriria.

Não precisava pressioná-la naquela noite. Bastava observar, conversar com as pessoas certas e entender melhor quem era aquela mulher.

Antes de sair, voltei a olhar para ela.

— Tranque a porta quando eu for embora. E, se ouvir qualquer movimentação estranha, fique dentro de casa.

Ela assentiu, dessa vez sem fazer perguntas.

Caminhei até a entrada e parei por um breve instante.

Mia já havia voltado a segurar o celular, mas seus dedos estavam rígidos, e ela parecia acompanhar cada um dos meus movimentos.

Aquela reação não passou despercebida.

Abri a porta e saí, deixando para trás a pequena casa e a mulher que, em poucos minutos, havia conseguido despertar minha desconfiança.

Enquanto voltava a me comunicar com os homens do comando, uma certeza começou a se formar na minha cabeça.

Eu ainda não sabia o que Mia estava fazendo ali.

Não sabia de onde vinha, o que pretendia ou por que parecia tão interessada em observar a comunidade.

Mas descobriria.

Porque, naquele lugar, confiança não era algo que se oferecia de graça.

E aquela mulher, por mais que tentasse esconder, parecia carregar um segredo.

Eu só precisava descobrir qual era.

E não demoraria muito para começar a procurar as respostas.

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