Chapter 5
Vanessa se recuperou rapido. Era uma habilidade de quem vivia de vender cenário: se a parede caia, sorria para a foto do outro lado.
"Que gracinha", disse, os olhos presos na placa. "Conseguiram uma cota pequena de degustacao?"
Bianca, que vinha atras com uma caixa de pacotes, quase respondeu. Camila tocou de leve no braco dela. Aquele momento não precisava de explicacao. Precisava de silêncio suficiente para Vanessa ouvir a própria arrogancia batendo no vidro.
Um coordenador do evento se aproximou com crachas. "Camila Rocha?"
"Sou eu."
"Perfeito. A area VIP já esta liberada para a equipe da Torra Clara. O contrato de patrocinio inclui o lounge, vinte metros de ilha de degustacao, logo no painel de entrada e insercao no telão antes dos desfiles. A senhora quer aprovar a posicao das mesas agora?"
Vanessa ficou imovel.
Bianca tossiu para esconder uma risada.
Camila pegou os crachas. "Quero, obrigada."
"A senhora da Rocha Participacoes também pediu que qualquer ajuste financeiro fosse tratado diretamente com o administrativo. Esta tudo quitado."
Quitado.
A palavra atravessou Vanessa como uma agulha. No mundo dela, tudo era parcelado, prometido, renegociado, empurrado. Quitado era luxo de gente que não precisava sorrir para credor.
Diego apareceu minutos depois, usando o cracha de apoio da empresa da irmã e segurando um copo de energetico. "Ue. Que placa e essa?"
"Marketing", Camila disse.
"Com que dinheiro?"
"Com dinheiro que pagou a placa."
Vanessa o cutucou com o cotovelo. "Não faz cena."
Mas Diego já farejava sangue. "Henrique sabe disso?"
Camila virou para ele. "Sabe que eu ajudo a Bianca com a empresa."
"Ajudar e uma coisa. Isso aqui custa quanto? Dez? Vinte mil?"
Bianca ergueu uma sobrancelha. "Você subestima muito o preco de aparecer na entrada."
Vanessa sorriu, agora sem maquiagem emocional. "Interessante. Uma auxiliar de compras de farmácia bancando lounge VIP. Seu marido e mecânico. Sua amiga vende cafe num galpao. De repente, tudo quitado."
Camila sentiu o velho impulso de esconder o celular, esconder a conta, esconder o tamanho do próprio passo. Mas havia noivas entrando, fornecedores circulando, promotores com pranchetas, gente demais para Vanessa transformar aquilo numa briga de cozinha sem se queimar junto.
"Vanessa", Camila disse, "você me colocou no canto porque achou que eu precisava da sua permissao para existir. Eu não precisava."
O rosto da cunhada endureceu. "Cuidado com o tom."
"Eu tenho muito cuidado. Por isso leio contratos antes de deixar meu marido assinar."
Diego deu um passo a frente. "Você se acha esperta, né?"
"Perto de quem mistura dívida de aposta com empresa de casamento, e dificil parecer outra coisa."
Dois fornecedores que passavam diminuiram o ritmo. Vanessa percebeu e mudou o sorriso.
"Camila, querida, vamos conversar como família. Se você tem acesso a recursos, podia ter falado antes. Eu estou tentando salvar uma empresa."
"Você estava tentando jogar sua empresa no CPF do Henrique."
"Meu irmão não e seu prisioneiro."
"Não. E por isso que eu quero que ele escolha sem chantagem."
O primeiro desfile de vestidos começou a ser testado no telão. A marca Torra Clara apareceu em letras elegantes, acompanhada de uma xicara fumegante. Bianca apertou a mao de Camila por baixo da mesa.
O lounge abriu ao público as dez. Em meia hora, havia fila. Noivas provavam cold brew com raspas de laranja. Maes perguntavam sobre lembrancinhas. Cerimonialistas pegavam cartoes. Uma influenciadora local filmou os pacotes personalizados e marcou a marca. Bianca, vermelha de ansiedade, atendia como se tivesse nascido para aquilo.
Camila ficou no caixa de pedidos corporativos. Usava vestido preto simples, cabelo preso, nenhum sinal de riqueza alem da calma.
Vanessa passou duas vezes fingindo supervisionar algo. Na terceira, trouxe uma noiva irritada.
"Camila, já que você esta tao poderosa, talvez possa oferecer cafe de cortesia para a cliente da V Decor. Como parceria familiar."
A noiva, constrangida, segurava uma pasta. Camila reconheceu o nome dela de uma notificação extrajudicial: Larissa Mota, casamento em novembro, sinal pago, entrega incerta.
"A Torra Clara pode apresentar proposta", Camila disse. "Cortesia, não."
Vanessa riu. "Nossa, que mesquinha."
Camila olhou para Larissa. "E sua decoração, esta em contrato com cronograma atualizado?"
Larissa franziu a testa. "Vanessa disse que me mandaria ontem."
"Mandarei hoje", Vanessa cortou.
"Peca por escrito", Camila disse. "Com fornecedores confirmados."
Larissa encarou Vanessa. A semente caiu em solo fertil.
No fim da tarde, o lounge já tinha vendido mais do que Bianca esperava para um mes inteiro. Camila acompanhou a contagem, pagou um ajuste de equipamento no débito da empresa e assinou a aprovacao de uma ativacao extra para o dia seguinte. Tudo visóvel. Tudo legal. Tudo irritantemente limpo.
Vanessa esperou Camila ir ao corredor dos banheiros para segui-la.
"De onde veio o dinheiro?"
"Boa noite para você também."
"Não brinca comigo. Eu conheco salario de farmácia. Conheco a vida do Henrique. Vocês não herdaram nada."
"Você conhece o que eu deixei você ver."
Vanessa estreitou os olhos. "Foi indenizacao? Homem rico? Agiota?"
Camila lavou as maos devagar. "Você esta projetando suas metodos em mim."
"Mega-Sena", Vanessa disse de repente.
Camila sentiu a agua fria nos dedos. Não levantou os olhos rapido demais. Não piscou demais. Mesmo assim, por dentro, algo se contraiu.
Vanessa sorriu. "Foi isso, não foi? A aposta de Curitiba. Eu lembro da noticia. Uma aposta unica, premio alto, ninguem apareceu em foto. Você ganhou."
"Você deveria escrever ficcao. Talvez desse menos dívida."
"Se você ganhou durante o casamento, metade e do Henrique."
"Converse com um advogado."
"E se metade e dele", Vanessa continuou, aproximando-se, "família tem direito de saber que você esta escondendo dinheiro enquanto minha mãe se humilha."
Camila secou as maos, jogou o papel no lixo e encarou a cunhada pelo espelho.
"Sua mãe não se humilha. Ela humilha os outros com culpa."
O sorriso de Vanessa desapareceu.
"Eu vou descobrir", ela disse. "E quando Henrique souber que você escondeu uma fortuna dele, quero ver esse casamento sobreviver."
O celular de Camila vibrou na bolsa. Outra notificação. Outro número que ela não podia deixar brilhar.
Desta vez, Vanessa viu a mao dela ir rapido demais para a tela.
E sorriu como quem acabara de encontrar a porta de um cofre.
