Capítulo 3 NO MEIO DO FOGO CRUZADO

Mia narrando

Assim que Lúcifer saiu da minha casa, soltei o ar que nem havia percebido que estava prendendo.

Meu Deus, que homem assustador!

Eu sabia que ele era perigoso, mas estar tão perto dele, dentro da minha própria casa, foi uma experiência completamente diferente de tudo o que eu havia imaginado. O pior era perceber que ele parecia desconfiar de mim. A cada pergunta que fazia, eu tinha a impressão de que estava sendo analisada, como se aquele homem conseguisse enxergar além das minhas palavras.

E eu não podia permitir que descobrisse a verdade.

Assim que tive certeza de que ele havia se afastado, peguei meu celular e conferi o material que tinha conseguido registrar.

O vídeo estava lá.

Eu havia gravado parte da conversa e algumas das ordens que ele transmitira pelo rádio. A imagem não era perfeita, mas o áudio estava suficientemente claro para que eu pudesse compreender boa parte do que acontecera.

Meu coração voltou a acelerar.

Eu tinha conseguido uma informação exclusiva!

Guardei o arquivo na pasta protegida do celular, junto com as fotografias que havia feito anteriormente. Em seguida, abri minhas anotações e acrescentei os detalhes sobre a invasão, os horários e a movimentação dos homens.

Ainda precisava confirmar algumas informações antes de publicar qualquer coisa. Uma boa jornalista não poderia se basear apenas em imagens e impressões pessoais. Eu precisava verificar os fatos, ouvir fontes confiáveis e separar aquilo que realmente sabia daquilo que apenas suspeitava.

Mesmo assim, o material já poderia representar um excelente começo para a reportagem.

Talvez eu estivesse mais perto da minha efetivação do que imaginava.

O problema era que, naquele momento, a minha carreira parecia ser a menor das minhas preocupações.

Os barulhos vindos das ruas estavam cada vez mais intensos. Pelo que conseguia ouvir, havia mais policiais chegando, e a movimentação na comunidade estava completamente descontrolada.

Eu precisava me preparar para o pior.

Levantei depressa e procurei uma bolsa que pudesse carregar sem dificuldades. Coloquei meus documentos, algum dinheiro, roupas leves, itens de higiene pessoal, carregadores, meu computador e o celular.

Não sabia se precisaria sair dali por algumas horas ou se teria que abandonar a casa de vez. Por isso, preferi levar tudo o que considerava essencial.

Enquanto organizava os últimos objetos, tentei controlar o nervosismo.

Eu havia planejado aquela investigação com cuidado, mas não tinha previsto que uma operação policial aconteceria logo na minha primeira noite. Muito menos que acabaria dividindo minha casa com o homem que pretendia investigar.

A realidade tinha uma maneira cruel de nos lembrar que nem tudo podia ser controlado.

Quando terminei de arrumar a bolsa, procurei um lugar mais protegido.

A cozinha ficava nos fundos da casa e era a parte mais distante da entrada. Além disso, não havia janelas naquele espaço. Não era exatamente um abrigo perfeito, mas parecia mais seguro do que permanecer perto da porta ou das aberturas que davam para a rua.

Sentei-me no chão, ao lado da geladeira, mantendo a bolsa junto ao corpo.

Foi então que meu celular começou a tocar.

Olhei para a tela e senti um pequeno alívio ao reconhecer o número do meu chefe.

Atendi imediatamente.

— Mia, você está bem? — perguntou ele, sem perder tempo com cumprimentos.

— Estou, mas a situação está muito complicada. A polícia está entrando na comunidade, há muitos disparos e as pessoas estão tentando encontrar um lugar seguro.

— Nós estamos acompanhando tudo aqui da entrada. Há outros jornalistas comigo, e a movimentação está aumentando. Você consegue me dizer onde está?

Passei o endereço da casa e expliquei brevemente o que tinha observado.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Vou tentar entrar em contato com o comandante da operação e informar sua localização. Se os policiais entrarem na casa, explique que você é jornalista e que está ali para realizar uma reportagem.

Engoli em seco.

— E se eles não acreditarem em mim?

— Mantenha a calma, Mia. Não discuta com ninguém e não faça movimentos que possam ser interpretados de maneira errada. Sua segurança vem primeiro. Entendeu?

— Entendi.

— E não tente conseguir imagens a qualquer custo. Uma matéria não vale a sua vida.

Aquelas palavras me atingiram de uma maneira inesperada.

Meu chefe sempre cobrava resultados, e eu estava tão preocupada em conquistar minha vaga que, por alguns momentos, havia esquecido o tamanho do risco que corria.

— Está bem. Vou tomar cuidado.

— Mantenha o telefone por perto, se for seguro. Avisarei as autoridades sobre você.

A ligação terminou, e eu fiquei olhando para a tela por alguns instantes.

Precisava confiar que aquilo ajudaria.

Pouco tempo depois, ouvi passos do lado de fora.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

As vozes se aproximaram, seguidas por batidas fortes na porta. Antes que eu pudesse me levantar, ouvi alguém anunciar que era a polícia.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

Respirei fundo, deixei as mãos visíveis e me levantei devagar.

Quando a porta foi aberta, alguns policiais entraram para verificar o imóvel. Expliquei que era uma jornalista e mostrei minha identificação profissional, mantendo os movimentos lentos e obedecendo às orientações que me davam.

Eles olharam os cômodos e fizeram algumas perguntas. Não tentei discutir, muito menos esconder qualquer movimento.

Naquele momento, minha prioridade era sair dali em segurança.

Do lado de fora, outros moradores estavam sendo conduzidos para uma área considerada mais segura, longe de parte da movimentação. Quando recebi a orientação para acompanhá-los, peguei minha bolsa e fui com o grupo.

Não queria chamar atenção.

Também não pretendia me afastar das pessoas que poderiam testemunhar que eu estava apenas tentando sair de uma situação perigosa.

Caminhei com a cabeça erguida, embora minhas pernas estivessem tremendo.

Ao chegar à entrada da comunidade, encontrei meu chefe entre os jornalistas que acompanhavam a operação.

Ele me viu e fez um pequeno sinal com a cabeça.

Respondi da mesma maneira.

Não era hora de conversar, e nós dois sabíamos disso. Qualquer movimento precipitado poderia levantar suspeitas ou atrapalhar o trabalho das equipes que estavam no local.

Permaneci junto aos outros moradores, segurando a alça da bolsa com força.

Eu estava fora da casa, mas isso não significava que o perigo tivesse passado.

O som dos disparos parecia aumentar a cada minuto.

As explosões ecoavam pelas ruas, e as pessoas se encolhiam sempre que um barulho mais forte rompia o ar. Os profissionais da imprensa tentavam acompanhar as informações que chegavam, enquanto as autoridades mantinham o acesso controlado.

Eu procurava observar sem me aproximar demais.

Como jornalista, queria entender o que estava acontecendo. Como pessoa, só desejava que aquela noite terminasse sem que mais ninguém se machucasse.

Então, um estrondo muito mais forte do que os anteriores sacudiu o ambiente.

Virei o rosto na direção da comunidade.

Um clarão havia iluminado parte da região, seguido por uma nuvem de fumaça. Pelas reações das pessoas ao meu redor, alguma coisa grave acabara de acontecer.

As vozes se misturaram.

Alguns gritavam, outros tentavam descobrir de onde vinha a explosão. Um dos jornalistas recebeu uma informação pelo telefone e começou a conversar rapidamente com os colegas.

Ouvi comentários de que um veículo blindado havia sido atingido.

Não consegui confirmar imediatamente os detalhes, mas a reação das equipes deixou claro que a situação havia piorado.

O cenário parecia ter saído de uma zona de guerra.

A fumaça se espalhava, o fogo podia ser visto em alguns pontos próximos à vegetação e o som das sirenes se misturava ao barulho dos disparos. A movimentação nas áreas mais altas estava cada vez mais difícil de acompanhar.

Eu mal conseguia acreditar que, poucas horas antes, estava sentada em uma lanchonete tentando fingir que não havia percebido a presença de Lúcifer.

Agora, observava uma operação de grandes proporções, sem saber quantas pessoas estavam feridas ou se haveria novas explosões.

Apertei a bolsa contra o corpo.

Era naquele momento que eu precisava me lembrar de que não poderia deixar a curiosidade falar mais alto do que a prudência.

Uma reportagem poderia esperar.

Uma vida, não.

Ainda assim, meus olhos continuavam procurando respostas.

Foi quando olhei para uma das construções mais altas da comunidade e o vi.

Lúcifer estava sobre uma laje, observando a movimentação.

Mesmo à distância, reconheci sua postura. Ele parecia acompanhar cada mudança no cenário, atento aos homens que circulavam ao redor e às informações que recebia.

Mas havia algo naquela imagem que me causou um desconforto ainda maior.

Ele estava sorrindo.

Não consegui entender o motivo. Talvez fosse uma expressão de confiança, talvez estivesse reagindo a alguma informação que eu desconhecia. Não tinha como saber o que se passava na cabeça daquele homem.

Mas, diante do cenário de fumaça, gritos e correria, aquele sorriso me pareceu assustador.

Por um instante, lembrei-me dos relatos que havia lido sobre ele. Das histórias sobre sua reputação e das pessoas que o consideravam alguém capaz de ultrapassar qualquer limite para manter o controle.

Será que tudo aquilo era verdade?

Ou eu estava começando a enxergar o mundo através dos olhos de quem tinha medo dele?

Não havia tempo para descobrir.

Perto dali, vi policiais sendo retirados de uma área de confronto e conduzidos para um ponto de atendimento. Alguns precisavam de ajuda para caminhar. Outros estavam sendo carregados pelos colegas.

Meu estômago se contraiu.

A poucos metros de onde eu estava, o comandante da operação recebeu a notícia sobre os policiais mortos no beco. Não consegui ouvir todos os detalhes, mas a mudança em sua expressão foi imediata.

A dor deu lugar à indignação.

Ele começou a falar com outros oficiais, e a movimentação ao redor se intensificou. Pouco depois, ouvi comentários de que o comando havia solicitado apoio adicional, inclusive do Exército.

Fechei os olhos por um breve instante.

Aquilo não terminaria tão cedo.

E, se as forças envolvidas continuassem aumentando, ninguém poderia prever como aquela noite acabaria.

Olhei novamente para a comunidade. A fumaça ainda subia em alguns pontos, as sirenes continuavam ecoando e o medo parecia ter tomado conta de todos.

Eu queria registrar tudo aquilo, documentar os acontecimentos e descobrir o que realmente estava por trás daquela violência.

Mas também queria ir embora.

Pela primeira vez desde que recebera a missão, considerei seriamente abandonar a investigação.

Talvez eu pudesse escrever sobre o que havia testemunhado até ali, sem precisar voltar para aquela casa. Talvez existissem outras maneiras de conquistar minha efetivação sem colocar minha vida em risco.

Eu não sabia.

Só tinha certeza de que não queria terminar aquela reportagem em um hospital, muito menos me tornar mais uma vítima daquela noite.

Procurei meu chefe entre os jornalistas. Ele conversava com outros profissionais, atento às informações que chegavam, e parecia tão preocupado quanto eu.

Apertei a alça da bolsa e respirei fundo.

Eu havia entrado naquela comunidade para conseguir uma grande matéria.

Consegui imagens, informações e uma visão muito mais próxima da realidade que pretendia investigar.

Mas também havia descoberto algo que não aparecia nas minhas anotações.

O medo era real.

O perigo era real.

E Lúcifer não era apenas um nome cercado por histórias assustadoras. Era um homem que exercia influência sobre aquele território e que, por alguma razão, já havia começado a prestar atenção em mim.

Se ele descobrisse o que eu estava fazendo, minha reportagem poderia se transformar no menor dos meus problemas.

Olhei uma última vez para a laje onde o tinha visto.

Ele já não estava lá.

Meu coração acelerou.

Eu não sabia para onde ele havia ido, o que faria em seguida ou se já desconfiava das minhas intenções.

Só sabia que precisava ter muito mais cuidado dali em diante.

Porque, naquela noite, minha investigação havia deixado de ser apenas uma oportunidade profissional.

Agora, era uma questão de sobrevivência.

E eu ainda não sabia se teria coragem de voltar para terminar o que havia começado.

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