Capítulo 7

Ponto de vista de Ella

Eu estava tendo um pesadelo. Bem, não era exatamente um pesadelo, mas mais uma lembrança. Todos os dias, de manhã, antes de acordar, eu sempre tinha uma das lembranças das minhas sessões individuais com o alfa Grey. Às vezes até com o alfa Sam. Acho que isso se chama transtorno de estresse pós-traumático, embora, no meu caso, não seja exatamente pós-traumático, mas sim um transtorno contínuo de tortura traumática.

Acho que era o nosso aniversário de um mês. Ele tinha acabado de me estuprar pela quarta vez e, ao sair de cima de mim, caiu no sono instantaneamente do outro lado de onde eu estava deitada. Estuprar alguém quatro vezes o fazia apagar imediatamente, já que é preciso esforço pra caralho para roubar de uma garota o próprio livre-arbítrio. Tudo bem, por mim, se aquele desgraçado tivesse me dado o sangue dele antes de apagar, mas não deu. Não é como se eu não tivesse levado chicotadas nas costas e na bunda até desmaiar de dor nem nada. Como se não quisesse entender a dica do meu desmaio, ele me deu só uma gota do sangue dele para que eu acordasse e ele pudesse retomar a tortura.

O ponto é que eu estava exausta além de qualquer descrição. Então fiz uma coisa muito estúpida, sem querer, claro. Desmaiei na cama superconfortável dele.

Até a manhã chegar, e eu pagar por isso em forma de punição. Acordei com dor naquela manhã. O chicote de touro cortou a carne das minhas costas, e eu gritei de dor. Tentei acordar do pesadelo, mas não consegui; quando a segunda chicotada rasgou minha pele, percebi que não era um pesadelo. Tentei sair da cama, ficar o mais longe possível da dor. Mas o alfa Grey devia ter prendido minhas mãos e meus pés à cama enquanto eu dormia. Eu estava presa.

— Você está acordada, serva? — sibilou o alfa, furioso, em pé ao meu lado.

CHICOTE!

Tudo o que eu podia fazer era gritar.

— Como ousa achar que podia dormir na porra da minha cama, serva?

CHICOTE!

— Alfa Grey, me desculpe tanto, eu desmaiei de dor ontem à noite, não fiz de propósito, por favor, pare, eu nem me curei da última surra de chicote — chorei de dor.

CHICOTE!

Eu me contorcia em agonia, pura agonia.

— Não dou a mínima para os seus motivos para dormir, a única coisa com que eu me importo é que, depois que termino com você à noite, tire sua bunda imunda da minha cama. E agora você precisa aprender bem a sua lição.

Ele foi até a mesa de cabeceira ao lado de onde dormia e puxou um chicote de tiras preto com espinhos minúsculos saindo de cada uma das correias. Foi a primeira vez que o vi, e meus olhos já se encheram de lágrimas só de olhar para aquilo.

“Por dormir a noite na minha cama, eu te condeno a cinquenta chibatadas nas costas e na bunda, para que, da próxima vez, você se lembre bem de não cometer o mesmo erro duas vezes. Agora conte em voz alta — e sugiro que você não erre um número.”

CHICOTE!

Acordei gritando, por causa da lembrança. A ardência da chibata era tão real que levei a mão às costas no mesmo instante. Fiz uma careta quando meus dedos tocaram um corte do chicote de couro do castigo da noite anterior. Claro que não tinha cicatrizado. Nada no meu corpo tinha cicatrizado. Eu estava coberta de marcas vermelhas das chicotadas, além dos cortes que o chicote de couro abriu nas minhas costas. O acônito que eu tinha bebido na noite anterior garantiu isso. Ainda levaria pelo menos três dias até que minhas habilidades de cura voltassem a funcionar.

Me perguntei que horas eram. Meu quarto, é claro, não tinha janelas — isso seria um luxo que uma serva como eu não merecia. Eu tinha um relógio de parede, porém; aquilo era uma necessidade para eu garantir que começaria minhas tarefas no horário. Merda! Eu estava quinze minutos atrasada. Eu era responsável por fazer o café da manhã hoje. Por que ninguém veio bater na minha porta?

Levantei com dor, vesti a camisa que ainda estava um pouco úmida por causa da água das ervas e peguei outra de manga comprida no armário. Calcei minhas pantufas gastas e saí. Corri o mais rápido que meu corpo permitia até a cozinha e encontrei o lugar cheio de servos conversando entre si.

Aquilo era estranho. A essa hora, as únicas pessoas que deveriam estar na cozinha eram as encarregadas de preparar o café da manhã. Todo mundo teria se espalhado pela casa da alcateia para fazer as tarefas designadas. Me aproximei das duas servas mais perto de mim, ali junto à porta. Eram duas mulheres de meia-idade que me conheciam das poucas interações que tivemos quando fomos designadas juntas.

— Hum… eu perdi alguma coisa? Por que está todo mundo aqui? — perguntei, confusa.

— Você não vai acreditar, Ella! — disse uma delas, num tom chocado. Acho que o nome dela é Maggie.

— O que aconteceu? — perguntei, nervosa, com o coração acelerado, sentindo que havia algo de extrema importância acontecendo ali.

— O Alfa Grey e o beta Sam… foram mortos esta manhã, numa batalha contra a alcateia Crescent Moon. O alfa deles, o alfa Klaus, vai tomar conta da nossa alcateia amanhã de manhã e vai nos obrigar a nos submeter a ele como nosso novo alfa.

Dei um passo para trás. Eu estava sonhando; eu ia acordar agora e perceber que era só um sonho, e me sentir decepcionada. Mas… podia ser real? Eu finalmente estava livre deles?

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