Capítulo 3

Vesper

A pergunta me atingiu como um tapa, inesperada e cortante o bastante para atravessar a névoa do álcool. Por um segundo — só um segundo — senti alguma coisa estalar no meu peito, uma ferida antiga ameaçando se abrir. Então eu ri, porque o que mais eu podia fazer? O som saiu mais áspero do que eu pretendia, mas eu não conseguia parar.

— Claro que esse é o meu plano — eu disse, e odiei o quanto soei na defensiva. Tomei mais um gole, comprando tempo para colocar minha voz sob controle. — É nisso que eu sou boa, Lyra. É isso que tem me mantido viva.

As lembranças tentaram vir à tona — eu com cinco anos e tanta fome que comi comida de uma lixeira; eu com sete, aprendendo que minhas habilidades feéricas podiam me ajudar a pegar o que eu precisava; eu com dez, percebendo que meus pais não iam voltar e que ninguém ia me salvar. Empurrei tudo para baixo com força, enterrei sob anos de prática e um sorriso que não chegava direito aos olhos.

— Além disso — continuei, gesticulando ao redor do bar com o copo —, qual é a alternativa? A gente vive num mundo em que dinheiro é a única coisa que importa. Você sabe disso. Eu sei disso. Todo mundo neste bar sabe disso. — Apontei para as dançarinas do pole, para os metamorfos lindos e poderosos vendendo o próprio corpo por gorjetas. — Olha pra eles. Lobisomens — predadores de topo, fortes o bastante para rasgar uma pessoa ao meio — e estão trabalhando como seguranças, carregadores, strippers. Porque é isso que este mundo faz com a gente. A gente usa o que tem, ou morre de fome.

— Mas, Vesper…

Inclinei-me para a frente, cortando-a, minha voz baixando para algo afiado, desafiador.

— E não ache que eu não percebi seu negocinho por fora, Lyra. Essas “consultas privadas” que você faz na salinha dos fundos? Os serviços de quebra de maldição que você anuncia na dark web? Isso tudo é perfeitamente legal, né?

O rosto dela corou, uma mistura de vergonha e desafio pintando as bochechas.

— Isso é diferente…

— Não é diferente em nada. — Recostei, mais suave agora, porque eu não estava tentando machucá-la — só fazê-la entender. — Nós somos sobrenaturais num mundo comandado por humanos que fizeram as regras. A gente usa nossos dons para sobreviver, para prosperar se tiver sorte. Isso não é errado. Isso é só a realidade. — Ergui meu copo num brinde de deboche. — Nesta cidade, neste mundo, o dinheiro é o único deus que importa. Todo o resto é detalhe.

Lyra abriu a boca, claramente pronta para discutir mais, mas um movimento no canto da minha visão me fez virar. Um homem se aproximava da nossa mesa — alto, de ombros largos, se movendo com aquela graça líquida particular que o denunciava como metamorfo antes mesmo de chegar perto. O cheiro me atingiu um segundo depois: sálvia selvagem e alguma coisa animal, uma coisa que fez meu cérebro primitivo se pôr em alerta.

Lobisomem. Alfa, a julgar pela confiança controlada em vez daquela dominância esmagadora de alfa, mas puta que pariu, ele era a própria tentação embrulhada em jeans.

Ele era lindo daquele jeito rústico e perigoso — maçãs do rosto marcadas, olhos escuros, um sorriso que prometia problema. Meu corpo reagiu antes de o meu cérebro acompanhar, um calor baixo se acumulando no meu ventre enquanto eu reparava no jeito como a camisa esticava sobre o peito dele. Porra. Fazia tempo demais desde que eu tinha um lobo desse nível na minha cama, e aparentemente meu corpo tinha opiniões bem claras sobre essa seca.

— Ora, ora — disse ele, a voz num ronronar baixo que eu senti no corpo inteiro. — As duas mulheres mais bonitas do bar, sentadas na mesma mesa. Deve ser minha noite de sorte. — Puxou a cadeira vazia, girou-a e se sentou de frente para o encosto num único movimento suave. — Deixem eu pagar mais uma rodada pra vocês, lindas.

Antes que eu pudesse lançar para Lyra o sinal universal de “é meu”, ela já estava sorrindo pra mim como se tivesse acabado de me ver lamber o cara mentalmente da cabeça aos pés — o que, justo, eu basicamente tinha feito.

— Ah! — Lyra se levantou, jogando a bolsa no ombro com uma graça exagerada. — Isso é generosidade demais, bonitão. Eu adoraria ficar, mas... ah, aquela é minha amiga? — Ela acenou de um jeito vago para a multidão. — Vocês dois se divirtam. — Os olhos dela deslizaram até o lobisomem, e o sorriso ficou perverso. — Só um aviso: ela dá trabalho quando já bebeu um pouco.

Eu lancei um olhar que prometia vingança mais tarde, mas não consegui apagar o sorriso.

Lyra se inclinou ao passar, a respiração quente no meu ouvido.

— Você me deve. Amanhã — todos os detalhes.

E então ela sumiu, me deixando sozinha com confusão numa embalagem bem atraente.

O lobisomem acompanhou ela com o olhar, um canto da boca se erguendo.

— Ela é figura — disse, com algo como uma apreciação genuína no tom. Aí voltou toda a atenção para mim. — Eu sou Kael. E antes que você pergunte... sim, eu reparei no sangue feérico. Com essa iluminação, seu cabelo tá quase brilhando. Linhagem feérica pura, né?

— Meio-fada — corrigi, dando um gole na minha bebida. — Pra ser exata.

O sorriso dele vacilou só por uma fração de segundo, antes de se recompor.

— Bom, vou ser sincero... eu quase não notei a diferença.

Soltei uma risadinha curta, daquelas sem humor nenhum.

Ele pigarreou e se inclinou para a frente, com um entusiasmo renovado.

— Olha, meio ou puro... não faz diferença pra mim. Nós dois somos sobrenaturais, não somos? Os dois navegando o mesmo mundo que não foi feito pra gente. Os dois lidando com humanos que acham que mandam em tudo. — A voz dele baixou, tentando soar íntima. — Parece que teríamos muita coisa em comum. Muita coisa pra conversar.

Eu apoiei o copo na mesa e encarei os olhos dele.

— Então deixa eu adivinhar... agora você vai me dizer que a gente divide as mesmas dificuldades? Que a gente se entende de um jeito que humanos nunca entenderiam? Que tem tantas histórias que a gente poderia trocar sobre ser diferente?

Ele piscou, claramente tirado do próprio roteiro.

Eu me recostei, vendo ele se atrapalhar procurando uma resposta. A confusão nos olhos dele era quase divertida — ele foi de confiante a completamente inseguro em, o quê, dez segundos.

Então eu sorri. Devagar. De propósito.

— Bom — eu disse, deixando um toque de diversão colorir minha voz —, não desiste tão fácil. Eu nunca disse que não queria ouvir suas histórias.

Eu me inclinei, perto o bastante para ele provavelmente conseguir contar minhas batidas do coração.

— É só que o tipo de troca que eu tenho em mente exige um lugar mais... íntimo. Um lugar onde a gente possa baixar a guarda e mostrar um ao outro o que tem de verdade por baixo.

A expressão dele mudou — a confusão cedendo lugar ao entendimento, e depois a algo mais sombrio e muito mais interessado. Aquele sorriso predatório se espalhou devagar pelo rosto, puro calor e promessa.

— Porra — ele disse, a voz mais áspera agora, os olhos presos nos meus.

— Acho que eu já tô começando a gostar de você.

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