Capítulo 2
POV da Eileen
Eu não pensei. Não conseguia pensar. Minhas pernas já estavam se mexendo antes de o cérebro acompanhar, me levando para além do motorista assustado e atravessando aqueles portões enormes de ferro.
— Senhorita Goode! Espere — suas malas —
A voz dele foi ficando para trás enquanto eu corria. O cascalho estalava sob meus pés — de verdade, firme, aqui. Meu coração batia com força contra as costelas, e eu sentia as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, quentes e descontroladas. Nem me dei ao trabalho de enxugá-las.
Silas estava vivo. Ele estava vivo. Era o único pensamento que meu cérebro conseguia processar.
A alameda se estendia à minha frente, ladeada por aqueles carvalhos antigos de que eu me lembrava tão bem. Na minha primeira vida, eu mal tinha olhado para eles. Ocupada demais pensando no Derek, em como era injusto eu ter que me casar com um Alfa aleijado que eu nunca tinha conhecido.
Meu Deus, eu tinha sido uma idiota.
A mansão surgiu à vista — aquela estrutura vitoriana gigantesca, no alto do penhasco, toda de pedra escura e janelas imensas. Parecia exatamente a mesma. Claro que parecia. Era o mesmo dia. A mesma manhã.
Minhas pernas ardiam. Meus pulmões gritavam. Eu não diminui.
As portas da frente estavam abertas — alguém devia ter me ouvido chegando — e eu atravessei sem parar, o meu vestido branco ondulando em volta das minhas pernas.
— Senhorita, a senhora não pode simplesmente—
A voz chocada de uma empregada. Eu ignorei, os olhos vasculhando o enorme hall de entrada, desesperados. Onde ele estava? Onde—
Ali.
O ar ficou preso na minha garganta com tanta força que doeu.
Silas estava sentado na cadeira de rodas perto da lareira, falando baixo com um homem alto que eu reconheci como Gavin, seu Beta. A luz da manhã entrando pelas janelas pegava no cabelo escuro dele, fazendo parecer quase azul-negro. Ele vestia uma camisa preta simples, com as mangas dobradas até os cotovelos, e mesmo do outro lado do salão eu conseguia ver os músculos marcados nos antebraços.
Um soluço rasgou a minha garganta antes que eu conseguisse impedir.
Os dois viraram a cabeça na minha direção num estalo. A mão de Gavin foi para a lateral do corpo — provavelmente para uma arma — mas eu não me importei. Eu já estava me mexendo, correndo pelo piso de mármore polido, os saltos batendo apressados.
— Você está vivo — eu engasguei, com as lágrimas embaçando minha visão. — Meu Deus, você está vivo, você está—
Eu me choquei contra ele antes que alguém pudesse me impedir, erguendo as mãos para segurar o rosto dele. A pele dele estava quente sob as minhas palmas. Quente. Real. Aqui.
— Graças a Deus — eu sussurrei, com a voz falhando. — Graças a Deus, graças a Deus, você está vivo—
O corpo inteiro dele ficou rígido sob o meu toque. Eu sentia a tensão no maxilar, via o choque naqueles olhos cinza de tempestade enquanto ele me encarava de baixo para cima.
Então ele falou, a voz baixa, controlada e completamente, totalmente calma:
— Quem é você?
As palavras me atingiram como um banho de água gelada.
O hall inteiro ficou em silêncio. Eu sentia todo mundo me encarando — Gavin, as empregadas, provavelmente metade dos funcionários da mansão. Mas tudo o que eu conseguia ver era o rosto de Silas, aqueles olhos cinzentos lindos olhando para mim como se eu fosse uma desconhecida.
— Eu… — minha voz saiu rouca. Eu tentei engolir, mas minha garganta tinha se fechado. — Eu sou—
— Dê um passo para trás, por favor. — A mão de Gavin se fechou no meu braço, firme, mas sem brutalidade. — Senhorita, eu preciso que a senhora—
— Não! — A palavra explodiu de mim, afiada e desesperada. Eu me soltei de Gavin, cambaleando para trás. Minhas mãos tremiam tanto que eu tive que entrelaçar os dedos. — Desculpa, eu só… eu só estava…
Todo mundo estava me olhando. As empregadas tinham parado de fingir que trabalhavam. Nem Silas tinha se mexido, as mãos ainda agarrando os apoios da cadeira de rodas, a expressão indecifrável.
Eu parecia uma doida. Uma completa maluca que tinha invadido a casa de um estranho chorando por estar feliz que ele estava vivo.
Mas eu não conseguia explicar. Não conseguia dizer para ele que existia outra vida em que eu o traía e morria.
— Me desculpa — eu consegui dizer, forçando as palavras a passarem pelo nó na garganta. — Eu só… eu só estou tão feliz que você está vivo. Que você está aqui. Que você está—
Eu parei. Isso não ajudava. Se é que era possível, todo mundo parecia ainda mais preocupado agora.
Respira fundo. Vamos, Eileen. Se controla.
— Eu sou Eileen Goode — eu disse, a voz ainda trêmula, mas mais clara. — Da família Nightveil. Eu vim para… para cumprir o contrato de casamento.
No instante em que as palavras saíram da minha boca, alguma coisa mudou na expressão de Silas. Não foi muito — só um leve apertar ao redor dos olhos, um endireitar quase imperceptível dos ombros.
Aí o rosto dele ficou completamente vazio.
— Entendo. — A voz dele saiu reta, sem emoção. — Se você não quer levar isso adiante, pode ir embora agora. A gente pode pedir pra sua família mandar outra pessoa.
As palavras eram quase exatamente o que ele tinha dito na minha primeira vida. Palavra por palavra. E eu me lembrei — meu Deus, eu me lembrei — de como eu tinha reagido. De como eu tinha ficado ali, pensando no Derek, em como tudo aquilo era injusto, em como eu estava sendo forçada a me casar com esse Alfa frio, aleijado, que eu nem conhecia.
De como eu tinha sussurrado, por entre os dentes, alto o suficiente pra criada mais próxima ouvir:
— Por que tem que ser eu?
A lembrança me deu vontade de vomitar.
— Não. — A palavra saiu mais forte do que eu esperava. — Eu vim aqui pra ajudar você. Pra... pra fazer o que você precisar. O que você quiser alcançar. Eu não vou embora.
Pela primeira vez desde que eu tinha invadido o salão, Silas de fato olhou pra mim. Olhou de verdade. Aqueles olhos cinzentos percorreram meu rosto, percebendo as lágrimas, a bagunça que eu tinha feito de mim mesma, provavelmente tentando entender se eu era louca ou só incrivelmente idiota.
Eu vi o exato instante em que ele decidiu que eu era, provavelmente, as duas coisas.
— Levem a senhorita Goode até o quarto dela — ele disse, ainda me encarando.
Uma mulher de aparência severa, na casa dos cinquenta, avançou de onde estava parada, pairando perto da porta.
Dona Martha.
Eu conhecia aquele rosto. Conhecia muito, muito bem.
— Claro, Alfa Keaton. — A voz de Dona Martha era objetiva e profissional. Ela se virou pra mim, e a expressão dela mudou para algo que talvez passasse por educado, se você apertasse os olhos. — Por aqui, senhorita Goode.
Eu não queria ir embora. Todo instinto no meu corpo gritava pra eu ficar perto do Silas, pra garantir que ele era real, que isso não era um sonho cruel do qual eu ia acordar.
Mas eu também sabia que já tinha feito cena o suficiente. Então eu assenti, enxugando o rosto mais uma vez, e me virei pra seguir Dona Martha.
Eu tinha dado três passos quando não consegui me segurar. Olhei pra trás.
Silas estava me observando. A expressão dele ainda era indecifrável, mas ele estava olhando.
Eu sorri pra ele. Devia ter ficado patético — meu rosto ainda estava molhado, meus olhos, sem dúvida, vermelhos e inchados —, mas eu sorri mesmo assim.
Então eu me virei e segui Dona Martha para fora do salão.
O caminho até o meu quarto deveria ter sido familiar. Eu tinha feito aquele trajeto incontáveis vezes na minha primeira vida. Mas Dona Martha pegou uma rota diferente, me levando por uma sequência de corredores que eu não reconheci até a gente surgir aos pés de uma escadaria longa.
Onde minhas malas ainda estavam. As três malas enormes.
Dona Martha parou e se virou pra mim com aquela mesma expressão profissionalmente vazia.
— Seus pertences foram deixados aqui pelas criadas, senhorita Goode. — Ela apontou para as malas. — Mas receio que a senhorita vai precisar levá-los pra cima sozinha. Os funcionários estão todos bem ocupados com as tarefas de rotina.
Eu encarei as malas. Depois encarei Dona Martha. Depois voltei a encarar as malas.
Na minha primeira vida, ela tinha feito exatamente a mesma coisa. Usado exatamente as mesmas palavras. E eu tinha me arrastado com aquelas malas pesadas por dois lances de escada enquanto ela assistia, “sem querer” trombando em mim com força o bastante pra eu derrubar uma, e então soltando um “desculpa” gelado sem me ajudar a pegar nada.
Eu tinha sido humilhada. Exausta. Tinha ido pro meu quarto e chorado no travesseiro por uma hora.
Mas isso foi naquela época.
Eu olhei pra Dona Martha — olhei de verdade. Vi o desafio no olhar dela, o leve curvar de satisfação no canto da boca. Ela achava que estava me colocando no meu lugar. Mostrando que eu podia até estar prestes a me casar com o Alfa, mas não era bem-vinda ali.
Ela não fazia ideia com quem estava mexendo.
Desta vez, eu sabia. Eu sabia de tudo.
E eu não ia deixar nenhum deles vencer.
Eu ia salvar Silas. Eu ia proteger ele de todo mundo que queria ver ele morto.
E eu ia fazer cada pessoa que tinha machucado a gente pagar.
