Capítulo 1
Ponto de vista de Lyra
Na noite em que recuperei a audição, descobri o caso do meu namorado com a minha melhor amiga.
Vinte minutos antes, eu estava sentada diante da minha penteadeira, esperando Kael voltar, mas, conforme o relógio sobre a lareira avançava para além da meia-noite, a porta do apartamento ainda não dava sinal de que iria se abrir.
De repente, o uivo do vento chegou aos meus ouvidos.
Eu mal conseguia acreditar no que estava escutando — depois de perder completamente a audição três anos atrás, por causa de um envenenamento acidental durante um golpe sangrento, eu jamais imaginei que a Deusa da Lua me abençoaria outra vez e devolveria essa capacidade.
Abri a boca com hesitação, falando num fio de voz, e só quando ouvi o som límpido da minha própria voz é que despertei de verdade desse estado de sonho.
Eu conseguia ouvir!
Mal podia esperar para ligar para Kael e dividir esse milagre com ele.
Então ouvi passos do lado de fora da porta — os passos dele — e a alegria inundou meu corpo inteiro.
Eu me preparei para surpreendê-lo, para recebê-lo com aquela notícia inacreditável.
Caminhei até a porta, meus pés descalços silenciosos no assoalho de madeira, estendendo a mão para pegar a maçaneta, quando as vozes do lado de fora me fizeram congelar — baixas, íntimas, e ele não estava sozinho.
— Ela está dormindo — disse Kael, a voz carregada de uma ternura que ele nunca usara comigo. — Coloquei o pó no leite dela hoje à tarde. Ela não vai acordar até o amanhecer.
— Ótimo. — Uma segunda voz respondeu, uma que eu reconheci — Mira, minha única amiga, a freira que sempre falava com palavras gentis.
— Não podemos correr o risco de ela nos ouvir, Kael.
— Ela é surda, Mira, não cega — ele disse, e o deboche no tom dele fez meu estômago revirar.
Mira riu, um som como sinos de prata se estilhaçando no gelo.
— Ela é tão miserável. Dois abortos espontâneos, e ainda não sabe o que realmente aconteceu com os filhos dela.
Aquelas palavras se cravaram nos meus ossos, quase fazendo minhas pernas cederem.
Aquelas duas vezes em que eu senti a vida se mexendo dentro de mim, só para tudo terminar em poças de sangue.
Na época, os curandeiros tinham dito que era por causa da minha linhagem fraca, e Kael me tinha abraçado, dizendo que não era culpa minha, que da próxima vez seria diferente.
— O boticário disse que mais uma transferência deve resolver — continuou Mira, e o farfalhar de roupas acompanhou suas palavras. — Mais um dos filhos dela como catalisador, e eu vou conseguir conceber o nosso filho.
Dentro de mim, minha loba, Selah, despertou, um rosnado baixo reverberando pelos meus ossos.
Ela se atirou contra a minha caixa torácica, tomada de fúria, uivando para dilacerar a mulher que tinha roubado a vida dos nossos filhos.
Apertei a palma da mão contra a porta, cada músculo travado, resistindo ao desejo de Selah de se transformar.
Ainda não, não é a hora!
— Precisamos engravidá-la de novo — disse Kael, a voz cheia de cálculo.
— Você não se apaixonou por ela de verdade, apaixonou? — disse Mira, com aquele tom melodioso e coqueto, o tipo de voz capaz de transformar os ossos de um homem em gelatina — uma que eu nunca aprendi a usar.
— Como é que eu poderia? — A certeza dele foi como uma faca deslizando entre as minhas costelas.
— Mas você sabe o quanto aqueles velhos idiotas dão valor às linhagens — Kael reclamou, com certa irritação.
— Quando você curar sua infertilidade com sucesso, eu vou declarar você a verdadeira Luna de Red Fang. Quanto a ela... depois que der à luz o próximo, a utilidade dela acaba ali.
Selah uivava dentro de mim, batendo contra a minha consciência com uma força tão violenta que eu mordi o próprio lábio até rasgar e sentir o gosto de sangue.
Ela queria que eu saísse lá, queria que eles soubessem exatamente que linhagem eu carregava.
Mas eu a contive.
Deixá-los morrer rápido demais seria uma misericórdia — eles mereciam um fim muito mais miserável.
Os sons do lado de fora mudaram quando Kael pressionou Mira contra a nossa porta, a mesma porta atrás da qual eu estava.
“Aqui mesmo?”, a voz de Mira veio entre arfadas. “E se a droga não for forte o bastante e ela acordar de repente e sentir o nosso cheiro?”
“Relaxa, o Nightfall que eu venho dando pra ela tem suprimido a loba. Ela não consegue sentir cheiro de nada”, disse Kael, as palavras dele borradas pelos sons úmidos de lábios e línguas.
“Mesmo que a gente rolasse na cama dela, ela não ia perceber.”
Nightfall.
As palavras dele despedaçaram meu coração por completo — era um supressor que deixava lobisomens dóceis, anestesiando os sentidos, aprisionando a fera por dentro. Ele vinha me envenenando o tempo todo.
Isso explicava por que Selah parecia tão distante nesses três anos, por que meus instintos lupinos tinham ficado tão embotados.
Os sons se intensificaram, inconfundíveis — sons de cópula — e eu fiquei ali ouvindo meu suposto companheiro transar com minha suposta amiga, separados apenas por uma folha de porta que nos dividia.
Eu queria ir embora, mas minhas pernas pareciam congeladas no lugar, incapazes de se mover. Alguma parte masoquista de mim precisava ouvir tudo aquilo, precisava que essa dor ficasse crua e sangrenta, virasse algo que eu não pudesse evitar.
“Kael, me diz”, Mira arfou, “quem te faz se sentir melhor? Eu ou ela?”
“Você, sempre você. Ela é tão sem graça na cama quanto um cadáver, Mira. Sem fogo, sem paixão. Metade das vezes eu tenho que ficar bêbado só pra aguentar.”
A voz dele estava cheia de nojo e deboche.
Alguma coisa dentro de mim se abriu em rachaduras — não meu coração dessa vez, mas algo mais fundo... algo ligado à pessoa que eu tentei me tornar.
A garota que fugiu do palácio do pai, abandonou seu direito de nascença e sua linhagem, achando que ficar pequena e segura e comum traria felicidade.
Essa garota morreu no instante em que o companheiro dela copulou com a amante encostado na folha da porta.
Quando a porta enfim parou de tremer, eu recuperei a consciência.
Meus membros já não pareciam pertencer a mim enquanto eu voltava ao quarto e me sentava na nossa cama, encarando minhas mãos trêmulas.
No espelho havia alguém que eu mal reconhecia — trilhas de lágrimas cortando a maquiagem, olhos âmbar endurecidos, frios.
Limpei as órbitas avermelhadas e enterrei o rosto no travesseiro.
O luar prateava o assoalho de madeira enquanto eu permanecia em silêncio na escuridão, deixando o frio penetrar até a medula.
Cinco anos atrás, o decreto frio e implacável do meu pai, o peso de uma coroa que eu nunca quis, as algemas de um acordo de casamento feito quando eu não desejava nada além de liberdade — tudo isso me levou a fugir da alcateia Silver Moon.
Eu tinha dezoito anos naquele ano, de pé no escritório do meu pai, ouvindo-o dizer as palavras que despedaçariam o meu mundo.
“Lyra, você vai se casar com Orion Blackwood.”
Não era pergunta, não era discussão, mas uma sentença tão absoluta e incontestável quanto a própria lei da alcateia.
Orion, o Rei Alfa do Território do Norte, o homem que eu observava de longe nos encontros das alcateias desde que eu tinha dez anos, cuja presença irradiava uma dominância tão esmagadora que até meu pai baixava o olhar...
