Capítulo 5
Ponto de vista de Rowena
Uma hora depois, eu via a propriedade dos Varkos desaparecer no retrovisor lateral.
Velvet estava sentada ao meu lado em silêncio, as mãos dobradas no colo. Grace tinha ficado para trás, mantendo as aparências, tocando os afazeres comuns do dia para que ninguém pensasse em perguntar aonde eu tinha ido. Para a matilha, eu estava resolvendo coisas na rua.
Ninguém imaginaria que eu estava a caminho de ver Celeste.
“Você vai mesmo fazer isso”, disse Kyra, com um toque de orgulho na voz.
“Vou.”
“Muito bem.” Ela fez uma pausa. “Mas o que exatamente a Celeste vai fazer? Kaelen é um Alfa. Ele tem prestígio, mesmo que sua mãe tenha ajudado a construir isso. Celeste também não é uma Alfa e não pode enfrentar alguém como Kaelen, mesmo que ela comandasse metade dos assuntos do estado.”
“Não importa. Celeste tem mais prestígio do que Kaelen jamais vai ter.”
Kyra se calou, ponderando aquilo. Eu sabia que ela não entendia o que eu queria dizer com aquelas palavras, mas um dia entenderia.
A cidade passava pela janela em riscos de luz.
Mantive os olhos nisso e me permiti pensar com clareza pela primeira vez desde a manhã. Não na humilhação na sala de estar, não no vestido rasgado ainda dobrado no fundo do meu guarda-roupa, não na fúria fria nos olhos de Kaelen quando ele finalmente foi embora.
Era sobre o que vinha depois.
O problema não era o orgulho de Kaelen. Orgulho dava para esperar passar, contornar, e, com o tempo, tornar irrelevante. O problema era estrutural. Ele era um Alfa. Aos olhos da lei da matilha, ele tinha autoridade sobre esse casamento, sobre mim, sobre toda decisão que caísse dentro das fronteiras de Moonreign. Sem uma autoridade externa disposta a se sobrepor a ele, um divórcio nos meus termos era impossível.
Havia apenas uma autoridade na região que estava acima de um Alfa.
Era o Rei Alfa.
Eu vinha evitando esse pensamento específico havia três anos, do jeito que a gente evita apertar um hematoma — não porque ele não esteja ali, mas porque você ainda não está pronta para lidar com o que ele significa.
Mas agora eu estava pronta. Era hora de tomar meu destino nas próprias mãos.
O prédio de Celeste se ergueu no horizonte da cidade do mesmo modo que ela ocupava qualquer cômodo em que entrasse: com discrição, sem precisar se anunciar. A residência particular dela era separada dos escritórios formais, o que significava que a visita não ficaria registrada em nenhum documento oficial. Eu tinha ligado antes, então ela provavelmente já estaria esperando.
Como eu esperava, ela nos encontrou no elevador, não na porta — o que significava que vinha observando a rua.
Ela me olhou uma vez, como sempre fazia, avaliando tudo num único varrido.
“Você parece que teve um dia daqueles”, disse ela, um sorrisinho atravessando seus traços perfeitos.
“Eu tive um dia daqueles”, concordei, com um leve aceno.
Ela deu um passo para trás para me deixar entrar.
O apartamento era quente e silencioso, cada superfície limpa e luxuosa. Celeste nunca tinha sido do tipo que guarda coisas de que não precisa. Velvet ficou perto da entrada, respeitosa, enquanto nós nos sentávamos na sala de estar de Celeste.
Ela serviu chá sem perguntar e colocou uma xícara na minha frente, e nós nos sentamos uma de frente para a outra.
Ela esperou, paciente.
Essa era uma das coisas que eu sempre respeitei nela. Celeste nunca preenchia o silêncio só para preenchê-lo.
— Kaelen foi ao meu quarto hoje à noite — eu disse, mantendo a voz firme. — Ele não estava tentando se desculpar.
Algo mudou na expressão de Celeste. Ainda controlada, mas a temperatura por trás dos olhos dela caiu vários graus.
— Quão ruim? — ela perguntou.
— Eu já resolvi. — Envolvi a xícara com as duas mãos. — Velvet ameaçou chamar os anciãos, depois desistiu. — Fiz uma pausa. — Mas vai acontecer de novo se eu ficar. Ele decidiu que eu não vou embora, e essa convicção só vai piorar as coisas.
Celeste pousou a própria xícara com muito cuidado.
— Eu quero o divórcio — eu disse. — Nos meus termos. Não porque ele concedeu por culpa ou conveniência, mas porque foi formalmente dissolvido por alguém com autoridade para fazer isso valer. — Sustentei o olhar dela com firmeza ao acrescentar as últimas palavras. — Eu quero ir ao Rei Alfa.
O silêncio que se seguiu era de outro tipo; não era vazio, e sim cheio de Celeste pensando a toda velocidade.
— Alaric — ela disse, por fim.
— Sim — respondi.
— Você sabe que isso não vai ser simples. Pedir ao Rei Alfa que dissolva um casamento de alcateia significa seguir os canais formais. Significa que Kaelen fica sabendo imediatamente. Significa que isso vira uma questão política, não apenas pessoal, Ro.
— Eu sei.
— E você sabe que o Alaric... — ela fez uma pausa, escolhendo as palavras. — A posição dele em relação a você nunca foi simples.
— Hm, o que isso quer dizer? — Kyra perguntou, cortante, já juntando as peças.
Eu tinha minhas próprias suspeitas do que aquilo queria dizer. Eu vinha, com cuidado, evitando pensar nelas havia vários anos.
— Quer dizer que eu tenho vantagem — eu disse. — Se o Alaric estiver disposto a emitir o decreto, Kaelen não pode contestar. A lei da alcateia não dá a um Alfa base para questionar uma decisão de um Rei.
— E se o Alaric pedir alguma coisa em troca?
— Então eu negocio. — Coloquei a xícara na mesa. — Eu terminei de aceitar termos que não foram negociados. Seja o que for que o Alaric queira, a gente conversa como adultos em pé de igualdade. Isso é mais do que eu tive nos últimos três anos.
Celeste me encarou por um longo momento. Tempo suficiente para eu ver ela analisando cada ângulo, cada implicação, cada cálculo de três jogadas à frente — simplesmente o jeito como ela funcionava.
Então ela soltou o ar.
— Eu consigo uma reunião para você — ela disse. — Ele me deve uma conversa. Eu posso garantir que aconteça em silêncio, antes de Kaelen ter qualquer motivo para desconfiar.
— Quão rápido?
— Em dois dias. Ou talvez três.
— Bom, isso é tempo suficiente pro Kaelen fazer alguma coisa irreversível — Kyra apontou.
E ela tinha razão. Kaelen não era totalmente imprevisível. Eu não podia me dar ao luxo de errar.
— Você consegue em um? — perguntei a Celeste, em vez disso, com os olhos brilhando de expectativa.
Celeste arqueou uma sobrancelha para mim, mas então suspirou e pegou o celular.
— Tá bom. Deixa eu fazer uma ligação.
