Chapter 4
Na segunda-feira, Camila saiu da farmácia com o uniforme ainda cheirando a alcool em gel e foi direto para a Torra Clara.
A pequena torrefacao de Bianca ficava numa rua lateral do Reboucas, num galpao estreito com porta de metal verde, duas mesas de madeira e um balcão onde sempre havia um pacote de graos aberto como convite. O lugar não parecia o tipo de negocio que entraria numa exposicao de casamentos. Era exatamente por isso que Camila gostava dele.
Bianca estava provando uma leva nova quando Camila entrou. Usava avental preto, cabelo preso no alto e uma expressao de quem tinha brigado com uma nota fiscal e perdido.
"Diz que você veio tomar cafe, não falar de fornecedor", Bianca pediu.
"Vim falar de exposicao."
"Piorou."
Camila colocou uma pasta sobre o balcao. "A Exponoivas Curitiba abriu cotas para marcas de experiência. Cafe especial para degustacao, lembrancinhas personalizadas, carrinho no lounge."
Bianca cruzou os bracos. "Você esta me convidando para morrer de ansiedade em publico?"
"Estou te convidando para vender para noivas que pagam caro por detalhe bonito."
"Vanessa vai estar la."
"Eu sei."
"Entao você quer me colocar no mesmo evento que sua cunhada falida, ressentida e maquiada como se o mundo fosse uma festa de quinze anosó"
"Quero colocar sua marca onde ela não espera que a gente esteja."
Bianca estudou o rosto de Camila. "Isso e sobre o contrato?"
"Também."
Camila abriu a pasta. Ali havia proposta de estande, orcamento de identidade visual, embalagens pequenas com etiqueta para lembranca de casamento e um contrato de patrocinio de uma das areas de descanso do evento. Tudo em nome da Torra Clara, com apoio financeiro de uma empresa que, no papel, não gritava loteria. Rocha Participacoes Ltda. Uma estrutura limpa, sem ostentacao, criada por Dr. Paulo para investimentos reais.
Bianca folheou devagar. "Camila... isso e muito dinheiro."
"E investimento. Não doacao. A gente já tem contrato."
"Mesmo assim."
"Você tem produto, historia e margem. Eu tenho capital. Vanessa tem dívida e pose. Qual dessas três coisas você acha que sobrevive melhor numa exposicao?"
Bianca soltou uma risada nervosa. "Quando você fala assim, eu sinto vontade de obedecer e medo de virar personagem secundaria."
"Você e minha amiga. E minha primeira aposta consciente depois da Mega."
A palavra escapou antes que Camila percebesse. Bianca baixou a voz, embora estivessem sozinhas.
"Cuidado com onde você fala isso."
"Eu sei."
"Henrique ainda não sabe?"
Camila negou.
Bianca apoiou as maos no balcao. "Você vai precisar contar."
"Vou. Mas antes preciso que ele diga não sem saber que existe uma saida facil."
"E se ele achar que você testou ele?"
A pergunta atingiu o ponto sensóvel, o que Camila evitava tocar até sozinha. Havia uma linha fina entre proteger alguem e decidir por ele. Ela sabia. Dr. Paulo sabia. Bianca sabia. Mas toda vez que Camila imaginava Henrique contando a Marlene por alegria, e Marlene chorando até transformar o premio em heranca antecipada da família inteira, a linha parecia menos moral e mais concreta.
"Eu não quero testar", Camila disse. "Quero dar tempo para ele se escolher."
Bianca não respondeu de imediato. Depois pegou uma xicara pequena, serviu cafe e empurrou para Camila.
"Entao vamos fazer isso direito."
Durante duas semanas, Camila trabalhou em duas vidas. De dia, negociava compras na farmácia, conferia estoque de antialergico e fingia que seu maior problema era atraso de distribuidora. A noite, aprovava layouts da Torra Clara, revisava contrato de patrocinio, falava com Dr. Paulo sobre a exposicao e acompanhava Henrique em silêncio enquanto ele recebia mensagens cada vez mais agressivas da família.
Marlene mandava audio chorando.
Vanessa mandava prints de cobrancas.
Diego mandava memes sobre homem mandado pela esposa, depois apagava.
Henrique não assinou. Também não bloqueou ninguem. Camila via o custo disso no jeito como ele dormia virado para a parede, ombros tensos, como se carregasse uma ferramenta pesada mesmo deitado.
Na vespera da montagem da Exponoivas, Camila recebeu uma mensagem de Vanessa.
Já que você gosta tanto de dar opiniao, apareca amanha. Convidei a Torra Clara para o evento. Coloquei vocês num espaco pequeno, mas e melhor que nada. Tenta não passar vergonha.
Camila mostrou para Bianca.
A amiga olhou, depois caiu na gargalhada. "Ela acha que me colocou no evento?"
"Acha."
"E o nosso espaco real?"
Camila virou a tela do notebook. O mapa oficial mostrava o Lounge Sensorial Torra Clara by Rocha Participacoes perto da entrada principal, ao lado da passarela de vestidos e do credenciamento VIP.
Bianca assobiou baixo. "Isso vai dar ruim."
"Vai dar público", Camila corrigiu.
No dia seguinte, elas chegaram cedo ao centro de eventos. Vanessa estava perto do fundo do pavilhao, supervisionando uma parede de flores artificiais que parecia bonita de longe e cansada de perto. Usava blazer branco, salto alto e sorriso profissional.
Quando viu Camila carregando uma caixa de amostras, abriu os bracos.
"Cunhadinha! Que bom que veio. Seu cantinho e ali atras, perto da saida de servico. Não deu para fazer milagre, sabe como e."
Camila olhou para o corredor escuro indicado. Depois olhou para a entrada, onde uma equipe instalava uma placa enorme com o nome da Torra Clara.
"Acho que houve um engano", disse.
Vanessa seguiu o olhar dela.
Naquele instante, dois montadores passaram carregando letras pretas em acrilico.
Patrocinio oficial: Torra Clara.
O sorriso de Vanessa caiu antes que ela conseguisse segura-lo.
