Capítulo 5 Desejo de corrupção.
O ar nos territórios do exílio não cheirava a podridão nem à morte que os anciãos da alcateia Levana sempre haviam descrito em seus avisos. Os selvagens estavam amaldiçoados; condenados a uma vida de infortúnio, definhando tudo em seu caminho como faziam as pragas... por isso, nenhum lobo de linhagem se envolvia com aqueles que viviam fora da lei dos lobos, obedecendo ao seu instinto e destruindo tudo por onde passavam. O castigo dos exilados era ficar à mercê dessas bestas irracionais, perecendo por seus pecados contra suas alcateias.
Desde criança, a albina ouvira muitas histórias a respeito daqueles chamados de “selvagens”, e cada conto dizia que eram lobos rebeldes, completamente incivilizados, que se governavam pelo instinto, sendo mais semelhantes aos lobos comuns do que a qualquer outra criatura, incapazes de formar alcateias organizadas e sempre sedentos de sangue.
No entanto, o que ela estava vendo distava muito daquilo que ouvira durante toda a sua vida.
Ao contrário, conforme Artemisa era arrastada em direção ao assentamento central dos párias, percebia um aroma de terra úmida, de pinheiros milenares e de uma liberdade elétrica que eriçava os pelos de seus braços. Seus territórios eram tão bem organizados quanto os de qualquer outra alcateia; ninguém vivia em cavernas nem cheirava a sangue velho. As moradias eram quase normais, espaçosas, e a vida era tão ordinária que ela quase pôde sentir decepção, embora, em vez disso, devido à beleza daquelas terras, a fascinação tivesse tomado conta.
Velkan não a soltou em momento algum; sua mão, grande e áspera, agia como uma corrente invisível que a lembrava constantemente de seu status de cativa. Mas, ainda assim, ela observou com atenção tudo ao seu redor, tentando não pensar no beijo que já havia maculado parte de sua preciosa castidade.
Artemisa caminhava de olhos baixos, tentando ocultar a fascinação que aquele lugar lhe provocava. Esperara encontrar um acampamento de ruínas, um reflexo da degeneração que a bruxa de sua alcateia lhe pintara desde menina. No entanto, o que avistava eram estruturas robustas de pedra e madeira, integradas com tal maestria à topografia da floresta que pareciam ter brotado da própria terra. Não havia sinais da maldição que os tornava selvagens e incertos, nem rastro algum de catástrofe, apesar de ter sido beijada. Por um segundo, ela duvidou daquela profecia, mas o medo a fez sentir-se entorpecida.
— Te decepciona, pequena Levana? — a voz de Velkan ressoou atrás dela, carregada de um escárnio que não conseguia esconder uma nota de orgulho. — Esperava ver um cemitério, não é? É isso que te ensinaram: que onde estamos, a vida definha... mas lamento muito não ter uma pilha de cadáveres decorando meu pátio. Na verdade, gosto muito mais do cheiro de pinho do que o da morte — disse com um tom de zombaria.
Artemisa parou bruscamente, obrigando-o a fazer o mesmo. O contato físico, aquele roçar de sua pele contra a dele, enviava descargas de uma energia desconhecida que a obrigava a lutar para manter a compostura.
— Ensinaram-me muitas coisas — respondeu ela, forçando um tom gélido que ocultava o terror que ainda lhe oprimia o peito. — E quase todas parecem ter sido ditadas pelo medo ou pelo preconceito de outros, não pela realidade.
Velkan aproximou-se de seu ouvido, e Artemisa sentiu seu hálito quente provocando-lhe um calafrio.
— O medo é uma ferramenta, Artemisa. Os fracos a usam para manter os preconceituosos acorrentados, pois só através de outros é que podem sobreviver. Não te ensinam a temer aqueles que movem os fios nas sombras, mas sim aqueles que parecem ferozes e imponentes, aqueles que não temem tomar o que consideram seu — sussurrou com deboche.
Aquelas palavras deixaram a albina pensativa e, enquanto caminhavam, Artemisa notou algo mais: um grupo de crianças brincava perto de um riacho, correndo com uma vitalidade que não conhecia fronteiras. Um deles, um menino pequeno de cabelos escuros, aproximou-se de um arbusto de flores silvestres; ao tocá-las, a planta não murchou, nem uma sombra de infortúnio caiu sobre o pequeno.
A menina de dez anos que ela fora, aterrorizada pelos contos da bruxa, teria esperado uma tragédia, mas a cena, pelo contrário, era de uma paz absoluta. Seu coração deu um salto, e uma pergunta que ela se recusou a meditar profundamente invadiu sua mente.
Será que tudo o que ela aceitara como uma verdade absoluta desde a infância era uma construção de espelhos quebrados? Ela se questionou.
Negando, não se permitiu pensar além, e o medo a invadiu.
— Esta noite e a seguinte passaremos em uma tenda de campanha em frente às plantações. Preciso vigiar para que tudo corra bem com as colheitas e nenhum imprevisto nos alcance. Há um povoado de humanos perto daqui, humanos caçadores, e eles sempre rondam os limites dos nossos territórios, na esperança de caçar alguém dos nossos. Sou o líder dos selvagens, e onde quer que haja perigo para os meus, devo estar presente... e, claro, meu belo troféu, você deverá estar comigo — disse Velkan com um sorriso ladino.
Artemisa parou bruscamente naquele momento.
— Espere... isso significa que dormiremos juntos? — questionou aterrorizada.
Aproximando-se dela, Velkan sorriu maliciosamente e, tomando seu rosto entre os dedos, obrigou-a a olhá-lo nos olhos.
— Claro. Você é minha propriedade e não tem remédio senão me obedecer. Se eu decidir que cante, cantará para mim; se eu pedir que pule, pulará; se eu lhe disser que sorria, sorrirá... e se eu lhe disser que dormirá em minha cama, será exatamente isso o que fará — respondeu o moreno de olhos dourados.
Artemisa estremeceu, mas antes que pudesse discutir, Velkan a tomou em seus braços e caminhou com ela até a tenda principal, onde a obrigou a se instalar. A atmosfera carregou-se de uma tensão quase insuportável. Velkan não a trancou, mas a vigiava com a intensidade de um predador que a impedia de articular qualquer pensamento coerente. Observava-a enquanto ela, tremendo, tentava sentar-se em um catre coberto de peles.
— Você parece cansada — disse ele, rompendo o silêncio após minutos de observação. — Mas seus olhos não descansam. Está esperando que eu faça algo contra sua castidade, não é? A loba albina que carrega a maldição... — Velkan aproximou-se perigosamente de Artemisa, subindo sobre ela sem esmagá-la por completo, cravando seu olhar dourado nos olhos celestes dela.
— Isso... pode ser um erro — disse Artemisa, sentindo seu corpo estremecer de medo.
Velkan sorriu malicioso.
— Um erro? Se neste momento eu decidir tomar sua preciosa virgindade, o que acontecerá? As florestas queimarão em fogo junto com suas bestas? Os céus celestes se tornarão vermelho-sangue? Ou todos os licantropos simplesmente pereceremos? O que você acha que vai acontecer, meu troféu? — questionou com escárnio.
Artemisa quis reprimir seu medo diante daquele homem moreno e imponente, mas sob seu olhar de ouro, não fez nada além de tremer. Ainda assim, não pôde ficar em silêncio.
— Não sei... a verdade é que jamais soube como eu poderia provocar o fim de tudo o que conhecemos — replicou ela, sustentando o olhar, embora sua voz falhasse levemente. — Se a profecia da minha maldição fosse real, você estaria disposto a arriscar tudo para me tomar e me marcar? Você deseja se vingar de algo que desconheço, e se me tomar à força, se eu realmente carregar o destino do mundo em meus ombros, perecer não arruinaria tudo o que você anseia alcançar para si mesmo? — questionou ela.
Velkan soltou uma gargalhada que ressoou nas paredes de lona, uma risada que soava como aço chocando-se contra aço. Aproximou-se do rosto dela e, embora tenha parado a poucos centímetros, Artemisa sentiu a imensidão de sua presença dominando todo o espaço.
— Talvez... mas acho que você está confundida, meu troféu. Eu não tomo mulheres à força, sou um guerreiro, um conquistador. Que mérito haveria se eu tomasse à força uma mulher frágil? Não tenho medo de desencadear uma maldição, pois gosto de ver o mundo arder, mas não vou tomá-la contra a sua vontade, já que será você mesma quem terminará suplicando que eu a tome — sussurrou ele, baixando a voz para um tom perigoso e carregado de intenção. — E o único veneno em nossa história será o que os lábios daqueles que querem mantê-la longe de seu próprio poder destilaram. A bruxa dos Levana é uma mulher de muitos interesses, Artemisa. E sua irmã, a querida Cordelia, sempre foi uma aluna aplicada na arte da manipulação. Você nunca se perguntou por que, sendo você a que sempre amou Canagan, a profecia surgiu justamente quando ele começou a prestar atenção em você? — questionou.
As palavras de Velkan caíram como pedras sobre água estagnada.
Artemisa sentiu que o chão sob seus pés tornava-se instável. Lembrou-se do olhar de Cordelia naquele dia, o brilho de triunfo em seus olhos azuis quando a bruxa a apontou como uma loba amaldiçoada. Teria sido tudo uma encenação? Negando, não se permitiu duvidar; não podia se permitir acreditar em Velkan, ele era seu captor, um homem perigoso que brincava com suas emoções, mas as dúvidas começaram a germinar, alimentadas pelas que já tinha desde sempre.
— Não acredito em você — disse ela, embora seus dedos se fechassem com força sobre o tecido de seu vestido. — Você só busca me quebrar para que eu me volte contra Canagan.
Velkan a segurou pelo rosto, obrigando-a a levantar a cabeça para que ela tivesse que ver o fogo em seus olhos dourados. A rudeza de seu aperto era um lembrete de que ele era um Alfa, um ser de instintos puros que não se detinha diante de convenções sociais.
— Não preciso quebrá-la, Artemisa, você já está quebrada por suas próprias dúvidas. O que eu busco é outra coisa... quero corrompê-la. Quero que essa pureza que você mantém sob o medo ou o amor pelo meu irmão, você termine entregando a mim, e eu vou ter você. Você mesma será quem decidirá me entregar seu tesouro mais valioso — disse Velkan, e sua mão desceu lentamente até seu pescoço em um gesto que não era de ternura, mas de posse. — Quero ver o que acontece quando a “maldição” finalmente despertar e você descobrir que as correntes que a prendem são de papel.
Antes que ele pudesse continuar, um uivo longo e angustiante rasgou o ar noturno, seguido pelos gritos de seus homens. Um pária entrou apressadamente na tenda, informando sobre uma patrulha dos Amarok rondando os limites do território, e Velkan levantou-se imediatamente, deixando Artemisa sobre o catre. A tensão disparou. Velkan soltou Artemisa imediatamente, e ela notou seu semblante transformando-se no de um guerreiro pronto para o massacre.
— Fique aqui — ordenou ele com um rosnado. — Se sair, não poderei garantir que meus homens não a vejam como o troféu que você é.
Quando Velkan saiu, Artemisa ficou sozinha no silêncio da tenda. Deixou-se cair, respirando com dificuldade. O medo não tinha ido embora; o medo era um companheiro constante, mas agora, misturada a ele, havia uma centelha de raiva que começava a arder. Se a bruxa e Cordelia tinham tecido aquela rede de mentiras, quantos anos de sua vida lhe haviam roubado? Quantos momentos de felicidade com Canagan haviam escapado por culpa de uma profecia que, talvez, só existisse no medo dos homens?
Fechou os olhos, visualizando o rosto de Canagan enquanto suas mãos se fechavam sobre o pingente de prata que sempre levava no pescoço. Prometeu manter-se forte, prometeu não sucumbir diante da humilhação nem diante do perigo, mesmo que naquele momento seu mundo inteiro parecesse estar girando em uma direção onde ela seria, enfim, a dona de seu próprio destino, ainda que tivesse que arder na tentativa.
Na escuridão da floresta, enquanto os sons da preparação para o combate ressoavam, Artemisa compreendeu uma verdade aterrorizante: não sabia quem era mais perigoso, se o homem que a raptara por desafio, o homem que a abandonara à própria sorte por covardia, ou ela mesma, que começava a sentir o pulso de um poder que ninguém, nem mesmo a bruxa, a ensinara a controlar.
