Capítulo 1
Vésper
As ruas encharcadas de néon de Las Vegas viravam rastros de cor elétrica enquanto eu girava o acelerador, minha moto rugindo debaixo de mim como se fosse um ser vivo. O vento chicoteava meus cabelos cor de esmeralda, e as fichas antigas de fliperama entrelaçadas nas mechas tilintavam num ritmo que acompanhava meu pulso disparado. Minha jaqueta jeans — com constelações pintadas à mão e fichas de cassino roubadas costuradas no tecido como insígnias de honra — batia atrás de mim enquanto eu cortava a noite.
Eu amava esta cidade à noite. Amava como ela se transformava de uma gaiola dourada de decoro diurno em algo bruto e verdadeiro assim que o sol se punha. Mas, agora, depois de doze horas seguidas de trabalho, eu amava ainda mais a promessa de uma bebida gelada e um corpo quente.
Os distritos superiores passaram primeiro num borrão — aquelas ruas impecáveis onde o dinheiro velho dos vampiros e a elite política humana mantinham suas mansões atrás de portões que custavam mais do que a maioria das pessoas ganhava em uma vida inteira. O mundo deles, de fontes de champanhe e lustres de diamantes de sangue, não me interessava. Eu já tinha roubado de gente suficiente dali para saber que aquela riqueza era só mais um tipo de prisão.
Vieram então os distritos médios, onde lobisomens bem-sucedidos comandavam empresas de segurança e consultores bruxos viviam em condomínios confortáveis, seguindo as regras da sociedade em troca da sua fatia do bolo. Eles tinham trocado a selvageria por estabilidade, e eu não conseguia decidir se isso fazia deles espertos ou tristes. Provavelmente os dois.
Por fim, as ruas se estreitaram e os prédios ficaram mais honestos na própria decadência. Ali, nos cantos esquecidos onde o aluguel era barato e as perguntas eram ainda mais baratas, era onde eu pertencia. O Moonlit Menagerie ficava enfiado entre uma casa de penhores e uma lavanderia fechada, com a entrada elevada alguns degraus acima do nível da rua, como se fosse bom demais para a sarjeta — mesmo morando nela.
Um sorriso se espalhou pelo meu rosto quando a placa de néon familiar do bar entrou no meu campo de visão. Meu trabalho diurno — se é que dava para chamar de trabalho uma série de aquisições altamente ilegais — finalmente tinha acabado. Agora a diversão de verdade podia começar.
Acelerei o motor uma vez, duas; a vibração zumbia nos meus ossos como uma promessa. A entrada elevada praticamente me desafiava a fazer alguma idiotice, e eu nunca fui boa em resistir a desafios. Apontei a moto para os degraus, empinei e me lancei para cima. Por um momento perfeito, sem peso, eu fiquei no ar — então os pneus bateram de volta no chão com um baque delicioso que fez meus dentes tremerem.
Vi um espaço vazio entre uma caminhonete enferrujada e um cupê laranja berrante que gritava “crise de meia-idade”. A maioria das pessoas teria desacelerado, manobrado com cuidado até se posicionar, talvez até usasse os freios como adultos responsáveis.
Eu não era a maioria das pessoas.
Girei o guidão com força para a direita e joguei o corpo inteiro na curva, fazendo a moto entrar numa derrapagem violenta. Porque por que diabos não? Derrapar funcionava tão bem quanto frear — melhor, até, com o bônus de ficar com cara de fodona.
Os pneus guincharam no asfalto, deixando marcas pretas grossas enquanto a fumaça se erguia ao meu redor. A moto deslizou de lado na direção da vaga vazia, e eu calculei tudo perfeitamente — saltando no meio da derrapagem, minha bota pesada chutando o descanso lateral para baixo num único movimento suave enquanto eu aterrissava agachada.
Perfeito.
Ia ser perfeito. Eu sentia isso.
Estalei os dedos sem nem olhar para trás, aquele formigamento delicioso de magia feérica ondulando pelo ar. O motor morreu. As chaves voaram da ignição. Peguei-as com uma mão só, já me virando para a entrada do bar com um sorriso satisfeito no rosto.
Minha telecinese estava ficando muito melhor. Logo eu seria capaz de—
CRASH.
O som de metal contra metal estilhaçou minha autocomplacência. Fechei os olhos, já sabendo o que eu encontraria quando me virasse. E, de fato, minha moto tinha derivado só o suficiente — impulso demais, pelo visto — para dar um “beijo” no para-choque daquele cupê cafona. Bem, “beijo” era generosidade. Mais parecia que tinha agarrado e se atracado com ele.
— PORRA! Que pedaço de merda sem cérebro foi que bateu no meu carro?
A voz que veio em seguida era exatamente o que eu esperava — testosterona pura embrulhada num terno caro. Virei devagar, mantendo a expressão neutra enquanto avaliava um homem que claramente achava que o carro dele era um traço de personalidade. Porte de rato de academia, terno sob medida esticando em músculos que gritavam insegurança, o rosto já ficando num tom impressionante de roxo.
— Ei! É, VOCÊ! Para aí mesmo!
Levantei uma mão num aceno preguiçoso, a minha versão de um pedido de desculpas, mas meus pés continuaram me levando em direção à entrada do bar. Eu tinha exatamente zero interesse em passar a noite lidando com isso.
— Você só pode estar de sacanagem! — a voz dele ficou mais aguda, incredulidade misturada com indignação. — Traz essa sua bunda de volta aqui e resolve isso! Vamos chamar o seguro, ou a polícia, ou… você pelo menos TEM seguro? Porque você com certeza não tem dinheiro pra pagar meu Levante!
Parei na entrada do bar, com uma mão já na porta. O mais esperto seria ignorar completamente, mas eu nunca fui exatamente esperto quando se tratava de resistir à vontade de ser um pouquinho babaca. Olhei por cima do ombro, deixando um sorriso brincar no canto da boca.
— É o seguinte — gritei de volta, com aquele tipo específico de indiferença casual que eu sabia que ia enfurecer ele ainda mais. — Talvez você não saiba isso sobre mim, mas oito da noite é quando a minha vida de verdade começa. Tudo antes disso? Só sobrevivência. Então, infelizmente, não tenho tempo pra ficar parado aqui brincando de perito de seguradora com você.
O rosto dele foi do roxo para um quase carmim. Eu praticamente conseguia ver fumaça saindo das orelhas quando ele começou a marchar na minha direção. Antes que ele diminuísse a distância, enfiei a mão no bolso da jaqueta e puxei o Patek que eu tinha “libertado” do gabinete do prefeito naquela manhã. Os diamantes pegaram a luz neon, espalhando fragmentos de arco-íris pelo asfalto enquanto eu jogava para ele num arco perfeito.
Ele pegou por instinto, a raiva momentaneamente descarrilada pela confusão.
— Mas que por—
— Não seja tão dramático — eu disse, já me virando de volta para a porta. — Eu não disse que não ia cobrir o estrago. Isso aí deve dar e sobrar.
Observei a cara dele quando ele finalmente olhou para o que estava segurando. A confusão virou descrença, depois uma desconfiança tão densa que dava pra cortar com faca.
— Porra… isso é… esses diamantes são de verdade? Isso é um Patek Philippe Nautilus? — os olhos dele voltaram pra mim num estalo, se estreitando. — Isso tem que ser falso. Isso vale mais do que o meu carro! EI! Volta aqui!
