Capítulo 2 A amante se muda

Ponto de vista de Ember

Forcei um sorriso que ficou pior do que chorar. “Eu estava só brincando.”

Nos primeiros três meses de gestação, o cheiro de uma loba não muda. Depois de três meses, só supressores de aroma especiais conseguem, talvez, esconder o cheiro da gravidez. Estou só com oito semanas, então Asher ainda não sabe.

Asher ficou descontente. “Você brinca com uma coisa dessas? Você está ficando cada vez mais ridícula.”

Ele se virou e subiu, a figura alta desaparecendo na curva da escada. Fiquei ali, com os olhos ardendo.

Naquela noite, puxei a minha mala, dobrando as roupas uma a uma e colocando-as dentro. A palma da minha mão roçou sem querer a minha barriga — ainda lisa como sempre, e, ainda assim, já abrigando uma vida pequena.

E o filhote? O papai não quer mais a gente.

Eu cresci numa família acolhedora. Meus pais eram gentis e bondosos; apoiavam um ao outro, se toleravam e me deram uma infância cheia de amor. Eu achava que um vínculo deveria ser assim.

Então, quando a vovó Blackwood foi até a família Hart para propor o casamento, eu aceitei sem hesitar muito. Na época, eu tinha sentimentos por Asher e achei que três anos seriam tempo suficiente para derreter o coração dele.

Mas eu estava errada. Você nunca consegue aquecer um homem que não ama você.

Assinei o acordo de divisão de bens.

Bem cedo, na manhã seguinte, entrei no escritório dele e coloquei aquele acordo sobre a mesa.

Depois desci, exausta. Assim que cheguei à escada, vi Asher ajudando uma mulher a entrar pela porta da frente.

A mulher parecia pálida, de compleição delicada, praticamente apoiando o corpo inteiro em Asher. Ela ergueu o rosto, revelando feições refinadas, o cabelo castanho-avermelhado brilhando ao sol. Os olhos verde-esmeralda traziam um brilho frágil, úmido.

“Asher, eu não sabia que você estava com visitas em casa...” A voz dela era tão suave que parecia que ia se desfazer no vento.

Eu estava na escada, quando me dei conta, de repente, de que Asher ainda não tinha me apresentado formalmente a ela.

O olhar da mulher caiu em mim, com a medida exata de surpresa. “Olá, eu sou Chloe. Posso perguntar quem você é...”

Ela fez isso de propósito. Como poderia não sentir o cheiro de que eu sou a Luna do Asher?

A voz de Asher soou, fria. “Esta é Ember, a segunda filha da família Hart.”

Não “minha companheira”, não “minha Luna”, apenas “a segunda filha da família Hart”.

Agarrei o corrimão da escada, os nós dos dedos ficando brancos. “A Srta. Hamilton voltou desta vez para reacender as coisas com o alfa?”

Um lampejo de constrangimento atravessou o rosto de Chloe; então ela se virou para Asher, num tom manhoso. “Por que você está contando para todo mundo sobre as nossas coisas?”

Ela disse aquilo com tanta naturalidade, como se eu fosse a intrusa desnecessária.

A expressão de Asher se fechou. “Chloe não está se sentindo bem; eu a trouxe de volta para se recuperar. Você deve sair daqui pelos próximos dias.”

Minha expressão congelou.

“Quer dizer que você quer que eu devolva o que pertence ao seu legítimo dono?”

Asher franziu a testa, mas não disse nada.

Meu olhar caiu sobre a barriga levemente arredondada de Chloe. “Ela está grávida? O filhote é seu?”

O rosto de Chloe ficou instantaneamente pálido como a morte.

Eu não queria mais me conter. Encarei Chloe, e minha voz carregava uma aspereza inédita.

“Não vai negar? Então parece que eu estava certa. Por que você não se casou com ele quando ele te pediu em casamento naquela época?”

A sala mergulhou num silêncio mortal. Chloe abriu a boca, sem palavras por um momento.

“Ember!” A voz de Asher se elevou de repente. “Você enlouqueceu?”

Ele avançou a passos largos, agarrou meu pulso e praticamente me arrastou escada acima.

A porta do quarto bateu com força. Asher me soltou e disse, furioso:

“Eu estou prestes a rejeitar você. Não me arrume problemas numa hora dessas!”

“Arrumar problemas?” Ergui a cabeça, olhando direto nos olhos dele. “Você tem medo de a Chloe descobrir que você já tem uma Luna?”

“Isso não tem nada a ver com você.” A voz dele estava fria como gelo.

“Nada a ver comigo?” Eu me ouvi rir, um som cheio de amargura. “Asher, afinal, o que você acha que eu sou?”

“Saiba o seu lugar!” ele finalmente explodiu. “Nós somos só companheiros! Se a vovó não tivesse insistido para que eu te marcasse, você acha que teria sido Luna por três anos numa boa?”

Aquelas palavras foram como uma faca, cravando fundo no meu coração.

Três anos antes, quando a vovó Blackwood foi até a família Hart para propor a união, bastou me olhar uma vez e me escolheu. Disse que minha linhagem era dócil, adequada para uma Luna. Eu tinha sentimentos por Asher, achei que aquela era a Deusa da Lua me dando uma chance, então aceitei.

Ainda assim, Asher apresentou um acordo estabelecendo um prazo de três anos, após o qual qualquer uma das partes poderia pedir uma rejeição, rompendo o vínculo de companheiros. Ele nunca reconheceu publicamente minha identidade, nunca me levou a nenhum evento social. Eu vivi nesta propriedade como uma ladra por três anos e, tirando a vovó Blackwood, ninguém me deu uma segunda olhada.

Baixei a cabeça, e as lágrimas finalmente caíram.

A voz de Asher suavizou um pouco. “Eu vou te compensar. Ações, propriedades, o suficiente para você viver confortavelmente.”

Levantei o rosto, encarando-o com os olhos avermelhados. “Você acha que eu me casei com você por dinheiro?”

Ele desviou o olhar e não disse nada.

Essa foi a minha resposta.

Respirei fundo, prestes a contar a ele sobre a gravidez, quando batidas urgentes soaram de repente do lado de fora da porta.

“Sr. Blackwood, algo aconteceu — a Srta. Hamilton desmaiou lá embaixo!”

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