Capítulo 1 O Sequestro da Lua.
O sol da tarde filtrava-se entre as árvores centenárias, tingindo o jardim da mansão Amarok de um tom dourado, mas para Artemisa Levana, a luz radiante não emanava calor; ao contrário, era gélida e carente de vida.
Em pé entre a multidão, seus olhos celestes, brilhantes como o gelo sob o sol estival, permaneciam fixos no altar erguido diante da suntuosa residência dos Amarok. Seu cabelo branco — uma cascata de neve que sempre lhe valera olhares de desprezo em uma alcateia que valorizava a força sombria e o pelo negro ou avermelhado de seus guerreiros — caía sobre seus ombros como um lembrete constante de sua suposta desgraça.
Diante dela, Cordelia, sua irmã mais velha, parecia radiante e cruel. Com sua juba ruiva, tão adorada por seus pais, e sua pele de porcelana, ela a encarava com a mesma frieza de sempre. Cordelia exalava uma arrogância que sempre fora sua arma mais afiada.
Enquanto os convidados murmuravam elogios sobre a beleza da noiva, Artemisa sentiu uma pontada na alma ao ver Canagan Amarok, o Alfa de sua alcateia e dono daqueles belos olhos dourados e pele pálida que ela aprendera a adorar, cuja simples presença a deixava sem fôlego. Ele estava ali, entregando seu destino a Cordelia, a mulher que sempre se encarregara de lembrar a Artemisa de que ela não passava de uma maldição ambulante, nada além de uma mancha na linhagem dos Levana.
Um calafrio percorreu a espinha de Artemisa ao recordar aquela tarde de sua infância; uma ferida que nunca terminava de cicatrizar. Tinha dez anos quando a bruxa da alcateia, uma anciã de mãos sarmentosas e olhos cheios de veneno, sentenciou sua vida diante de seus pais no salão principal da mansão ancestral Levana.
— Os lobos brancos são o presságio do fim — dissera a velha bruxa, apontando para a pequena Artemisa com um dedo ossudo. — Artemisa é uma maldição. Se for tomada por um Alfa, se entregar sua pureza a um governante de alcateia, o mundo dos licantropos entrará em colapso. Os lobos brancos carregam maldições ancestrais que condenarão suas famílias e alcateias à extinção.
Desde aquele dia, a vida de Artemisa tornou-se uma jaula de ouro e desdém. A proibição era absoluta: ela deveria permanecer virgem, casta… invisível. Nunca deveria ser tomada por um Alfa, pois a profecia ditava que aquele encontro selaria um destino catastrófico. E seus amorosos pais começaram a vê-la com frieza e medo, deixando de lado seus mimos para ela e concentrando-se apenas na filha mais velha, a bela ruiva que lhes daria o mundo ao unir-se a um Amarok.
Negando com a cabeça, a albina parou de pensar no passado, obrigando-se a voltar ao presente, mas uma lágrima solitária, pesada e carregada de uma amargura que queimava, rolou por sua bochecha. Canagan, o homem que sempre a tratara com uma gentileza que ela não acreditava merecer, pronunciou seus votos com uma voz grave que ressoou no peito de todos.
Ele sempre fora inalcançável, mas hoje, a barreira entre eles não era apenas a profecia, mas a mulher que agora o reivindicava. Ao fazer emergir seu lobo, uma força primordial que fez o ar vibrar e provocou que os convidados recuassem instintivamente, Canagan marcou Cordelia como sua Lua diante do olhar atônito dos presentes. A cerimônia tradicional foi concluída e, com ela, o coração de Artemisa partiu-se em um silêncio sepulcral.
Sem esperar que o barulho da celebração afogasse seus soluços, Artemisa girou sobre os calcanhares e fugiu para o lago da floresta, um canto recôndito das terras Amarok onde o tempo parecia parado. Ali, entre os salgueiros chorões cujos ramos roçavam a água cristalina, a amargura transformou-se em dor pura. Enquanto se escondia nas sombras da vegetação, as lembranças a assaltaram com uma crueza insuportável. Antes de a bruxa sentenciar sua existência, ela havia sido a noiva original de Canagan.
O destino, em um cruel jogo de azar, os unira desde crianças, prometendo um futuro de lealdade e amor. No entanto, após a revelação da profecia, o noivado foi transferido com frieza e oportunismo para sua irmã mais velha, pois a ambição de seus pais era conseguir a união de uma de suas filhas com o futuro Alfa da alcateia Amarok, e isso precisava acontecer para atingir objetivos que ela não conhecia totalmente.
Cordelia, apesar de ser a mais velha, nunca foi realmente cogitada por Canagan; por isso, ele havia pedido a mão de Artemisa para se unirem em vínculo, e Cordelia se uniria a Velkan, o meio-irmão de Canagan, nascido de uma loba de alcateias selvagens.
Mas, com o surgimento da profecia, tudo mudou.
E Cordelia, em vez de se compadecer, transformou a vida de Artemisa em um inferno, zombando de sua solidão imposta e lembrando-lhe a cada passo que ela nunca conheceria o toque de um amante nem o vínculo de uma parceira destinada, jurando, além disso, que ela conseguiria fazer com que Canagan a esquecesse definitivamente.
Artemisa abraçou-se, tentando recompor sua postura, enquanto recordava as palavras que Canagan lhe dissera naquela manhã:
“Por favor, espere por mim. Eu provarei que essa maldição é mentira e, então, desprezarei sua irmã para conseguir reivindicar você. É uma promessa... só me uno a Cordelia para estar perto de você, não se esqueça... não me esqueça.”
— Devo ser forte — sussurrou para si mesma com a voz embargada. “Não podem vê-la derrotada”, disse a si mesma mentalmente, pois não queria dar a Cordelia o prazer de vê-la tão desolada.
Mantendo aquela promessa de Canagan, ela decidiu retornar à cerimônia, limpando o rastro de suas lágrimas com a manga de seu vestido de seda clara. Não podia se permitir o luxo da fraqueza diante de uma irmã que se alimentava de sua dor.
Ela caminhou de volta para os jardins com passos trêmulos, mas, justamente quando se aproximava da entrada principal da mansão, o ar tornou-se pesado, carregado de uma estática perigosa, e um pressentimento a invadiu, como se seu instinto adormecido lhe dissesse subitamente que algo terrível estava prestes a acontecer.
Tudo foi abruptamente interrompido pelo estalo de uma explosão na entrada dos jardins. O solo tremeu sob seus pés e uma nuvem de poeira e estilhaços subiu, transformando a alegria do casamento em um caos de gritos e confusão.
A mansão Amarok foi invadida de repente por lobos párias e exilados; homens de olhares selvagens, marcados por cicatrizes de batalhas esquecidas e pelo ódio daqueles que foram banidos da sociedade licantropa. À frente de todos, com uma presença que eclipsava a violência do momento, caminhava Velkan Amarok, o meio-irmão mais novo de Canagan, o Alfa rebelde, aquele que tentara tomar o controle da alcateia Amarok pela força e que agora retornava, mais perigoso e impiedoso do que nunca.
Artemisa, escondida atrás de uma cerca de rosas que começava a murchar pelo fogo das tochas derrubadas, observou com terror absoluto enquanto Velkan avançava contra Canagan. O impacto foi brutal; o som dos ossos colidindo ressoou como um trovão.
— A última palavra ainda não foi dita, irmão. Entre nós dois, ambos sabemos quem é o mais forte e o mais apto para ser o Alfa da alcateia Amarok... e não é você — gritou Velkan em meio a um rugido feroz e selvagem. — Tomarei a mulher que você deseja para si mesmo, farei dela meu brinquedo, e você pode me desafiar para recuperá-la. Dentro de um ano, na lua de sangue, nos enfrentaremos até a morte pelo domínio da alcateia!
Velkan, com sua pele morena e seus olhos dourados ardendo com uma sede de vingança incontrolável, reivindicou Cordelia como sua Lua, desafiando seu irmão a recuperá-la de suas presas em um duelo até a morte dentro de um ano, durante a lua de sangue, para provar quem era realmente digno de liderar os Amarok.
Mas então, enquanto Velkan se gabava de seu desafio, seu olhar parou no pescoço de Cordelia, onde a marca brilhante de Canagan já palpitava. O rebelde rosnou de frustração; ele chegara tarde. A mulher que ele desejava reivindicar já estava vinculada ao seu inimigo. Seu rosto se contorceu em uma careta de desdém, até que seus olhos dourados, intensos e predatórios, escanearem o jardim e pousarem sobre a figura alva e pura de Artemisa.
O tempo pareceu parar. Artemisa sentiu o ar escapar de seus pulmões. Velkan sorriu, mas aquele não era um sorriso que prometia salvação, e sim uma nova e temível espécie de escravidão. Com um movimento felino e violento, ele se desvencilhou dos guardas que tentavam detê-lo e, em duas passadas, estava diante dela. Antes que Artemisa pudesse soltar um grito, ele a tomou em seus braços, prendendo-a com uma força férrea que lhe cortou a respiração.
Ele a levantou do chão, exibindo-a diante do olhar atônito de todos os convidados, incluindo um Canagan ferido e ofegante.
— Se a alcateia Amarok quer sua Lua, que fique com ela! — rugiu Velkan, sua voz ressoando em cada canto do jardim, carregada de uma vitória amarga. — Mas eu não sairei de mãos vazias. Terei uma Levana para mim.
O horror refletiu-se no rosto de todos os presentes que conheciam a maldição, e um gemido doloroso e abafado escapou dos lábios de Canagan, tentando reivindicá-la. Artemisa, pequena e frágil contra o corpo imponente de Velkan, sentiu-se como uma presa capturada por uma besta.
— Por favor... solte-me, você não sabe o que sou, a tragédia que posso desencadear... — murmurou Artemisa com medo.
No entanto, Velkan não parou para ouvir seus protestos, nem os gritos dos guardas que hesitavam em atacar pelo risco de feri-la.
— Não sou um covarde que teme maldições, e sempre tenho o que desejo. E eu desejo uma Levana aquecendo minha cama — respondeu aquele lobo selvagem de pele morena e olhos de ouro.
Com um giro brusco, Velkan entrou na escuridão da floresta, levando a “maldição” para longe da segurança de seu lar, sob o peso de um destino que, longe de ser a solidão que lhe prometeram, desenhava-se como um pesadelo de desejo, poder e sangue.
Artemisa olhou por cima do ombro de Velkan para a mansão que se perdia na distância. Havia sido arrancada de sua vida de submissão, lançada nos braços de um rebelde cujo ódio pela família Amarok não conhecia limites. Agora, no silêncio opresivo da floresta, ela entendeu que a profecia não era o fim de sua história, mas o início de uma tempestade que ameaçava devorar tudo o que ela um dia conheceu. Velkan a apertou mais contra seu corpo, um gesto de posse que a fez compreender que, de agora em diante, ela não era mais uma observadora, mas o troféu de guerra de um homem disposto a incendiar o mundo para ver sua vingança cumprida.
