Capítulo 5
Vesper
Kael me seguiu escada acima, a mão dele encontrando meu quadril de novo, os dedos pressionando o jeans com um calor possessivo. O quarto era exatamente o que eu esperava — móveis genéricos, carpete suspeito, uma cama que já tinha visto dias melhores, mas parecia limpa o bastante. Não importava. A gente não estava ali pela atmosfera.
Tranquei a porta atrás de nós, girando a trava e passando a corrente, por via das dúvidas. Quando me virei, Kael estava me observando com uma expressão meio divertida, meio excitada.
— Ora, ora — ele disse, encostado na parede, os braços cruzados. — Subornando a recepção pra driblar a lei… você tem o jeito bem afinado. Eu devia me preocupar? — O sorriso dele se alargou, mostrando só a pontinha de uma presa. — Sou eu o caçador aqui, ou a presa?
Dei um passo à frente, fechando a distância entre nós, e estendi a mão para agarrar a gola dele. — Ah, não pensa demais — eu disse, a voz leve e provocante, enquanto começava a puxá-lo na direção da cama. — Eu só vim compartilhar. Sabe, trocar experiências de vida, comparar anotações. — Dei um puxãozinho na gola, guiando-o para trás até a parte de trás dos joelhos dele bater no colchão. — Então me diz, cachorrinho… qual é a sua dificuldade?
Ele piscou, completamente pego de surpresa, o sorrisinho confiante vacilando por um segundo. — A minha… o quê?
Empurrei Kael na cama e me posicionei entre as pernas dele. — A sua dificuldade. A de lobisomem. — Minhas mãos deslizaram pelo peito dele, sentindo a tensão enrolada sob o tecido caro. — A maioria dos da sua espécie acaba puxando carga, trabalhando com segurança, derrubando parede — não porque o mercado de trabalho é uma merda, mas porque vocês precisam. Toda essa energia se acumulando o tempo todo, toda essa intensidade primitiva que era pra você manter trancada…
Meus dedos desceram mais, devagar de propósito, até minha mão se acomodar sobre a dureza crescente, esticando o tecido da calça social cara. A respiração dele falhou, as pupilas se dilatando quando pressionei a palma contra ele. — E você — murmurei, sentindo-o pulsar sob meu toque —, um alfa… — Me inclinei bem perto, minha boca quase roçando a orelha dele. — Aposto que é pior pra você. Então me diz… como é que você costuma lidar com isso?
A respiração dele virou um caos, o controle cuidadoso se despedaçando conforme os olhos escureciam para algo puramente predatório. As mãos dele foram até meus quadris, o aperto ficando quase dolorido. Num movimento só, ele nos virou, me prendendo sob o peso do corpo dele. Os dedos foram para os botões da camisa, abrindo-os com uma urgência mal contida.
Ele rosnou no meu pescoço, a voz áspera e tensa. — Estou começando a achar que você entende o meu problema melhor do que eu. — A boca dele encontrou a cavidade da minha garganta, os dentes roçando a pele. — Quer que eu te mostre como eu lido com isso, então?
A mão dele deslizou pela minha lateral, pelas costelas, os dedos roçando a curva do meu seio por cima da camisa. O calor se acumulou fundo no meu ventre, e eu arqueei ao toque dele, minhas mãos subindo para puxá-lo para um beijo feito de dentes, língua e necessidade desesperada.
Ele tinha gosto de uísque e desejo e, por alguns segundos perfeitos, minha cabeça ficou deliciosamente silenciosa. Sem preocupações com dinheiro, sobrevivência, ou o equilíbrio precário da minha vida. Só sensação — a boca dele na minha, as mãos no meu corpo, o peso delicioso dele me pressionando no colchão.
Então ele se afastou, só o suficiente para me olhar, e alguma coisa na expressão dele fez meu estômago se contrair. Os olhos estavam brilhantes demais, focados demais, e quando ele se inclinou de novo, trazendo o rosto para perto do meu pescoço —
Errado.
A palavra atravessou minha mente com a força de um tiro, meus instintos feéricos gritando perigo de um jeito que cortou a névoa do álcool como uma lâmina. Eu tinha aprendido a confiar naquela sensação ao longo dos anos. Ela tinha salvado minha vida mais vezes do que eu conseguia contar — aquele sistema de alerta primitivo que entrava em ação quando algo estava prestes a dar muito, muito errado.
Eu o empurrei. Com força.
Kael tropeçou para trás, surpreso, e eu me afastei dele num salto, criando distância entre nós. Meu coração martelava contra as costelas, adrenalina inundando meu corpo enquanto eu o encarava.
Os olhos dele tinham mudado.
Não era o lampejo dourado de um lobo prestes a se transformar, nem o brilho natural de um predador no calor do momento. Aquilo estava errado — um vermelho profundo, antinatural, que parecia brilhar na luz fraca do quarto.
— Que porra é essa... — eu respirei, a mão indo instintivamente para a corrente de prata em volta do meu pulso. — Não é lua cheia. Você não devia...
O sorriso de Kael se alargou, e já não tinha nada de sedutor. Era pura ameaça, fria, calculada e aterrorizante.
— Lua cheia? — ele riu, o som áspero e irritante. — Eu não preciso de lua cheia pra me transformar, querida. E num lixão desses, num bairro desses? Ninguém vai me impedir. Ninguém sequer vai ouvir você gritar.
As mãos dele mudaram primeiro, os dedos se alongando em garras, as unhas se afiando até virarem armas. Ele avançou, e eu mal consegui me jogar para o lado, rolando para fora da cama, enquanto as garras dele rasgavam o espaço onde eu estava.
— Porra! — recuei, me arrastando, mas ele era mais rápido, rápido como um predador, e antes que eu conseguisse firmar os pés no chão, ele já estava em cima de mim. Uma mão com garras agarrou meu pulso, a outra meu ombro, me prendendo contra a parede com força suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões.
Uma dor cortante atravessou meu lado quando as garras dele cravaram, não fundo o bastante para ser fatal, mas o bastante para doer, o bastante para me fazer arfar. O sangue brotou quente contra a minha pele, encharcando a minha camiseta.
— Filho da puta — rosnei, tentando me soltar à força. — Quem caralho é você? O que você quer?
Kael — se é que aquele era mesmo o nome dele — se inclinou bem perto, o hálito quente roçando meu rosto.
— Você não precisa saber quem eu sou — ele disse, a voz num rosnado baixo que já mal soava humano. — Só precisa entender uma coisa: você roubou da pessoa errada. E o chefe? Ele não tá feliz.
O jeito como ele disse “chefe” fez meu sangue gelar — não como um funcionário falando da gerência, mas como os soldados de rua falavam dos homens que os possuíam.
Então eu vi. Uma tatuagem pequena aparecia perto da clavícula dele — uma lua crescente envolta em correntes, tinta preta e nítida contra a pele.
As peças se encaixaram na minha mente com um baque.
Chefe. Capanga lobisomem. Aquela tatuagem.
Ah, porra.
Ele era do Sindicato Lunar. A única grande gangue de Las Vegas que recrutava lobisomens ativamente, que os usava como força bruta, capangas e coisa pior. Eles controlavam metade dos antros de jogo clandestinos, comandavam esquemas de proteção pela Strip e tinham conexões que alcançavam cada canto escuro do submundo sobrenatural da cidade.
Bom, pelo menos agora eu entendia por que tinham mandado alguém atrás de mim. Não dava mesmo pra culpá-los, considerando que eu tinha roubado deles.
A lembrança me atingiu como um trem de carga — três dias atrás, na reunião na cobertura de Dante Moretti. O grande encontro anual em que toda a elite do submundo de Vegas aparecia para fazer pose, fechar acordos e fingir que não vivia tramando a queda uns dos outros. Eu tinha sido convidada por causa da minha reputação — a Sombra, era como me chamavam, como se eu fosse uma espécie de Robin Hood sobrenatural, em vez de só uma ladra com bons instintos e sorte ainda melhor.
Eu tinha sido boa naquela noite. Tinha sido boa demais. Eu não planejava roubar nada.
Mas então eu vi.
Um artefato dourado, pequeno e perfeitamente redondo, repousando na mesa do Moretti como se não fosse nada. Ele me chamou com aquela atração irresistível que todas as coisas realmente bonitas têm, aquela força magnética que o meu sangue feérico tornava impossível de ignorar. Eu sabia que era estupidez, sabia que era perigoso, sabia que roubar alguém assim era pedir pra ter problema.
E, pelo visto, eu fiz mesmo assim.
E agora eu estava pagando por isso.
— Tô vendo a lâmpada acender — Kael disse, sorrindo para mim com aqueles olhos vermelhos horríveis. — É, agora você lembra, né? Lembra do que pegou? Aquele bibelôzinho dourado em que você não conseguiu parar de enfiar os seus dedos pegajosos?
— Olha — eu disse, tentando manter a voz firme, mesmo com o pânico arranhando minha garganta. — Eu posso explicar...
— Onde tá? — As garras dele pressionaram com mais força no meu ombro, e eu segurei um grito. — Onde está o artefato?
— Eu... — Meu Deus, isso ia soar tão mal. — Você sabe como as fadas são, né? A gente só... a gente gosta da adrenalina de pegar as coisas. De ter. Não é exatamente pelo valor em dinheiro, é mais pelo...
— Onde. Está. Isso.
Engoli em seco.
— Eu usei pra pagar o jantar.
