Capítulo 4 Usado para quebrar a alma.
O estrondo da celebração nos vastos terrenos dos exilados era uma sinfonia de selvageria.
Os homens de Velkan, curtidos pelas intempéries e pelo rancor de seu passado, celebravam ao redor de enormes fogueiras que iluminavam a escuridão da noite, comemorando sua incursão na mansão Amarok como se tivessem conquistado o mundo inteiro. Para Artemisa Levana, contudo, o ruído não passava de um zumbido surdo. Estava atordoada, sendo arrastada para longe do calor do fogo por um grupo de mulheres da facção rebelde, que, apesar da brusquidão de seu trato, mantinham uma eficiência quase militar.
À medida que adentravam a edificação central, Artemisa viu-se obrigada a reconhecer a magnificência do lugar. Não era um refúgio improvisado; era uma mansão imponente, construída com pedra escura e madeiras nobres que competiam em elegância com a residência Amarok, se não a superavam.
Enquanto atravessavam o salão principal, o passo de Artemisa vacilou. Na parede central, pendurado com uma reverência quase religiosa, jazia um retrato a óleo de proporções majestosas. A bela mulher no quadro possuía uma pele morena, macia e quente, e olhos negros tão profundos que pareciam segui-la a cada canto do aposento. Vestia um elegante traje de seda preta que realçava seu porte senhorial, e em seu rosto desenhava-se uma melancolia que a Artemisa pareceu estranhamente familiar.
— Quem é ela? — perguntou Artemisa, rompendo seu silêncio. Sua voz soou pequena diante da imensidão do salão.
Uma das lobas, uma mulher de olhar endurecido pelos anos de destierro, deteve-se um instante, lançando um olhar fugaz ao retrato antes de seguir adiante.
— É Lady Olenna — respondeu ela, com um tom que deixava claro que o nome era sagrado. — A mãe de nosso Alfa, Velkan Amarok.
Não houve mais palavras. Apesar da curiosidade que ardia em seu peito, Artemisa soube que insistir seria inútil. A lealdade que essas mulheres professavam pela memória daquela mulher parecia ser um pilar fundamental de sua devoção a Velkan.
Levaram-na até um quarto situado na ala leste, cujas portas de carvalho se abriram para revelar um santuário que parecia ter estado aguardando uma inquilina de alta linhagem. A alcova estava adornada com tapeçarias bordadas em fios de prata e móveis que destilavam um luxo antigo. Artemisa, desorientada, observou o desplante de riqueza.
— Para quem este quarto estava preparado? — questionou a albina, sentindo um calafrio ao notar que o lugar já estava disposto com o detalhe de quem espera por uma rainha.
A loba que a guiava, desta vez com um sorriso amargo e carregado de uma cruel honestidade, deteve-se diante de um espelho de corpo inteiro.
— O senhor Velkan planejou este momento com muita antecedência. Viajou especificamente para reivindicar uma loba Levana como sua companheira, no dia em que seu irmão decidisse marcar sua lua. Nossos territórios são distantes, mas as notícias voam como corvos — explicou a mulher, enquanto começava a despojar Artemisa do vestido enlameado e rasgado que a prendia à sua vida passada. — Honestamente, esperávamos a ruiva Cordelia. Ela era a noiva oficial de Canagan, esse traidor. Velkan queria arrancar esse troféu das mãos de seu irmão, a mulher que deveria ter sido sua lua. Mas em vez da soberba ruiva, você nos chegou. A albina. A maldita.
Artemisa sentiu o coração disparar ao ouvir o desprezo com que falavam de Canagan.
— Por que o chamam de traidor? — perguntou, sentindo que uma parte da verdade que sempre sentiu que lhe ocultavam começava a surgir. — Canagan é o Alfa, ele protege as alcateias, ele...
— Nós não temos autoridade para lhe dizer a razão, pequena loba — interrompeu a mulher com frieza. — Só sabemos que o Alfa Canagan esqueceu de que sangue provém e a quem deve sua lealdade. Isso é tudo o que você precisa saber.
Sem permitir-lhe mais perguntas, as mulheres despojaram-na de suas roupas até deixá-la exposta. Com uma delicadeza técnica que resultava aterrorizante pela falta de afeto, procederam a vesti-la. O novo traje era uma maravilha exótica: um vestido branco de seda pesada, bordado com fios de ouro real e adornado com gemas preciosas que pareciam capturar a escassa luz do quarto. Artemisa olhava-se no espelho e não se reconhecia; parecia uma boneca de porcelana destinada a um sacrifício.
Uma vez vestida, foi conduzida novamente ao salão onde a celebração continuava em seu auge. Ao cruzar as portas duplas, o murmúrio dos homens cessou. Velkan, que se encontrava no estrado principal com uma taça de vinho escuro na mão, levantou-se lentamente. Seus olhos dourados percorreram o corpo de Artemisa com uma voracidade que a fez encolher-se, mas ele foi mais rápido. Em duas passadas estava ao seu lado, segurando-a pela cintura com uma brusquidão que deixou claro quem era o dono daquele novo cenário.
— Contemplem! — rugiu Velkan, elevando a voz para que todos o ouvissem. — O troféu mais belo que a linhagem Levana pôde gerar e que agora me pertence!
Ergueu-a, sustentando-a diante da multidão de párias como se fosse uma joia ganha no fragor da batalha. Os homens aplaudiram em uníssono, um som ensurdecedor de aprovação e submissão.
— Desde hoje, ela é a nova Lua dos selvagens e exilados! Ela é o estandarte sob o qual marcharemos rumo à nossa glória! — Velkan bradou com furor.
Artemisa, superada pela humilhação e pelo terror, encontrou força para lutar contra seu aperto.
— Não pertenço a ninguém! — gritou ela, com a voz tremendo, mas clara. — Muito menos a um monstro que construiu sua vida sobre a base do ódio! Não serei sua, Velkan!
Velkan soltou uma gargalhada maliciosa que fez seu peito vibrar contra as costas dela. Baixando-a com a mesma brusquidão com que a havia levantado, obrigou-a a olhá-lo nos olhos. Sua expressão era a de um homem que se delicia com o medo alheio.
— Oh, pequena albina... — sussurrou ele, aproximando-se de seu ouvido. — Você se engana. Não tem o direito de negar-se. A partir deste momento, cada batida do seu coração, cada suspiro, e cada pensamento seu pertence a mim e somente a mim. Canagan foi um idiota; teve você tão perto durante anos e preferiu deixá-la murchar pelo medo de uma velha profecia. Eu não sou como ele. Não pararei até ter desfrutado cada parte de você, até que sua resistência se transforme em uma súplica para que eu a monte.
Artemisa viu como Velkan lambia os lábios com uma antecipação cruel, como se estivesse diante de um banquete que demorara tempo demais para reclamar, e antes que ela pudesse sequer gritar, ele encurtou a distância entre seus rostos, reivindicando seus lábios sem piedade.
O beijo foi brutal, carente de qualquer traço de ternura ou cortesia; foi uma marca de propriedade, uma invasão que lhe roubou o fôlego e a dignidade. Artemisa sentiu o mundo desvanecer-se diante da humilhação. Seus olhos celestes encheram-se de lágrimas que rolaram, quentes e amargas, por suas bochechas. Não chorava pela dor física, mas pelo horror de saber que seu primeiro beijo, aquele que sempre guardara com a esperança de entregá-lo a Canagan, fora arrebatado pela mão de quem prometia ser seu maior carrasco. Velkan não buscava seu amor; buscava possuí-la, destruí-la e usá-la para quebrar, finalmente, o coração de seu irmão.
