Chapter 1

A primeira vez que Marlene Albuquerque chamou Camila de egoista, havia um bolo de fuba na mesa e um contrato de garantia aberto ao lado do prato de Henrique.

Era domingo, quase meio-dia, no sobrado estreito do bairro Portao, em Curitiba. A chuva batia fina contra o vidro da cozinha, deixando tudo com cheiro de roupa que não secava. Camila tinha chegado com uma travessa de salpicao comprada no mercado porque trabalhara até tarde na farmácia no sabado e não tivera tempo de cozinhar. Vanessa reparou no pote de plástico antes de cumprimentar.

"Prático, né?", disse a cunhada, mexendo na pulseira dourada. "Quem não tem tempo, compra pronto."

Camila sorriu de lado e colocou a travessa na mesa. "E quem tem boleto, parcela decoração de casamento em nome dos outrosó"

Henrique, ao lado dela, tossiu como se tivesse engasgado com ar.

Vanessa fechou a cara. Diego, o irmão mais novo de Henrique, largou o celular por meio segundo. Marlene bateu a colher na panela.

"Camila", disse a sogra, com aquela voz de missa e ameaca, "hoje não e dia de ironia. Sua cunhada esta passando por uma fase dificil."

Fase dificil era como Marlene chamava qualquer desastre causado por Vanessa ou Diego. Quando Henrique trabalhava doze horas na garagem da empresa de Ônibus e ainda consertava carro de vizinho a noite para pagar o aluguel, era "responsabilidade". Quando Diego estourava cartao em aposta online, era "juventude". Quando Vanessa prometia arranjos florais, luz cenica e mesa de doces para noivas de classe média e não entregava metade, era "fase dificil".

Henrique puxou uma cadeira. Suas maos tinham graxa antiga nas unhas, mesmo depois de lavar. Camila amava aquelas maos. Odiava ve-las tremendo perto de papel de banco.

Sobre a mesa, o contrato parecia inocente: três paginas, logo de uma cooperativa de crédito, campos marcados em amarelo. Garantia solidaria. Camila vira palavras suficientes em contratos de fornecedores da farmácia para saber que "solidaria" raramente tinha algo de gentil.

"E só uma formalidade", Vanessa disse, já empurrando a caneta. "A empresa precisa renegociar com dois fornecedores. Se o Henrique entrar como garantidor, eles destravam o limite. Em seis meses eu pago tudo."

"Quanto e tudo?", Camila perguntou.

Vanessa passou a lingua no batom. "Uns quarenta."

"Quarenta mil?"

"Camila, por favor." Marlene serviu arroz com violencia. "Não fala assim como se fosse um crime precisar de família."

"Eu perguntei o valor."

Henrique olhava o contrato, não a mãe. Camila conhecia aquele olhar. Era o mesmo de quando ele calculava se dava para comprar remedio para Marlene e atrasar a manutencao do próprio carro. Era bondade pressionada até virar culpa.

Diego riu. "Relaxa, cunhada. O Henrique tem nome limpo. Para que serve nome limpo se não para ajudar?"

"Para dormir em paz", Camila respondeu.

A cozinha esfriou.

Vanessa se inclinou para Henrique, ignorando Camila como quem desvia de uma goteira. "Mano, eu segurei muita coisa para não preocupar mãe. Mas agora preciso de você. Se eu perder a empresa, perco os contratos do segundo semestre. A Exponoivas esta chegando. Eu consigo virar."

"Você disse que era só um fornecedor", Henrique murmurou.

"Virou dois."

"E no grupo você falou vinte mil."

"Porque eu não queria te assustar."

Camila sentiu o celular vibrar dentro da bolsa. Uma notificação curta, discreta, do aplicativo do banco digital que ela quase nunca abria em público.

Rentabilidade creditada.

Ela não precisou olhar para saber de qual conta vinha. Não era da farmácia. Não era poupanca. Era do dinheiro que ela havia escondido de todos havia oito meses, desde o dia em que seis números sorteados numa quarta-feira tinham rachado a vida dela em antes e depois.

Mega-Sena.

O premio continuava la, protegido por camadas que até Henrique desconhecia. Advogado. Conta transitória. Holding pessoal. Investimentos. Um plano desenhado para que nenhum Albuquerque com voz chorosa transformasse a sorte dela em dívida eterna do marido.

Henrique pegou a caneta.

Camila encostou a mao no pulso dele. Não apertou. Só tocou.

"Le antes", ela disse.

Marlene suspirou como se Camila tivesse cuspido no crucifixo da sala. "Homem casado não precisa pedir permissao para a esposa quando a mãe precisa."

Henrique levantou os olhos. "Mãe..."

"O que foi? Eu criei você. Quando seu pai morreu, eu lavei banheiro para vocês comerem. Agora sua irmã precisa e você vai deixar uma mulher que entrou ontem nessa família dizer não?"

Ontem. Cinco anos de casamento viravam ontem quando Marlene queria.

Camila retirou a mao do pulso de Henrique e abriu a bolsa. Pegou o celular, viu a notificação na tela acesa e, por reflexo, apertou o botao lateral antes que alguem enxergasse o saldo absurdo escondido atras de duas senhas.

A tela apagou.

Mas Vanessa tinha olhos treinados para brilho.

"Que foi isso?", perguntou.

"Nada", Camila respondeu.

Henrique ainda segurava a caneta. O bico pairava sobre a linha da assinatura, suspenso entre a culpa e o abismo.

Camila olhou para o contrato e entendeu que o dinheiro que escondia acabara de se tornar mais perigoso do que nunca.

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