Capítulo 6

Ponto de vista de Lyra

Eu estava prestes a guardar os formulários quando meu telefone tocou — um número desconhecido piscando na tela.

Quando atendi, ouvi uma voz que nunca achei que ouviria de novo: Rowan, minha amiga do território Silver Moon.

"Lyra? É você mesmo?" A voz dela carregava a mesma animação ofegante de quando costumávamos correr juntas pelo distrito industrial. "Ouvi dizer que você está voltando para casa! Não acredito. Você tem ideia do quanto senti sua falta? Por que você nunca entrou em contato comigo?"

A pergunta carregava cinco anos de mágoa, e talvez eu merecesse cada pedaço dela. Quando eu fugi cinco anos atrás, troquei de número, apaguei minhas contas e desapareci do mundo de Rowan sem sequer um adeus. E, ainda assim, ali estava ela, ligando como se nenhum tempo tivesse passado, como se eu nunca tivesse abandonado nossa amizade.

"Desculpa", eu disse, e falava sério. "Eu não podia correr o risco de alguém saber onde eu estava. Meu pai..." Parei, sem querer explicar a bagunça daquele casamento arranjado. "Sinto muito mesmo, Rowan. Eu senti sua falta também."

"Bom, eu te perdoo se você prometer vir correr comigo", ela disse, e eu podia sentir o sorriso dela através do telefone. "Tem uma corrida recorde amanhã à noite. Quero ver se você enferrujou."

O convite me provocou um arrepio — expectativa misturada com uma animação genuína.

As corridas recorde eram competições clandestinas de motocicleta com um sistema de pontos em que os pilotos acumulavam pontuação ao longo da temporada, e quem terminasse com a maior pontuação era coroado Rei Ton Up. "Não sei se ainda consigo..." comecei, mas, antes mesmo de terminar, eu já sabia que diria sim, porque eu precisava disso como precisava de ar.

Por três anos, eu tinha vivido em silêncio e obediência, negando cada parte de mim mesma que Kael desaprovava.

E, de repente, eu podia voltar a ser eu mesma — a verdadeira Lyra Everthorn, não a companheira decepcionante de Kael.

"Vamos", Rowan insistiu. "A corrida vai ser no Monarch's, aquele lugar ridiculamente caro onde seu pai costumava nos levar para discutir negócios importantes. O clube inteiro vai estar lá. Eles vão ficar tão felizes de te ver de novo. Além disso, eu preciso de alguém para me fazer parecer incrível na frente dos novos membros."

O tom dela era de falsa arrogância, mas eu conseguia ouvir a esperança mal disfarçada por baixo.

"Tá bem", eu disse, formando algo próximo de um sorriso pela primeira vez em dias. "Eu vou."


Na noite seguinte, Kael ainda não tinha voltado, mas isso me servia perfeitamente.

Fui de moto, pegando as ruas por baixo em vez da rodovia, sentindo mais uma vez o motor vibrar entre minhas pernas. Quando entrei no estacionamento do Monarch's, eu estava sorrindo dentro do capacete.

O café era exatamente como eu lembrava — latão em estilo Art Déco e vidro geométrico, o tipo de lugar onde uma única xícara de café custava mais do que a refeição da maioria das pessoas. Fiquei observando o local brilhar na noite, com as motocicletas alinhadas do lado de fora, e meu peito doeu de nostalgia, misturada a uma empolgação que eu não conseguia exatamente pôr em palavras.

Os membros do clube já tinham se reunido. Reconheci a maioria dos rostos dos meus tempos em Silver Moon e, quando me viram, explodiram em comemorações, me puxando para abraços, dando tapinhas nas minhas costas e perguntando por onde diabos eu tinha andado.

Naquele momento, eu me esqueci de Kael, me esqueci de Mira, me esqueci de tudo o que me esperava naquele apartamento frio.

Havia também alguns rostos novos — pilotos mais jovens que me encaravam com olhos céticos, claramente se perguntando quem era aquela estranha e por que todo mundo estava fazendo tanto alarde. Vi quando trocaram olhares, avaliando minha moto e meu equipamento, aparentemente concluindo que eu não estava exatamente à altura.

Uma competitividade que eu achava adormecida havia muito tempo subiu de repente pela minha garganta.

— Quem é essa? — perguntou um garoto de uns vinte anos, montado numa Kawasaki novinha em folha que ainda estava com a placa da concessionária.

— Lyra Everthorn — disse Rowan, passando um braço pelos meus ombros, com orgulho na voz. — Ex-campeã do clube, a única pessoa que já bateu meu tempo de volta no circuito do cais. A velocidade dela é algo que você nem consegue imaginar.

As palavras dela espalharam um calor por dentro de mim que eu não sentia uma única vez em três anos na Red Fang — uma sensação de pertencimento. Aqui, eu não era a companheira decepcionante que não conseguia ter filhos, não era a estranha que não se encaixava.

O formato da corrida era simples: você colocava uma moeda de vinte e cinco centavos na jukebox e, quando a música começava, você largava. O primeiro a completar o circuito e voltar vencia. Coloquei meus vinte e cinco centavos e escolhi uma música com a qual eu já tinha corrido centenas de vezes. Quando os acordes de abertura ribombaram nos alto-falantes do lado de fora, soltei a embreagem e senti a moto disparar para a frente, como se ela também estivesse esperando por aquele momento havia três anos.

A cidade virou um borrão diante de mim.

Ziguezagueei pelas ruas, inclinando tanto nas curvas que meus joelhos quase rasparam no asfalto, enquanto a memória muscular me guiava pelo trânsito da madrugada. O vento rasgava minha jaqueta, meu cabelo chicoteando dentro do capacete.

Pela primeira vez desde que descobri o caso de Kael com Mira, eu senti algo além de raiva, luto e ódio gelado.

Liberdade.

Quando voltei para o estacionamento do Monarch, eu só tinha sido superada por um piloto numa Ducati Panigale — alguém que claramente vinha correndo profissionalmente havia anos. Os antigos membros do clube ainda me cercaram, gritando parabéns como se eu já tivesse vencido. Até os estranhos que tinham desconfiado de mim no começo assentiram com respeito.

— Nada mal para alguém que não corre há três anos — disse Rowan, tirando o capacete e sacudindo o cabelo, enquanto passava um braço pelos meus ombros. — Pelo menos você ainda lembra como se brinca.

No segundo seguinte, a expressão dela mudou, a empolgação transbordando quando ela apontou para a janela do canto do café. — Meu Deus! Lyra, aquele é o Orion Blackwood? O que ele está fazendo aqui? Eu juro que ele está olhando pra cá.

O nome me fez congelar, e eu me virei por instinto.

Meu olhar atravessou o vidro, passou pela iluminação fraca e pelas figuras desfocadas, e então parou no canto do café.

Eu cruzei o olhar com alguém.

Olhos que eu só tinha visto muito tempo atrás, e ainda assim nunca esqueci — quando eu era pequena, de pé atrás de fileiras solenes de membros da matilha, olhando para cima com algo perto de reverência, captando um vislumbre distante dele.

Mas agora, aqueles olhos estavam olhando para mim. Através do vidro, através de nove metros de noite e ar, o olhar dele caiu sobre mim, direto e inabalável.

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