Capítulo 2 PRÓLOGO II

As lágrimas só pararam quando eu não tinha mais nada pra chorar. Só percebi que tinha chegado na curva do rio quando a clareira se abriu na minha frente. Sem perder tempo, me ajoelhei e comecei a separar as roupas em montes.

Eu não tinha muita coisa, só umas peças gastas que alguns membros do alojamento da matilha tinham me passado, então não podia me dar ao luxo de deixar tudo acumular. Nossa matilha era pequena, tinha mais ou menos duzentos membros. Eu sabia disso porque todo ano o Alfa Joe supervisionava o censo pessoalmente.

Mas a gente não era o único tipo de sobrenatural.

No topo da pirâmide estavam os Lycans, monstros de monstros, descendentes de sete linhagens antigas. Cada uma governava um reino diferente nos sete reinos, e no nosso reino, o alfa supremo de Khragnir era Sargis, justo e honrado, mas implacável e sem piedade. Pelo menos foi o que eu ouvi dizer. Ele vivia no palácio, e gente insignificante como eu não tinha o privilégio de conhecer o homem.

Já os lobisomens eram um erro híbrido. De acordo com a lenda, um rei Lycan se apaixonou por uma humana chamada Liyonerida. Ela foi a primeira da espécie dela a conquistar o coração de um Lycan, e também o primeiro amor proibido daquele tipo.

Contra todos os conselhos e rejeições, os dois conceberam uma criança. Infelizmente, por ser humana, ela não conseguiu levar uma gravidez sobrenatural até o fim. Foi a Grande Feiticeira Aeryna que interveio, induzindo o parto pra salvar o bebê, embora Liyonerida tenha morrido poucos dias depois, e o rei Lycan tenha se isolado do mundo.

Expulso e amaldiçoado, o menino cresceu sob os cuidados de Aeryna. Num golpe cruel do destino, mais tarde ele acabou se apaixonando por Aeryna, e dos descendentes deles nasceu a linhagem dos lobisomens, basicamente uma versão enfraquecida dos Lycans. A maldição de Aeryna distorceu a linhagem de sangue de forma que o gene ficasse adormecido durante a infância, só se manifestando completamente quando a maturidade chegava. Além de Lycans e lobisomens, havia outras criaturas também, mas nenhuma importava pra mim naquele momento.

Esfreguei as roupas com mais força, enquanto a raiva fervia no peito. Lembranças me açoitaram.

Maus-tratos. Abuso verbal. Insultos. Agressões físicas. Senti minhas veias pulsarem violentas, e uma dor aguda, cortante, incendiou minha testa como uma enxaqueca. Era tão intensa que achei que fosse desmaiar. Então, de repente, parou.

Quando voltei pra casa, o sol já se escondia atrás do horizonte.

Ouvi vozes lá dentro e, entre elas, a inconfundível voz do Alfa Joe. Confusa, empurrei a porta. Todas as cabeças à mesa de jantar se viraram pra mim.

— Alfa — murmurei.

— Estou esperando você a tarde inteira, Narine — ele disse.

— Desculpa, Alfa. Eu tava lavando roupa na curva do rio.

— Lavando roupa? — ele repetiu, intrigado.

— Ah, Joe — Ama se meteu, toda doce. — A Narine é uma neurótica da limpeza. Vive dizendo que a máquina de lavar não deixa as coisas realmente limpas.

Joe assentiu, compreendendo.

— Enfim — ele continuou —, eu estou aqui porque hoje é seu aniversário. É costume o Alfa abençoar você e pedir que o espírito de Aeryna te guie na sua transformação de homem pra fera.

Pisquei, atônita. O Alfa tinha lembrado do meu aniversário. Meus pais não.

— Obrigada, Alfa — sussurrei.

— Vem, senta. Você deve estar morrendo de fome — chamou Ama.

Eu hesitei, surpresa com a súbita demonstração de gentileza de Ama. Mas larguei as sacolas perto da porta e ocupei o lugar vazio ao lado de Levon. Eu nem lembrava a última vez que tinha me sentado ali.

Havia torradas, frango, camarão, panquecas, massa e frutas. Peguei só uma colher de massa.

— Ah, qual é, querida — a Ama cantarolou com uma voz melosa. — Não seja tímida. O Joe não se importa com um pouquinho de gula.

Joe riu, e eu forcei um sorriso tenso, fazendo o possível para não reagir ao insulto mal disfarçado. Menos de oito horas, eu lembrei a mim mesma. Eu aguentava esse tempo. E então enfiaria os dedos bem na cara metida dela.

— Você sempre teve essa marca na testa? — Joe perguntou de repente.

Levei a mão à testa, confusa.

— Que marca? — perguntei.

— Tem uma marquinha vermelha ali.

— Ah, deve ter sido quando eu trombei numa árvore voltando pra casa.

Joe assentiu, aceitando a explicação.

A conversa mudou de rumo. Vargos e Joe começaram a discutir assuntos da alcateia. Levon mexia no celular e Ama soltava um comentário aqui e ali. O jantar terminou em silêncio. Eu tirei os pratos da mesa e lavei a louça.

Olhei pela janela. O céu se abria, revelando uma lua cheia, tingida de vermelho escuro.

De repente, um calor explodiu debaixo da minha pele, e eu me dobrei ao meio, ofegante.

— Começou — Joe murmurou.

— Vá para o pátio — Vargos ordenou. A voz dele estava fria e distante, como se estivesse dando ordens a uma desconhecida. — Tire a roupa e lembre-se de respirar durante a dor.

Ele nunca tinha me maltratado diretamente, mas também nunca impediu que fizessem isso. A indiferença dele o tornava tão culpado quanto.

Ainda assim, eu obedeci.

Cambaleei para fora, enquanto os outros vinham atrás de mim. Nem cheguei ao centro antes de o primeiro grito rasgar a minha garganta. O ar uivava com o vento que aumentava. Nuvens de tempestade se juntaram, e relâmpagos riscaram o céu. Meus próprios gritos foram engolidos pelo rugido da tempestade enquanto a agonia me atravessava.

Então, a chuva despencou. Meus ossos quebraram e se alongaram dolorosamente devagar. Eu sentia minha coluna se retorcendo em ângulos estranhos. A dor era tão dilacerante que tudo que eu conseguia fazer era ficar ali, caída, enquanto as lágrimas escapavam dos meus olhos, impotente diante do sofrimento. Depois do que pareceu uma eternidade de gritos, a dor finalmente se dissipou, e eu fiquei ali deitada, arfando.

Me levantei, tropeçando em pernas desconhecidas, e observei, maravilhada, enquanto minha pelagem dourada cintilava sob a chuva, com tons de champanhe dançando pelo pelo liso. As pontas brilham em vermelho queimado, em contraste com o dourado de fundo.

Tudo estava mais nítido agora. Eu conseguia sentir cheiro, ver, ouvir e perceber mais do que jamais tinha conseguido.

Sons distantes. Cada folha, cada gota d’água. Eu via tudo. Uivei descontrolada para a lua vermelha. Depois me virei de volta para os outros, transbordando felicidade.

Em vez disso, eles estavam parados, imóveis, me encarando como se eu tivesse criado duas cabeças.

— Monstro — Ama sussurrou.

A boca de Levon ficou aberta. Joe e Vargos se aproximaram com cuidado, como se estivessem chegando perto de um animal selvagem.

Tentei dar um passo à frente, e todos recuaram num sobressalto.

— Que anomalia é essa? — Vargos murmurou.

— Aeryna te abandonou, menina — Joe sussurrou.

O pânico me inundou. O que tinha de errado? Por que eles estavam olhando pra mim daquele jeito?

Eu me virei e vi meu reflexo numa poça.

Meu sangue gelou.

Eu era enorme, mais alta até que o Vargos, que tinha quase dois metros. Mas não foi isso que me assustou. Na minha testa, havia um terceiro olho. A cavidade era negra como o vazio, e a íris brilhava em ouro derretido, enquanto meus olhos principais ardiam em vermelho.

Mal tive tempo de assimilar aquilo antes que a escuridão me engolisse por completo.

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