Capítulo 4 O PREÇO DO SUCESSO

Mia narrando

Mais de uma semana havia se passado desde o confronto, e eu continuava sem coragem de voltar à comunidade.

Na verdade, coragem até poderia existir, mas bom senso era outra história. Eu tinha visto o suficiente para entender que não precisava me colocar novamente em uma situação daquelas só para provar que era capaz de enfrentar qualquer desafio.

E, sinceramente, eu já havia conseguido o que queria.

Alguns dias depois da operação, voltei à casa que tinha alugado apenas para buscar minhas roupas e os poucos pertences que havia deixado para trás. Não demorei muito. Peguei tudo o que era meu, conferi os cômodos e saí com a firme decisão de nunca mais colocar os pés naquele lugar.

Pelo menos, era o que eu pretendia fazer.

Desde aquela noite, carregava uma sensação ruim, como se o perigo ainda estivesse rondando meus passos. Eu sabia que podia estar exagerando, mas não conseguia ignorar a lembrança de Lúcifer entrando na minha casa, fazendo perguntas e me observando como se tentasse descobrir alguma coisa.

Aquele homem tinha um olhar capaz de deixar qualquer pessoa desconfortável.

E eu não queria descobrir o que aconteceria se ele soubesse que eu havia registrado parte de sua atuação durante a invasão.

A reportagem estava pronta.

Fotografias, vídeos, áudios e anotações haviam sido organizados com cuidado. Revisei cada detalhe, conferi as informações e entreguei o material à equipe responsável pela edição.

Eu sabia que precisava ter responsabilidade com aquilo que publicaria. Uma coisa era apresentar fatos de interesse público; outra era divulgar informações sem confirmação. Por isso, os materiais que exigiam verificação adicional foram encaminhados para análise antes de serem utilizados.

Parte dos registros também foi enviada para avaliação pericial, pois poderia contribuir com as investigações em andamento.

Pelo que me explicaram, havia diversos procedimentos envolvendo o homem que eu investigara, mas, até aquele momento, as autoridades ainda não tinham conseguido prendê-lo.

Aquilo não me surpreendia.

Pelo pouco que havia observado, Lúcifer parecia conhecer muito bem o território onde atuava e as pessoas ao seu redor. Era um homem difícil de compreender, e eu não tinha a menor intenção de me aproximar novamente para tentar descobrir seus segredos.

Quanto mais longe ele estivesse de mim, melhor.

Mas havia uma notícia que tornava tudo ainda mais especial: eu tinha sido efetivada antes mesmo de a reportagem ir ao ar!

Sim, você leu certo.

Eu, Mia, a garota que passou anos equilibrando trabalho, faculdade e os problemas de uma família que parecia ter perdido completamente o rumo, finalmente havia conseguido uma oportunidade de verdade.

Quando meu chefe me chamou para conversar e comunicou a decisão, precisei fazer um esforço enorme para não começar a pular de felicidade dentro da sala.

Eu tinha conseguido!

Meu emprego deixaria de ser temporário. Agora, eu teria a oportunidade de trabalhar em tempo integral, aprender ainda mais e construir a carreira com que sonhava desde a adolescência.

Pensei em todas as noites em que cheguei em casa cansada, nas vezes em que precisei estudar mesmo sem conseguir me concentrar e nos momentos em que quase desisti da faculdade.

Se eu tivesse abandonado tudo naquela época, talvez não estivesse vivendo aquele momento.

Era impossível não me emocionar.

Por outro lado, sabia que algumas pessoas poderiam considerar minha conquista fácil demais. Afinal, eu era uma estagiária recém-formada e, de repente, estava prestes a assinar uma reportagem de grande repercussão.

Mas fácil?

Fácil era uma palavra que não combinava nem um pouco com a minha experiência.

Eu havia entrado naquele lugar com medo, passado por uma operação policial e me visto no meio de uma situação que poderia ter terminado muito mal. Tive que controlar o nervosismo, observar cada detalhe e pensar rapidamente para não me colocar em ainda mais perigo.

Se alguém achasse que eu não merecia aquela oportunidade, poderia tentar fazer o mesmo no meu lugar.

Só não esperasse que eu aceitasse críticas de quem não sabia o que havia enfrentado.

Eu conhecia o preço daquela conquista.

E ninguém tiraria de mim o orgulho de ter chegado até ali.

A reportagem seria publicada naquela noite.

Eu sabia que o material tinha potencial para chamar a atenção, mas não imaginava a dimensão que aquilo poderia alcançar.

Desde o início do expediente, eu não conseguia ficar quieta.

Batucava os dedos na mesa, conferia o relógio, abria a página do jornal e atualizava a tela repetidas vezes. Meu computador estava diante de mim, e eu já tinha revisado o texto tantas vezes que provavelmente conseguiria recitá-lo de memória.

Ainda assim, precisava conferir tudo novamente.

Será que tinham alterado alguma frase?

Será que a edição havia cortado alguma informação importante?

Será que meu nome apareceria em algum lugar além do necessário?

Essa última preocupação era, sem dúvida, a mais importante.

Eu havia pedido que minha identificação fosse limitada ao crédito profissional, sem divulgar imagens minhas ou outros detalhes pessoais que pudessem facilitar minha localização.

Não queria chamar a atenção de Lúcifer.

Se ele descobrisse que eu era a responsável pela reportagem, não fazia ideia de como reagiria.

E eu preferia continuar sem saber.

Os minutos pareciam não passar.

Olhei para o relógio.

Depois, para a tela.

Atualizei a página novamente.

Nada.

— Meu Deus, será que esse relógio está quebrado? — murmurei.

Uma colega que trabalhava na mesa ao lado riu.

— Mia, você já perguntou isso umas três vezes.

— Porque parece que o tempo parou!

— A matéria vai entrar no ar. Respira.

Respirar era fácil para quem não tinha passado os últimos dias imaginando todas as possibilidades de dar errado.

Eu me recostei na cadeira, tentei relaxar os ombros e contei mentalmente até dez.

Quando voltei a olhar para a tela, finalmente havia uma atualização.

A reportagem estava publicada.

Meu coração acelerou de uma maneira tão absurda que precisei colocar as mãos sobre a mesa para me conter.

Cliquei no link e comecei a ler.

Palavra por palavra.

Parágrafo por parágrafo.

Conferi o título, a introdução, as informações sobre a operação, os relatos reunidos e os registros que haviam sido autorizados para publicação.

Tudo estava como havíamos combinado.

Meu nome aparecia no final, no crédito da matéria.

Não havia nenhuma fotografia minha.

Soltei um suspiro tão profundo que minha colega voltou a olhar para mim.

— Saiu? — perguntou.

Virei a tela um pouco na direção dela.

— Saiu!

Ela sorriu, e eu não consegui segurar a felicidade.

A reportagem estava no ar.

Eu havia conseguido.

Por alguns segundos, esqueci completamente o medo, a insegurança e as noites mal dormidas. Tudo o que conseguia sentir era orgulho.

Aquela era a minha primeira grande matéria como jornalista efetivada.

A primeira de muitas, eu esperava.

Só que, mesmo enquanto comemorava, uma pequena parte da minha mente continuava preocupada com o que poderia acontecer depois da publicação.

A investigação envolvia pessoas perigosas, e eu não sabia se a divulgação daqueles registros provocaria alguma reação.

Fechei a página e tentei afastar o pensamento.

Não adiantava sofrer antecipadamente.

Eu havia feito meu trabalho, seguido os procedimentos da redação e entregado as informações para análise. Agora, cabia às autoridades investigar os fatos e tomar as medidas necessárias.

Eu precisava seguir em frente.

E foi exatamente isso que fiz.

Na manhã seguinte, descobri que a repercussão havia sido muito maior do que eu imaginava.

Meu celular não parava de receber notificações, os colegas comentavam a reportagem pelos corredores e os programas de televisão começaram a repercutir as informações divulgadas pelo jornal.

Minha matéria estava circulando por toda parte.

Era estranho ouvir outras pessoas discutindo um trabalho que, até poucos dias antes, existia apenas nas minhas anotações e no computador.

O mais impressionante eram os elogios.

Alguns profissionais destacavam a riqueza de detalhes, a organização das informações e a importância dos registros apresentados. Outros comentavam a coragem necessária para investigar uma situação tão delicada.

Eu tentava manter a postura profissional, mas, por dentro, estava radiante.

Não era todos os dias que uma jornalista recém-formada recebia aquele tipo de reconhecimento.

Meu chefe me parabenizou durante uma reunião e destacou que eu havia demonstrado iniciativa, dedicação e capacidade de trabalhar sob pressão.

Ouvir aquilo de alguém que, até pouco tempo antes, ainda avaliava se eu estava preparada para assumir uma vaga fixa foi uma sensação indescritível.

Eu tinha muito a aprender, claro.

Mas agora teria a oportunidade de fazer isso dentro da profissão que escolhera.

E ninguém poderia imaginar o quanto aquele momento significava para mim.

Depois da reunião, voltei à minha mesa e comecei a acompanhar as novas informações relacionadas ao caso.

Foi quando encontrei uma fotografia de Lúcifer que havia sido divulgada junto a outros registros sobre ele.

Parei imediatamente.

Ah, não.

Não era possível.

Ampliei a imagem.

Olhei novamente.

Depois, aproximei o rosto da tela, como se isso fosse ajudar a acreditar no que estava vendo.

O homem era bonito.

Bonito de um jeito irritante.

Na fotografia, ele aparecia sem camisa, exibindo o abdômen definido e as inúmeras tatuagens que cobriam boa parte do corpo. A expressão continuava fechada, e o olhar transmitia aquela mesma intensidade que eu lembrava da noite em que ele entrou na minha casa.

Fiquei alguns segundos encarando a imagem.

Depois, balancei a cabeça.

— Não, Mia. Tenha juízo.

Olhei ao redor para ter certeza de que ninguém estava prestando atenção.

Ainda bem.

Porque a verdade era que, se eu tivesse conhecido aquele homem em outra circunstância, talvez minha reação fosse completamente diferente.

Não vou mentir para vocês.

O sujeito era um gato.

Um gato muito perigoso, com uma reputação assustadora e uma coleção de problemas que provavelmente daria trabalho para uma vida inteira.

Mas continuava sendo um gato.

E eu não estava morta.

— Se eu tivesse conhecido você em outra situação... — murmurei para a tela, antes de perceber o absurdo que estava fazendo.

Afastei a cadeira e cobri o rosto com as mãos.

Eu estava flertando mentalmente com o homem que havia acabado de investigar!

Precisava urgentemente de férias.

Ou de terapia.

Talvez dos dois.

Não que eu estivesse apaixonada. Pelo amor de Deus, eu mal conhecia aquele homem! O que existia era uma atração física que eu podia reconhecer sem precisar transformar aquilo em uma história de amor.

Afinal, eu não era de ferro.

Mas uma coisa era admitir que ele era bonito.

Outra, completamente diferente, era me aproximar dele e descobrir se os rumores sobre sua personalidade correspondiam à realidade.

Eu não era louca.

Pelo menos, não tanto.

Se Lúcifer descobrisse que eu havia produzido aquela reportagem, minha aparência provavelmente seria a última coisa em que eu pensaria.

E, considerando a maneira como ele me observou naquela noite, não duvidava de que pudesse reconhecer meu rosto.

Fechei a fotografia imediatamente.

Pronto.

Assunto encerrado.

Eu estava trabalhando, tinha conquistado minha vaga e finalmente começava a construir a vida que sempre quis.

Não precisava de um homem complicado para estragar tudo.

Muito menos daquele homem.

Os dias seguintes foram movimentados.

Passei a trabalhar em tempo integral, participei de reuniões, acompanhei novas pautas e comecei a receber tarefas que antes eram destinadas apenas aos jornalistas efetivados.

Eu estava feliz.

Pela primeira vez em muito tempo, conseguia olhar para o futuro sem sentir que tudo poderia desmoronar a qualquer instante.

Ainda tinha problemas familiares para resolver, contas para pagar e muitas responsabilidades, mas agora possuía uma estabilidade profissional que me permitia planejar os próximos passos com mais tranquilidade.

Era só o começo.

Eu sabia disso.

Queria me tornar uma jornalista respeitada, produzir reportagens importantes e mostrar que meu trabalho não dependia de sorte, mas de dedicação e competência.

A matéria sobre a comunidade tinha sido uma oportunidade extraordinária, porém eu não queria ser lembrada apenas por ela.

Havia muitas outras histórias que mereciam ser contadas.

E eu pretendia encontrá-las.

Quanto a Lúcifer, decidi que ele ficaria no passado.

Eu não voltaria àquela comunidade, não tentaria entrevistá-lo novamente e, se pudesse escolher, nunca mais cruzaria o caminho daquele homem.

Talvez fosse exagero.

Talvez o medo estivesse falando mais alto.

Mas, naquele momento, eu não queria testar os limites da minha sorte.

Guardei meus pertences, organizei a rotina e me concentrei no trabalho.

A vida estava seguindo.

E eu seguia com ela.

Meu sonho estava se realizando.

Eu tinha um emprego, uma carreira pela frente e a possibilidade de construir um futuro diferente daquele que conheci durante a adolescência.

Pela primeira vez, sentia que estava no lugar certo.

Só havia um pequeno detalhe que eu preferia ignorar.

Sempre que me lembrava daquele olhar intenso e da expressão convencida de Lúcifer, meu coração parecia bater um pouquinho mais depressa.

Mas isso não significava nada.

Absolutamente nada.

Eu não voltaria para aquele lugar.

Não procuraria aquele homem.

E, se o destino tivesse um mínimo de consideração por mim, nós nunca mais nos encontraríamos.

Era o que eu desejava.

O que eu precisava.

E, principalmente, o que eu acreditava que aconteceria.

Mal sabia eu que algumas histórias não terminam quando fechamos uma porta.

Às vezes, é justamente quando acreditamos ter escapado de um problema que a vida encontra uma maneira de nos colocar novamente diante dele.

E eu ainda descobriria que, por mais que tentasse manter Lúcifer longe dos meus pensamentos, aquela reportagem poderia ter consequências muito maiores do que a minha efetivação.

Mas, por enquanto, eu só queria comemorar.

Eu tinha conseguido.

E ninguém tiraria de mim aquela conquista.

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