Capítulo 3 A lua forçada dos rebeldes.
O salão do trono da alcateia Amarok, um espaço de tetos altíssimos e pedra fria, parecia menor do que nunca sob a pressão da tensão acumulada.
Canagan estava sentado em seu lugar de comando, com a postura ereta, mas o espírito submerso em uma tempestade de remorsos. Diante dele, Lord Finigan, o patriarca da família Levana, não dissimulava seu desespero; sua esposa, Lady Elara, permanecia ao seu lado, com o rosto pálido e os olhos injetados de sangue após o sequestro de sua filha mais nova.
— É inaceitável, Canagan! — trovejou Lord Finigan, batendo na empunhadura de sua espada com uma luva de couro. — Você permitiu que essa escória, esse bastardo a quem chama de irmão, invadisse nossa cerimônia privada e levasse Artemisa. Você tem ideia do que isso implica? Se essa criatura perder sua virgindade, a profecia não será apenas um aviso, será nosso epitáfio. O fim dos licantropos cairá sobre nossas cabeças por sua negligência!
Canagan manteve um silêncio sepulcral. Seus olhos dourados, habitualmente calculadores e serenos, estavam velados por uma sombra de tormento. Ouvia cada palavra, reconhecendo a verdade na raiva de seu sogro.
— Diga-me uma coisa — continuou Finigan, dando um passo à frente, baixando a voz a um sussurro cheio de veneno. — Por que Velkan ainda está vivo? No ano passado, quando ele o desafiou pelo controle de sua alcateia e você o derrotou, deveria ter cortado sua garganta. Foi sua piedade que nos trouxe a este abismo... por um tempo, pensamos em unir esse selvagem à nossa adorada Cordelia só porque ele tem o sangue dos Amarok, veja só do que a salvamos... mas agora ele tem Artemisa, e quando roubar sua preciosa virgindade, estaremos todos perdidos.
Canagan suspirou, e aquele som que carregava o peso de anos de uma fraternidade forçada não o ajudou a se sentir melhor após liberá-lo.
— Eu acreditei na redenção — respondeu finalmente, com sua voz grave ressoando nas paredes. — Tinha a esperança de que Velkan pudesse encontrar a paz ao meu lado. Sonhava que, juntos, como irmãos de sangue, faríamos dos Amarok não apenas a alcateia mais poderosa, mas um império inquebrável. Mas hoje... hoje entendi que a paz é uma ilusão quando se trata de alguém como ele. Sua ambição não tem limites e seu coração está endurecido demais pelo ódio.
Ele levantou-se, e sua presença preencheu o salão com uma autoridade imponente.
— Lord Finigan, Lady Elara, vocês têm minha palavra. Recuperarei sua filha. Trazê-la-ei de volta para casa e juro diante dos antigos espíritos que Artemisa retornará com sua pureza intacta. Ela não será maculada pelo caos de Velkan — Canagan prometeu.
Enquanto caminhava em direção às portas do salão do trono, deixando para trás as exigências de seus sogros, o passado precipitou-se sobre ele como uma maré. Lembrou-se do dia em que seu pai, agonizante em seu leito de morte, chamou-o para confiar-lhe um segredo que mudaria sua percepção da família. Velkan, então um adolescente desnutrido, curtido pela fome e pela crueldade das alcateias selvagens após a morte de sua mãe, fora trazido aos territórios Amarok sob uma ordem direta: «Cuide dele, Canagan. Ele é seu irmão. Dê-lhe um lar, dê-lhe um nome.»
Seu pai confessou-lhe então que Velkan era fruto de uma aventura durante uma viagem a terras fronteiriças. Ao ver aqueles olhos dourados, idênticos aos seus, Canagan não pôde negar a verdade, mas, desde o primeiro instante, o vínculo de irmãos sentiu-se como uma ferida.
Nunca pôde amá-lo. Apesar de seus esforços para cumprir a última vontade de seu pai, Canagan tratara-o com uma frialdade gélida, delegando sua educação a tutores e servos, mantendo-o sempre a uma distância prudente na qual apenas se certificava de que ele aprendesse e fosse alimentado corretamente. Quando Velkan cresceu e o desafiou, gritando que a liderança lhe pertencia por direito de sangue e que era o verdadeiro desejo de seu pai falecido, Canagan recusou. A batalha resultante foi impiedosa, terminando no banimento de Velkan.
No entanto, havia uma verdade ainda mais profunda, um segredo que Canagan guardava a sete chaves no mais recôndito de sua consciência. Havia uma razão pela qual ele desprezava Velkan com tamanha intensidade, um motivo que ia além da inveja ou do poder; algo que o obrigava a cerrar os punhos cada vez que pensava em seu meio-irmão. Enquanto saía ao ar livre, olhando para o horizonte onde a floresta se tornava escura, prometeu silenciosamente: «Artemisa, você é a única luz neste jogo de sombras. Não perderei você. Nem pela profecia, nem por ele.»
Enquanto isso, a léguas de distância, a viagem chegava ao fim. Velkan e seus lobos párias haviam alcançado os territórios dos exilados, uma zona remota do continente que Artemisa nunca vira. Ao descê-la do cavalo, a jovem Levana ficou paralisada pela majestosidade da paisagem. Diante de seus olhos estendiam-se terras vastas, selvagens e de uma beleza indômita, com planícies que se perdiam no horizonte e florestas muito mais frondosas e antigas do que as da alcateia Amarok. A terra parecia vibrar com uma energia pura, sem as restrições nem os muros que definiam sua vida anterior.
Artemisa sentiu uma pontada de confusão. Por que Velkan estava obcecado em roubar o trono de seu irmão, tendo à sua disposição um reino tão vasto e selvagem? O poder destas terras parecia ser, em muitos aspectos, superior ao da mansão Amarok.
— É fascinante, não é? — a voz de Velkan interrompeu seus pensamentos. Ele estava parado atrás dela, observando-a com aquela intensidade predatória que acelerava seu pulso. — Tudo isto é meu. E, ainda assim, o trono que meu irmão usurpa é a única coisa que mantém o equilíbrio nesta região. Mas não se engane, Artemisa. Minha ambição não é apenas uma cadeira de madeira e ouro. É uma questão de justiça — disse com amargura.
Velkan a segurou bruscamente pelos braços, obrigando-a a virar-se para ficar frente a frente com ele. A força de seu aperto era um aviso constante de sua autoridade.
— Você viveu toda a sua vida sob as regras de uma alcateia que a teme, sob a sombra de uma irmã que a odeia e sob o medo de um destino que outros escreveram para você — disse ele, aproximando seu rosto do dela, com os olhos dourados brilhando sob a luz da lua. — Você chegou a um lugar onde as regras são diferentes. A partir deste momento, você é uma pária. Você é a lua obrigada dos rebeldes.
Artemisa sentiu um nó na garganta. A beleza do lugar não podia ocultar o fato de que ela estava em uma jaula, uma muito maior e mais perigosa que a anterior. Velkan a puxou para si, segurando-a com uma posse que não deixava margem para dúvidas sobre sua intenção. Ela olhou para os campos infinitos, perguntando-se se veria novamente o rosto de Canagan, ou se, naquele território proibido, seu destino finalmente se cumpriria da forma mais sombria possível.
