Capítulo 4
Vesper
O ar da noite me acertou como um tapa quando Kael e eu saímos do Moonlit Menagerie, a mão dele quente e possessiva na curva da minha lombar. O estacionamento se estendia à nossa frente, mal iluminado e meio vazio, o tipo de lugar onde decisões ruins aconteciam e ninguém fazia perguntas. Perfeito.
— Meu carro tá logo ali… — Kael começou, mas as palavras dele morreram de repente.
Gritos. Empurra-empurra. O som inconfundível de alguém sendo prensado contra metal.
Eu me virei na direção da confusão, meus instintos feéricos pinicando de curiosidade, e o que vi me fez parar, cravada no chão. Três policiais tinham alguém imobilizado contra o capô de uma viatura, o paletó caro do homem subindo enquanto eles torciam os braços dele para trás.
— Isso é sério? — um dos policiais dizia, a voz ecoando pelo estacionamento. — Tá de sacanagem?
— Não é meu! — A voz do homem quebrou de desespero, aguda e em pânico de um jeito que teria sido engraçado se não fosse tão patético. — Eu juro por Deus, eu não roubei nada! Eu não—
— Guarda pra você — rosnou outro policial, puxando os pulsos do homem para juntá-los com mais força do que o necessário. — Pegamos em flagrante com o Patek do prefeito e você quer que a gente acredite que é inocente? A gente tem cara de idiota?
Eu me aproximei, atraída pelo espetáculo como mariposa pela chama, e foi aí que vi bem o rosto do homem. O reconhecimento me atingiu como um soco, seguido imediatamente por uma onda de diversão sombria que borbulhou no meu peito como champanhe.
O cara da Maserati. Ainda aqui. Ainda com as minhas coisas roubadas.
Um sorriso se espalhou pelo meu rosto, lento e perverso. Meu Deus, o universo realmente tinha senso de humor.
O homem ainda se debatia, ainda protestava inocência com aquela energia desesperada que deixava claro que ele sabia que estava ferrado. — Vocês não entendem… eu tava esperando meu amigo vir avaliar! Eu não sabia que era de verdade! Alguém me deu isso—
— Aham, aham, a gente já ouviu essa antes. — O primeiro policial agora tirava algemas, o metal brilhando sob os postes. — Anda. Vamos. Você explica tudo pro juiz.
Foi quando ele me viu.
Nossos olhos se encontraram do outro lado do estacionamento, e eu vi o reconhecimento desabrochar no rosto dele, seguido por algo que parecia quase esperança. A luta dele se intensificou, e ele se retorceu contra a pressão dos policiais, tentando apontar para mim com o queixo.
— Espera! — A voz dele subiu uma oitava, o desespero deixando-o quase histérico. — Espera, espera, senhores, por favor! Eu posso explicar… a verdadeira ladra tá ali! Ali! É ela!
Os três policiais viraram para me olhar. Senti Kael enrijecer ao meu lado, a mão dele saindo das minhas costas, mas eu só fiquei ali, encarando-os com olhos bem abertos e inocentes.
— Ela bateu no meu carro! — O cara da Maserati praticamente gritava agora, tensionando as algemas. — Ela me deu o relógio como compensação! Eu não sabia que era roubado… eu só tava esperando avaliar! Eu juro, eu não—
Um dos policiais me examinou de cima a baixo, reparando na minha jaqueta de couro, no meu cabelo verde-esmeralda, no meu um metro e cinquenta e poucos. Depois virou de volta para o homem com algo parecido com nojo no rosto.
— Você tá me dizendo — ele falou, a voz pingando desprezo — que essa garota… esse negocinho minúsculo… invadiu o gabinete do prefeito e roubou o Patek dele?
— Sim! Quer dizer… eu não sei como ela fez, mas—
— E aí — continuou o policial, falando por cima dele — depois de roubar um relógio que vale mais do que a maioria das pessoas ganha num ano, ela simplesmente… te deu. Como compensação por uma batidinha?
A boca do homem abriu e fechou, sem som nenhum saindo. Eu vi o exato instante em que ele percebeu o quão insano aquilo soava, o quão completamente inacreditável era a história dele. O rosto foi do vermelho ao branco e ao vermelho de novo.
— Isso… — ele começou, e parou. — Eu… é que…
—Exato. —O policial balançou a cabeça, enojado. —Vamos. Anda. Já perdemos tempo demais com essa merda.
—Porra —sussurrou o homem, os ombros caindo, derrotado, enquanto começavam a arrastá-lo até a viatura. —Que sorte do caralho.
Dei um passo à frente, fazendo questão de encontrar o olhar dele enquanto o empurravam, passando por mim. Os olhos dele se fixaram nos meus, e eu vi o instante em que ele entendeu —entendeu de verdade— o que tinha acabado de acontecer com ele. A raiva impotente. A constatação amarga de que tinham passado a perna nele desde o começo.
Devagar, de propósito, eu articulei sem som as palavras: Eu te avisei. É real.
O rosto dele se retorceu de fúria e, antes que os policiais conseguissem enfiá-lo no carro, ele explodiu.
—Sua puta desgraçada! Você acha isso engraçado? Quando eu sair, eu vou atrás de você —tá me ouvindo? Eu vou te achar e vou fazer você se arrepender do dia em que nasceu, sua puta maldita!
Algo frio se acomodou no meu peito. O karma perfeito tinha acabado de ficar pessoal.
Cheguei mais perto, deixando a preocupação tingir minha voz.
—Ah! Senhor policial, acabei de lembrar de uma coisa... não teve uns furtos de relógios de luxo no Bellagio na semana passada? Itens parecidos? Talvez valha a pena verificar se tem alguma ligação.
A mão do policial voou até a testa.
—Meu Deus, eu quase esqueci desses casos. Boa, senhorita. A gente vai investigar, sim.
—Fico feliz em ajudar. —Dei meu sorriso mais deslumbrante, aquele que fazia meus olhos brilharem e minhas covinhas aparecerem.
O rosto do cara da Maserati ficou roxo de ódio.
—Sua vadia mentirosa! Eu nunca— —Mas o resto das palavras foi cortado quando o enfiaram na viatura e bateram a porta com força. Ainda dava para vê-lo berrando pela janela, a boca formando ameaças que eu já não conseguia ouvir.
A mão de Kael pousou no meu ombro enquanto víamos as luzes vermelha e azul sumirem pela rua.
—Me lembra de nunca te irritar —murmurou ele.
Sorri para ele.
—Homem esperto.
—Vem. —A mão dele deslizou até a curva da minha lombar, me guiando para a parte mais escura do estacionamento. —Minha caminhonete está por aqui.
O Desert Rose Inn não era o tipo de lugar onde você levaria alguém que queria impressionar. A placa de neon piscava de vez em quando, metade das letras queimadas, e o estacionamento tinha mais buracos do que asfalto. Mas tinha uma qualidade muito importante que fazia valer a estética de boteco de beira de estrada: lá eles não faziam perguntas.
A maioria dos hotéis de Vegas tinha endurecido com o registro de sobrenaturais nos últimos anos. Mostre o documento no check-in e, se o sistema te marcasse como não humano, você ganhava um questionário extra. Motivo da visita. Tempo de estadia. Está viajando sozinho. Pretende se transformar durante a estadia. Era tudo tecnicamente legal, tudo supostamente por “segurança pública”, mas também era invasivo pra caralho e feito para nos fazer sentir criminosos só por existir.
O Desert Rose, porém? O Desert Rose funcionava num princípio bem mais simples: dinheiro fala, enrolação vaza.
Nem esperei a atendente perguntar. No instante em que chegamos ao balcão, tirei um maço de notas e contei o dobro da diária normal, empurrando o dinheiro por cima do fórmica riscado com um sorriso que dizia que eu sabia exatamente o que estava comprando.
A atendente —uma mulher com cara de cansada, cabelos grisalhos e um crachá escrito “Brenda”— nem piscou. Só pegou o dinheiro, contou com eficiência de quem já fez aquilo mil vezes e puxou uma chave de quarto.
—Quarto 237 —disse ela, com a voz tão sem graça quanto champanhe esquecido há uma semana. —A máquina de gelo fica no segundo andar. Check-out às onze.
Sem perguntas sobre documento. Sem cadastro sobrenatural. Sem olhares de julgamento nem perguntas desconfiadas. Só negócio, limpo e simples.
—Muito obrigada —falei, pegando a chave. —Tenha uma ótima noite.
A expressão de Brenda sugeria que ela tinha parado de ter noites ótimas lá por 1987, mas ela assentiu mesmo assim.
—Você também, querida.
