Capítulo 2 Pertencente a eles.

O ar da noite era gélido, mas o calor que emanava do corpo de Velkan Amarok resultava sufocante para Artemisa. Após ser arrebatada dos jardins de seu lar, a viagem tornara-se uma névoa de sombras, galhos que açoitavam sua pele sem piedade naquela fuga acidentada, e o som rítmico das pisadas pesadas do Alfa rebelde que a carregava sobre os ombros como se fosse um pedaço de carne obtido durante uma caça. Finalmente, Velkan parou em uma clareira isolada, longe dos limites dos territórios Amarok, e a soltou com uma brusquidão que a fez cambalear, obrigando-a a recuar até chocar-se contra o tronco rugoso de um carvalho centenário.

Artemisa tremia, não apenas pelo frio, mas pelo medo que o olhar de Velkan lhe provocava. Seus olhos dourados, semelhantes aos de Canagan, mas carentes de qualquer resquício de benevolência, escaneavam-na com a precisão de um predador que avalia a fragilidade de sua presa.

Ele não era um homem que ocultasse seus instintos, concluiu; na presença dele, Artemisa sentia-se nua, exposta a uma ferocidade que jamais experimentara sob a proteção, ainda que distante, de sua alcateia familiar.

— Você é realmente uma visão, Artemisa Levana. Muito mais bela e frágil que sua irmã de juba de fogo — murmurou Velkan, dando um passo lento em direção a ela. Sua voz era um rosnado baixo, um som que vibrava na terra. — É uma pena que meu irmão, o autointitulado grande Alfa Canagan, carecesse do valor necessário para marcá-la, e tudo por medo de uma profecia absurda sussurrada por uma velha senil que só queria controlar o destino do nosso sangue de lobo — sentenciou.

Artemisa ergueu-se o máximo que pôde, apertando os punhos contra as dobras de seu vestido, que agora parecia rasgado e manchado de poeira. Seus olhos celestes, apesar do terror que lhe oprimia o peito, cintilaram com uma faísca de desafio.

— A profecia não é apenas um conto de velhas, Velkan — respondeu ela, com a voz firme, apesar dos tremores de suas mãos. — Talvez seja real. E se for, não quero ser tocada por ninguém que não seja Canagan. Amo Canagan desde que era criança; se o meu destino é a destruição, prefiro que seja pela mão do único homem que me tratou com bondade, não por um monstro que só busca vingança — disse, solene.

Velkan soltou uma gargalhada seca; um som desprovido de alegria que ecoou pela clareira. Aproximou-se mais, invadiu seu espaço pessoal até que Artemisa pôde sentir o hálito quente do lobo sobre sua pele.

— Amor puro… — zombou ele, com uma crueldade que lhe gelou o sangue. — Que terna é a ingenuidade de uma loba de berço de ouro. Ensinaram-te a ser um receptáculo de deveres, uma peça de xadrez, mas eu não sou um cavaleiro como meu irmão; não tenho medo de maldições nem me importo com o desprezo de uma sociedade que me expulsou… muito menos temo o desprezo de uma mulher. Portanto, você não vai me negar, pois já não tem vontade própria agora que a transformei em meu brinquedo — disse, arrogante.

Velkan estendeu uma mão e, com uma rudeza que fez Artemisa soltar um gemido de dor, segurou-lhe o rosto. Seus dedos, calejados e fortes, apertaram-lhe as bochechas, obrigando-a a manter o olhar fixo no dele, e seus olhos, celeste e dourado, desafiaram-se sem a intenção de ceder. A proximidade era insuportável; ele começou a inclinar a cabeça, aproximando os lábios dos dela em um gesto de dominação que pretendia ser um beijo forçado. Artemisa fechou os olhos com força, preparando-se para a humilhação, recusando-se a derramar uma única lágrima diante daquele homem que queria torná-la sua propriedade.

No entanto, o beijo nunca chegou.

Um coro de gritos guturais e uivos de vitória ressoou vindo da trilha que conectava com a clareira. Os lobos exilados e párias, companheiros de exílio de Velkan, retornavam dos territórios após terem cumprido sua missão. Vinham eufóricos, celebrando com a brutalidade de quem se sabe triunfante, tendo semeado o terror entre os lobos de linhagem que, durante décadas, os desprezaram de suas elegantes torres de carvalho e marfim.

Velkan parou, e sua expressão tencionou-se com a interrupção. Com um empurrão desdenhoso, soltou o rosto de Artemisa, que recuperou o fôlego e obrigou-se a manter-se de pé, firme e erguida, embora seu coração batesse como um tambor frenético.

Velkan virou-se para seus homens, com o olhar incendiado por uma ambição desmedida.

— Esse é apenas o primeiro passo! — bradou ele, com a voz dominando a balbúrdia. — Hoje, demonstramos que o medo mudou de lado. Recuperaremos o que é nosso, território a território, até que os Amarok de linhagem pura e as alcateias insossas que os apoiam se ajoelhem diante da nossa própria lei. Preparem-se para marchar! — gritou, com ferocidade.

Um lobo de aspecto desalinhado, com uma cicatriz que lhe cruzava o peito, aproximou-se de Velkan, apontando para Artemisa com uma careta zombeteira.

— O que faremos com a albina maldita, Velkan? Vamos deixá-la aqui como um presente para os lobos comuns destas florestas? — questionou.

Velkan soltou uma gargalhada sombria e voltou a observar Artemisa, que o encarava com uma mistura de horror e uma dignidade que ele parecia apreciar.

— Ela não ficará aqui. E dar ao meu irmão a oportunidade de recuperar algo que ele acha que lhe pertence? Jamais — respondeu Velkan, aproximando-se novamente de Artemisa para segurá-la pelo braço com firmeza. — A partir deste momento, ela me pertence. Ela se moverá conosco para onde quer que formos. É meu troféu e meu desafio. —

Enquanto isso, a quilômetros de distância, na mansão Amarok, o ambiente era radicalmente distinto. Canagan estava sentado enquanto as curandeiras da alcateia tratavam dos profundos ferimentos que Velkan lhe infligira no ombro e no peito. Sua pele pálida estava salpicada de sangue, mas seus olhos dourados, para além da dor física, refletiam um desespero absoluto.

— Artemisa... — sussurrou ele, com a voz embargada pela raiva.

— Alfa, deve descansar — advertiu uma das curandeiras, mas Canagan a afastou com um gesto seco.

— Meu irmão a levou! — exclamou Canagan, ignorando o ardor de seus ferimentos enquanto se levantava. — Jurei protegê-la sempre, ainda que fosse à distância, e agora ela está nas presas do lobo mais perigoso deste mundo. Escutem-me todos: recuperarei Artemisa, custe o que custar. Trazê-la-ei de volta e, profecia ou não, farei dela minha verdadeira Lua. —

Cordelia, que permanecia oculta atrás da porta, ouviu cada palavra. Seu rosto, geralmente belo e altivo, contraiu-se em uma careta de ódio puro. O fato de seu próprio marido, o Alfa que acabara de marcá-la, expressar tal devoção pela irmã que ela sempre humilhara, acendeu um fogo destrutivo em seu interior. Enquanto os servos baixavam a cabeça diante da ordem de Canagan, Cordelia apertou as mãos até que seus nós dos dedos ficassem brancos.

«Jamais», pensou Cordelia, enquanto uma resolução letal começava a se formar em sua mente. Não permitiria que Artemisa retornasse. Não permitiria que aquela “maldição albina” lhe tirasse sua posição, seu poder e, acima de tudo, o homem que ela considerava sua propriedade exclusiva. Se Velkan queria ficar com a pequena criatura branca, que ficasse com ela para sempre; ela se encarregaria pessoalmente de que o caminho de volta para Artemisa fosse uma rota sem retorno.

Não tinha sacrificado tanto para, no final, voltar a ser desprezada pelo homem que lhe arrebatara a irmã, e a promessa de seu inferno queimava-lhe o peito.

— Você não voltará aqui... sua albina imunda. Nem que seja a última coisa que eu faça — prometeu.

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