Capítulo 1 PRÓLOGO 1

A primeira coisa que a vida me ensinou foi que ela não me devia nada, e nunca ia dever.

A gente não percebe o quão silenciosamente um coração pode se partir até estar ali, dentro do próprio silêncio, desejando que alguém, qualquer um, ouça. Mas, no meu mundo, a única coisa que respondia era o eco de tudo que eu tinha perdido antes mesmo de ter a chance de segurar.

Sempre senti que eu não pertencia, nem a esta matilha, muito menos à família com quem fui colocada.

No dia em que eu dei meu primeiro suspiro, minha mãe deu o último. Meu pai, incapaz de sobreviver ao vazio que a morte dela deixou, foi atrás dela pouco tempo depois, me deixando órfã antes que eu pudesse sequer formar uma lembrança, ou foi o que me contaram. Eu os conheço só por algumas fotos desbotadas e, nem uma vez sequer, senti a ausência deles como amor perdido.

Alfa Joe, o líder da nossa matilha, me passou adiante como um presente indesejado para Ama e Vargos. Por um tempo, um tempo doce e cruel, eles me trataram como filha. Até eu fazer sete anos e a barriga de Ama começar a inchar com uma nova vida.

Aí o mundo virou. De repente, os braços que antes me acolhiam ficaram frios. Os olhos que antes me procuravam no meio da multidão passaram direto por mim, como se eu fosse nada além de ar.

Eles ficaram tão obcecados com o novo bebê que esqueceram que eu também precisava de comida, calor e amor. Aprendi a me virar sozinha, catando restos na geladeira e queimando minhas mãozinhas tentando cozinhar comidas que tinham gosto tão ruim quanto a aparência.

Quando o bebê nasceu, eles esvaziaram meu quarto para montar o berçário dele e jogaram minhas coisas no quarto de despejo, como se eu não fosse mais importante do que enfeite velho de Natal.

O quarto de despejo não tinha janela. No verão, eu era assada viva; no inverno, congelava até os ossos. Eu dormia em cima de um monte de roupas minhas, porque eles nunca se deram ao trabalho de me dar um cobertor.

No começo, eu odiava Levon por ter roubado eles de mim. Mas, com o tempo, o ódio apodreceu e virou algo mais triste. Você não perde aquilo que nunca foi realmente seu. E, conforme ele crescia, eu fui deixando de ser irmã e filha, e virando mais uma espécie de criada.

E agora...

Hoje era meu aniversário de dezoito anos.

Normalmente, aniversários não significavam nada pra mim. Mas hoje era diferente. Hoje à noite, sob a luz da lua, meu gene de loba adormecido ia despertar, e eu finalmente me tornaria uma lobisomem de verdade.

Melhor ainda: assim que eu fizesse a primeira transformação, poderia sair da casa de Ama, me mudar para a casa da matilha, arranjar trabalho na cidade humana vizinha e começar a juntar dinheiro para finalmente deixar Khragnir e conhecer o mundo.

Um pequeno sorriso secreto puxou o canto da minha boca. Esperei por este momento a vida inteira.

— Narine! — A voz estridente de Ama cortou as paredes do quarto de despejo. — São cinco da manhã, cacete! Mexe essa sua inutilidade!

Fechei os olhos e respirei fundo. Segura, Narine. Só mais algumas horas.

Me levantei, rígida, do meu monte de roupas e fui lá pra fora. Ela estava lá, apoiada no corrimão como uma rainha examinando a camponesazinha imunda.

— Desculpa, mãe — sussurrei. Não importava se eu estava certa ou errada. Desculpa era a única língua que ela entendia.

Ama torceu a boca num sorriso de desprezo.

— Desculpa? Tem mais é que se desculpar mesmo. Vivendo da nossa bondade todos esses anos. No mínimo, você podia trabalhar mais. É fim de semana.

Trabalhar mais? O que mais eu podia fazer que já não tivesse sido jogado nas minhas costas?

Engoli a raiva amarga que arranhava a minha garganta.

— Desculpa, mãe. Eu já vou começar o serviço.

Nada do que eu fizesse ia ser suficiente. Pra Ama, eu era um peso morto. Cerrei os punhos até os nós dos dedos tremerem. Respira fundo, Narine. Só mais algumas horas.

— Cai da minha frente. — Ama me dispensou descendo a escada toda cheia de si, como um pavão, o cabelo ruivo balançando a cada passo. Ama era uma mulher bonita, sem dúvida; com o rosto em forma de coração e aqueles olhos azuis marcantes, era uma pena a beleza dela ser manchada por um caráter tão podre.

Assim que ela saiu do caminho na escada, eu me apressei para passar. O quarto do Levon ficava no fim do corredor. Bati de leve, já sabendo que era melhor não acordar ele de qualquer jeito. Se ele tivesse um ataque de raiva, Ama e Vargos iam dar um jeito de fazer eu pagar por isso.

Depois de uma pausa, a porta se escancarou. Levon apareceu, o cabelo ruivo espetado em tufos selvagens.

— É cedo pra caralho, o que você quer? — ele rosnou.

— Desculpa, Levon. Vim pegar a sua roupa suja.

Ele soltou um gemido irritado e sumiu de volta no quarto. Reapareceu enfiando dois cestos cheios até a borda nos meus braços e bateu a porta na minha cara. Cerrei os dentes. Tinha se passado só seis dias desde a última vez que eu lavei a roupa dele, e de algum jeito ele conseguiu sujar coisa pra mais de um mês.

Soltei o ar com força, assoprando a franja pra longe do rosto, e me virei pra ir embora. Ouvi a porta abrir de novo, senti algo pesado acertar bem atrás da minha cabeça, e um grunhido escapou de mim sem eu querer. A porta se fechou de novo.

Peguei o edredom que ele tinha jogado no chão e arrastei os cestos escada abaixo. Ama agora estava convenientemente tomando a dose diária de café da manhã enquanto lia uma daquelas revistas de moda caríssimas na sala.

— A máquina de lavar quebrou.

Eu congelei.

— O quê?

— Quebrou ontem — ela murmurou, como se não fosse nada. — O Peter, lá da sede da matilha, pode consertar... mais tarde. Enquanto isso, leva a roupa lá pro recuo do rio e lava na mão.

Fiquei olhando pra ela, entorpecida. Ela estava falando sério. Claro que estava. Ama não brincava. Não quando o assunto era transformar minha vida num inferno. Não falei nada, mordendo o lado de dentro da bochecha com força até sentir gosto de sangue. Sem dizer uma palavra, larguei os cestos perto da escada e fui andando até a lavanderia pra pegar sabão.

— Ah, e pega a roupa do seu pai e a minha também — ela acrescentou, cheia de si. Xinguei por dentro e voltei pra cozinha pra pegar dois sacos de lixo grandes, que dessem pra enfiar aquelas pilhas de roupa.

Quando me virei, de algum jeito consegui tropeçar em mim mesma e me agarrei rápido na beirada do balcão de madeira pra não cair. Suspirei aliviada, mas durou pouco, porque ouvi um estrondo perto de mim. Olhei pro lado e percebi que eu tinha empurrado um prato que estava no balcão.

— É bom não ser o que eu tô pensando — ouvi a voz da Ama bem acima da minha cabeça.

Quando foi que ela chegou ali?

Ama veio contornando o balcão e arfou. Me puxei pra cima rápido, mas antes que eu conseguisse ficar totalmente de pé, a palma da mão dela acertou o meu rosto, me jogando pra trás, contra a geladeira. Senti a dor explodir na bochecha, e minha cabeça bateu na porta da geladeira com tanta força que eu vi estrelas por um momento.

As lágrimas brotaram dos meus olhos pelo susto e pela dor.

— Sua vadiazinha idiota! — ela gritou. — Aquele prato era vintage!

— Desculpa — eu sussurrei.

— Isso é tudo que você sabe falar. Desculpa! Desculpa! Desculpa! Desculpa não conserta a sua burrice! Garota inútil! Você não passa de uma enxaqueca!

Fiquei calada, deixando os insultos caírem em cima de mim até ela finalmente sair bufando. Enxuguei as lágrimas com as mãos trêmulas, juntei os cacos do prato e limpei a bagunça.

Depois, sem dizer mais nada, joguei os sacos pesados nas costas e cambaleei lá pra fora, seguindo pelo caminho comprido em direção à curva do rio, onde tinha menos chance de alguém me ver daquele jeito.

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