Chapter 3
"Quarenta mil não exigem três garantidores, Vanessa", Camila disse.
Ninguem tocara na comida. O arroz esfriava, o frango soltava gordura laranja na travessa e Marlene fazia cara de mãe martirizada para a janela, como se a chuva confirmasse sua santidade.
Vanessa puxou o contrato de volta. "Desde quando você entende de banco?"
"Desde que eu leio antes de assinar."
Henrique largou a caneta sobre a mesa. O som foi pequeno. Para Camila, soou como uma porta destrancando.
Diego bufou. "Mano, você vai deixar? A mulher te trata como crianca."
"Não fala assim com ela", Henrique disse.
A frase saiu baixa, mas saiu inteira.
Camila viu Marlene piscar. Vanessa também viu. Por um segundo, a cozinha pareceu sem ar.
"Eu só quero ver a planilha", Henrique continuou. "Se e para eu garantir, preciso saber o total."
Vanessa riu, mas sem humor. "Agora você virou contador?"
"Não. Virei a pessoa que pode perder o nome."
Camila levantou. "Tem uma impressora no quarto da dona Marlené? Ou você prefere abrir no celular?"
"Você não vai fuçar minha empresa", Vanessa disse.
"Entao Henrique não assina."
Marlene se virou. "Quem você pensa que e para decidir o que meu filho faz?"
"A esposa dele. Mas hoje nem precisa disso. Basta ser uma adulta alfabetizada olhando para uma garantia solidaria."
Diego empurrou a cadeira para tras. "Nossa, como ela fala bonito. Farmácia agora forma advogada?"
Camila sorriu. "Não. Mas boleto forma leitor."
Henrique passou a mao no rosto. "Vanessa, mostra."
Aquilo, sim, foi terremoto. Não grito. Não confronto cinematografico. Só Henrique pedindo prova em vez de aceitar culpa.
Vanessa se levantou com tanta forca que a cadeira arranhou o piso. Foi até a sala, pegou uma pasta preta de dentro de uma bolsa estruturada e voltou jogando papeis na mesa.
"Pronto. Feliz? Querem me humilhar, humilhem direito."
Camila não respondeu. Pegou a primeira notificação extrajudicial. Leu o nome do fornecedor: Flores Santa Felicidade Ltda. Valor: R$ 38.740,00, mais multa. A segunda cobranca era de uma empresa de estruturas metalicas: R$ 62.300,00. A terceira, de locacao de mobiliario: R$ 27.900,00. Havia ainda uma ação de uma noiva, um cheque devolvido e parcelas de um empréstimo PJ atrasadas.
Henrique ficou palido.
"Isso passa de cento e cinquenta mil", ele disse.
"Com juros", Vanessa retrucou. "Sem juros e menos."
"Você me falou vinte."
"Eu falei o que dava para falar sem você fazer esse show."
"Show?" Camila repetiu. "Show e vender decoração para casamento com dinheiro de fornecedor e pedir que seu irmão assine a bomba achando que e vela aromatica."
Marlene apontou o dedo para Camila. "Você esta gostando disso."
"Não estou. Eu preferia estar almoçando."
Diego pegou um dos papeis. "Também tem coisa minha ai, mas e temporario. Vanessa usou meu CPF para..."
"Diego", Vanessa cortou.
Tarde demais.
Henrique olhou para o irmão. "Seu CPF?"
Camila puxou a terceira pagina do contrato. Havia um anexo de consolidação de débitos. O nome de Diego aparecia como coobrigado em um empréstimo que, pelo historico, financiara parte da empresa de Vanessa e parte de algo descrito como "capital de giro emergencial". Camila conhecia eufemismo de banco. Capital de giro emergencial era buraco com carimbo.
"Isso não e só empresa", ela disse. "Tem dívida pessoal misturada."
Diego se levantou. "Aposta esportiva não e crime."
"Não", Camila respondeu. "Mas jogar a perda no CPF do seu irmão deveria dar vergonha."
Marlene levou a mao ao peito. "Ele e seu irmão, Henrique."
"E eu sou o que?", Henrique perguntou.
Pela primeira vez desde que Camila entrara naquela família, Marlene não teve resposta imediata.
Henrique pegou a caneta, olhou para ela e depois para a linha de assinatura. Camila prendeu a respiracao. A decisao precisava ser dele. Se ela arrancasse o papel da mao dele, Marlene venceria a narrativa: esposa mandona, filho dominado. Se ele assinasse, o dinheiro secreto de Camila viraria, de algum modo, tentacao e resgate.
Henrique colocou a caneta sobre o contrato, paralela a linha. Não assinou.
"Eu não vou garantir nada hoje", disse.
Vanessa abriu a boca. Marlene também. Diego xingou baixo.
Henrique continuou, a voz mais firme: "Vou levar copias. Vou falar com alguem que entenda. E só depois decido."
"Alguem que entenda ou a Camila?", Vanessa perguntou, venenosa.
"Alguem que não precise mentir para mim."
O rosto de Vanessa endureceu. A frase tinha acertado mais fundo do que qualquer grito.
Camila juntou os papeis com calma, fotografou cada pagina no celular e enviou para o próprio e-mail. Marlene reclamou. Diego tentou pegar o aparelho. Henrique se colocou entre os dois sem sequer levantar a voz.
"Não encosta nela."
A cozinha acabou ali. Sem sobremesa, sem desculpa, sem almoco.
Quando sairam para a rua, a chuva tinha engrossado. Henrique caminhou até o carro em silêncio. Camila esperou que ele explodisse, se arrependesse, perguntasse por que ela tinha sido dura demais.
Ele apenas abriu a porta para ela e disse: "Obrigado por não deixar eu fazer besteira."
Camila quase contou tudo naquele momento.
Quase disse que havia dinheiro suficiente para pagar Vanessa, Diego, Marlene, a rua inteira e ainda sobrar para sumir. Quase disse que o medo dela não era pobreza, era ver o coração dele hipotecado.
Mas o celular de Henrique vibrou.
Uma mensagem de Marlene apareceu na tela antes que ele guardasse.
Se você não assinar, sua irmã perde tudo. E eu vou saber quem virou você contra nos.
Camila olhou para o contrato molhado na pasta e entendeu que a primeira batalha terminara.
A caçada estava apenas comecando.
