Capítulo 5 Procurando por ela
PONTO DE VISTA DE SARGIS
Belisquei a ponte do nariz, sentindo a pulsação lenta e latejante de uma dor de cabeça chegando. Ela vinha me incomodando desde a quinta visita de alcateia hoje. Eu não alimentava grandes esperanças de encontrá‑la, não, a realidade já tinha apagado há muito tempo aquele otimismo infantil, mas, apesar de mim mesmo, uma decepção oca ainda roía por dentro.
Encostei a testa no vidro frio da janela, deixando a paisagem se desfocar num borrão de céu laranja-acinzentado ao entardecer, galhos de árvores esqueléticos arranhando o firmamento e, de vez em quando, a luzinha distante de cabanas escondidas. O sol recuava e, com ele, a pouca esperança que me restava.
— Quantas alcateias faltam visitar, Lupercus? — perguntei, derrotado.
— Mais sete, Vossa Alteza Real — ele respondeu. — Aliás, já estamos chegando na próxima.
Resmunguei algo indistinto, obrigando meus membros pesados a se mexerem quando o carro parou suavemente. Antes que Lupercus pudesse sequer alcançar a maçaneta, empurrei a porta e desci para o ar fresco da noite.
No instante em que meus tênis trituraram a brita, eu parei.
Tinha alguma coisa... diferente aqui.
O ar era mais denso, quase vibrando contra a minha pele, perfumado de terra úmida e pinho. Uma energia inquieta despertou dentro de mim, se enroscando baixa no meu estômago.
— Por aqui, Majestade — murmurou Lupercus, indicando com a cabeça uma trilha sinuosa que se enfiava pelo meio das árvores densas.
Eu o segui em silêncio, embora não precisasse de guia quando podia muito bem usar meus próprios sentidos. As árvores se curvavam, baixas, como se se inclinassem em reverência, e pássaros cortavam os galhos, soltando chamados de aviso uns aos outros enquanto a gente avançava floresta adentro.
A clareira se abriu como um oásis secreto. Cabanas espalhadas, construídas meio no improviso com madeira velha e telhados remendados, pontilhavam o espaço. No centro, erguia‑se uma estrutura um pouco maior, desgastada, mas firme — a casa do alfa, a julgar pela aura que vinha dali.
Seguimos pela trilha de terra, e os poucos membros da alcateia que ainda vagavam por ali nos acompanharam com olhares curiosos. A confusão deles era palpável; para eles, eu era só mais um rosto escondido atrás de óculos de grife, máscara e roupa casual. Minha aura estava tão recolhida, tão comprimida, que nem mesmo os sentidos aguçados deles conseguiam registrar quem eu realmente era.
Ótimo.
Lobisomens em forma humana eram miseravelmente desatentos comparados a licantropos. Têm sentidos aprimorados, sim, mas sem os lobos na superfície, mal são mais atentos do que humanos comuns. Diferente de nós, que vivemos em equilíbrio perfeito — e agonizante — com as nossas feras.
Na porta do alfa, Lupercus bateu três vezes com os nós dos dedos, a postura aberta e pronta, caso algo inesperado acontecesse.
A porta se abriu rangendo, e um homem mais velho apareceu, cabelo loiro grosso, bem marcado de grisalho, uma barba áspera, sal e pimenta, e um corpo que denunciava uma força antiga, agora lentamente devorada pela acomodação. Os olhos azuis e afiados se arregalaram no instante em que pousaram em mim, apesar das camadas que eu usava para ocultar minha identidade. O reconhecimento acendeu no olhar dele.
Ele escancarou a porta na mesma hora, recuando para nos deixar entrar. Não era surpresa, na verdade, era o mínimo esperado. Todos os alfas do reino me conheciam.
Tinham que conhecer. A cada seis meses, sem falha, prestavam contas diretamente a mim, cara a cara.
— S‑Sua Alteza — gaguejou o homem.
Mal dei atenção a ele, minha paciência já pendia de um fio puído. Meu foco se desviou, vagando, indiferente, pelo cômodo apertado e lastimável. Fotos de família pendiam tortas nas paredes manchadas; alguns porta‑retratos estavam rachados, e algumas imagens dentro já tinham desbotado com o tempo. Um sofá surrado afundava no meio da sala, coberto de garrafas vazias de bebida barata e embalagens engorduradas.
O fedor pesado de cerveja velha, suor e coisa apodrecida pairava no ar como um manto sufocante.
Patético.
O dever antes nobre da liderança tinha sido reduzido a essa bagunça. Vergonhoso.
— S‑Sua Alteza, perdoe a desordem — Joe balbuciou, torcendo as mãos grossas enquanto se apressava em se explicar. — Eu sou Joe, alfa da Alcateia Snowwolf. Eu não estava esperando uma visita de alguém do seu calibre, assim, de repente. Além disso, eu não recebi nenhum decreto real informando...
Levantei a mão, cortando aquelas desculpas miseráveis. Eu simplesmente não tinha energia pra isso hoje.
— Não há necessidade de explicação — descartei, frio. — A minha presença aqui não é motivo para se preocupar... a menos que — deixei a palavra suspensa, pesada de aviso — você tenha alguns esqueletos escondidos no armário, Joe.
Falei o nome dele devagar, deliberadamente, enfatizando cada sílaba com uma ameaça silenciosa.
Joe empalideceu.
Arranquei a máscara e os óculos escuros, deixando que ele visse meu rosto, que visse o predador à espreita logo abaixo da fachada civilizada.
Ele cambaleou um passo para trás, quase tropeçando nos próprios pés.
— C‑c‑claro que não, Supremo Alfa! — ele gaguejou, tremendo visivelmente. — Eu só... fui pego de surpresa. Perdoe a minha insolência.
— Hmmmm — eu murmurei, nada convencido, enquanto meu olhar continuava a varrer o cômodo com desdém aberto.
Como qualquer alfa que se respeitasse podia viver assim? Como ele podia permitir que o povo dele vivesse assim? Mas isso ficaria para outro dia.
— Me diga, Joe — arrastei o nome dele de propósito, só para ver como se contorcia —, quantas fêmeas sem par você tem na sua matilha?
Joe passou as palmas suadas na frente da camisa amarrotada.
— Alfa Supremo — ele guinchou —, nós somos apenas uma matilha de duzentos e vinte. Oitenta são anciãos casados, vinte são crianças abaixo de dezoito anos, trinta jovens com par acima de dezoito, e vinte e cinco...
Eu cortei o ar com a mão, em um gesto seco.
— Parece que sua capacidade de compreensão é abaixo da média se você não consegue decifrar nem uma pergunta simples — rosnei entre os dentes. — Eu pedi um relatório?
A boca de Joe abriu e fechou como a de um peixe agonizando fora d’água.
— Vá direto ao ponto — concluí, gelado.
— C-Claro, Alfa Supremo — ele gaguejou. — Existem... umas quarenta fêmeas sem par.
— Onde elas estão?
— A-Aalgumas estão no alojamento geral da matilha, o prédio atrás deste aqui. Outras estão com os pais, em residências particulares — respondeu rápido.
— Convoque todas — ordenei, sem deixar espaço para discussão na minha voz. — Faça com que se reúnam na clareira.
— Com licença, Supremo... — Joe começou, mas as palavras morreram na língua dele quando virei todo o meu olhar em cima dele.
— Não — rosnhei. — Você não tem licença, Joe.
Deixei minha fera chegar à superfície só o suficiente para meus olhos escurecerem até virarem poços negros sem fim. A temperatura do ambiente pareceu despencar na hora, o próprio ar tremendo com o peso do meu poder contido.
Os joelhos de Joe claramente cederam, e ele soltou um engasgo lastimável, cada instinto que tinha gritando para que se submetesse.
— Sua palavra é lei, Alfa Supremo — ele crocitou, abaixando a cabeça profundamente. — P-Por favor, sente-se enquanto eu cumpro sua ordem.
Lancei outro olhar de nojo para o sofá imundo e fiz uma careta de desprezo.
— Prefiro não — respondi simplesmente, o lábio se curvando em desdém.
Joe balançou a cabeça depressa, ansioso para agradar, antes de cambalear em direção à porta como um homem fugindo do cadafalso.
— Joe — chamei, preguiçoso, justo quando a mão dele tocou a maçaneta.
Ele congelou.
— Minha presença aqui é confidencial. Lide com isso de forma discreta e inteligente. Ou haverá consequências.
Ele assentiu tão rápido que era um milagre a cabeça não ter se soltado do pescoço.
E, dito isso, Joe disparou para fora da casa, batendo a porta atrás de si.
Apertei a ponte do nariz, tentando — e falhando — massagear a dor de cabeça martelando atrás dos olhos. Normalmente, eu me orgulhava do meu autocontrole. Mas hoje à noite? Hoje à noite a frustração fervia logo abaixo da minha pele, ameaçando transbordar.
Eu não tinha a menor disposição para aguentar mais palhaçadas, nem de Joe nem de mais ninguém.
— Lupercus — chamei, me virando para onde ele permanecia encostado na parede descascada, silencioso como um sentinela discreto.
— Alteza — ele respondeu na mesma hora.
— Você pode ficar aqui — avisei, já me movendo em direção à porta. — Vou achar um lugar de onde eu possa observar em silêncio.
Sem esperar resposta, confiei que ele entenderia. Recoloquei a máscara no rosto e ajeitei os óculos escuros, ocultando minhas feições outra vez.
O cheiro de mofo e ar velho grudava em mim como uma segunda pele indesejada quando saí para a noite. Retracei meus passos pela clareira em silêncio. A noite me acolheu, e as sombras me engoliram por completo quando me infiltrei na linha das árvores, nas partes mais fundas da mata. Era quase fácil demais desaparecer sob o disfarce da escuridão. Mesmo que alguém estivesse vigiando, não teria visto mais do que um sussurro de movimento.
Examinei a floresta ao redor com cuidado, deixando o instinto me guiar até que meu olhar pousou em um carvalho enorme erguido com imponência bem no meio do bosque. Ele se erguia acima dos outros, galhos grossos se abrindo como um trono natural suspenso no céu.
Perfeito.
Sem hesitar, saltei, agarrando o galho mais próximo com facilidade. Fui subindo, músculos se contraindo e relaxando a cada movimento, até achar um ponto perto do topo, escondido pela copa densa, mas com um campo de visão perfeito da clareira.
O vento sussurrava pelas folhas, fresco e constante, trazendo o cheiro limpo de terra úmida e pinho. Inspirei fundo, fechando os olhos por um instante.
A lua pairava pesada e luminosa acima, banhando tudo em um brilho prateado suave. De lá de cima, era bonito, quase de partir o coração.
Será que ela está olhando para a mesma lua?, perguntei em silêncio, uma nostalgia rara atravessando meu peito. Ou será que está em outro lugar qualquer, em outro fuso horário, sem a menor ideia de que o par dela está destruindo reinos atrás dela?
