Capítulo 1

Meu marido, Donald, disse que eu era fria demais. Minha filha, Flora, disse que amava mais a Hailey. E meus pais disseram que eu nunca aprendi a ser grata.

Então decidi passar as últimas setenta e duas horas da minha vida sendo generosa e dando tudo para essa “irmã” que eu tinha tirado da rua.

O diagnóstico do médico ainda ecoava nos meus ouvidos. “Câncer de estômago em estágio IV. A metástase é extensa. Você talvez tenha mais uma semana.”

Eu tinha ficado sentada naquela maca gelada, encarando o laudo nas minhas mãos. Trinta e cinco anos de vida e, assim—sentença de morte.

Quinze anos atrás, eu tinha encontrado a Hailey, com dezesseis anos, numa noite chuvosa. Ela estava encolhida ao lado de uma caçamba de lixo, coberta de hematomas, com os olhos cheios de desespero. Eu a levei para casa, limpei os ferimentos com as minhas próprias mãos, comprei roupas novas para ela.

Quando ela me chamou pela primeira vez de “senhorita Audrey”, sempre respeitosa com os adultos, eu decidi pagar a faculdade dela e depois a fiz minha assistente de maior confiança. Eu achei que tinha salvado uma vida. No fim, eu tinha criado uma cobra.

Quando Donald correu para o hospital, eu esperava que ele me abraçasse.

“Audrey, tem algo errado com o útero da Hailey. Talvez ela nunca consiga ter filhos.” As primeiras palavras dele me deixaram sem reação. “O médico disse que, se houver um transplante compatível, ainda tem esperança… você poderia ajudar ela?”

Eu encarei Donald como se estivesse vendo aquele homem pela primeira vez. A esposa dele tinha acabado de descobrir que tinha câncer terminal, e ele estava pensando no útero de outra mulher.

“Ela nunca teve família enquanto crescia, e agora finalmente tem a gente. Ela merece a chance de ser mãe. E, Audrey, você sabe que ela cuida melhor da Flora do que você.” Donald continuou, completamente alheio ao meu choque.

“Tudo bem. Eu concordo”, eu disse, com calma.

Que ironia. Eu tinha salvado a vida dela, dado um lar, e agora eu também estava dando o meu útero.

Quatro dias atrás, eu tinha saído da mesa de cirurgia. Meu útero tinha sido transplantado para a Hailey. Depois de quatro dias internada, hoje eu tive alta, mas me restavam três dias de vida.

Na tarde em que eu tive alta, eu estava no banco do passageiro enquanto Donald dirigia e Hailey ia no banco de trás. Nós paramos em frente à Escola Municipal Santa Catarina, esperando a Flora sair.

Exatamente às três da tarde, o portão da escola abriu. Flora saiu correndo com a mochila rosa, indo direto para a Hailey no banco de trás.

“Hailey! Adivinha que prêmio eu ganhei hoje?”, ela gritou, grudada no vidro do carro, os olhos brilhando de empolgação.

“Flora, a mamãe também quer ouvir…” Eu me virei, tentando entrar na conversa.

Mas minha filha nem virou o rosto.

Ela continuou falando com a Hailey: “A professora Johnson disse pra eu dar meu certificado pra pessoa que mais me ama, e eu quero dar pra você!”

Hailey disse, com doçura: “Meu bem, você devia dar pra mamãe.”

“Não!” Flora balançou a cabeça, com a voz firme e decidida. “A Hailey é a melhor! Você me ajuda na lição todo dia e faz comida gostosa. A mamãe tá sempre ocupada com trabalho.”

Eu me virei de volta, em silêncio, encarando a rua à frente.

Que piada cruel a vida tinha feito comigo. Eu tinha me matado de trabalhar para sustentar essa família, tinha pago a faculdade da Hailey, e ainda assim foi ela quem conquistou o amor da minha filha.

E agora ela também tinha o meu útero, o meu marido e, em breve, teria tudo.

Às seis da tarde, de volta à sala de casa, eu queria salvar alguma coisa — nem que fosse um fiapo do carinho da minha filha.

“Meu amor, você quer ler uma história com a mamãe?” Eu alisei o cabelo de Flora com delicadeza.

Flora empurrou minha mão para longe. — Não quero. Quero esperar a Hailey terminar o trabalho e brincar comigo. Suas histórias são chatas.

Nessa hora, Hailey saiu do escritório, carregando uma pasta. — Que tal eu ficar com a Flora? Dona Audrey, a senhora precisa descansar.

Ao ouvir ela me chamar de “Dona Audrey”, lembrei de quando ela me chamou assim pela primeira vez, quinze anos atrás.

Naquela época, ela tinha acabado de passar três dias no hospital, segurando minha mão e dizendo: “Dona Audrey, vou lembrar da sua bondade pelo resto da minha vida”.

Eu ainda lembrava dela me abraçando e chorando na formatura da faculdade, dizendo que ficaria ao meu lado para sempre.

— Hailey! — Flora se jogou nela, animada. — Que história a gente vai ler hoje?

Eu me sentei no sofá, observando a cena. A menina que eu tinha tirado da rua, a Hailey que eu tinha amado como uma irmã, tinha roubado até o amor da minha filha.

Eu me levantei e fui em direção ao escritório.

Ao passar pela sala, vi a foto da formatura da Hailey pendurada na parede — ela de beca e capelo, me abraçando com força, sorrindo tão radiante.

Ao lado, havia um presentinho que ela tinha comprado para mim com o primeiro salário: um porta-retratos com “Melhor Amiga do Mundo” gravado.

Naquele tempo, ela tinha dito: “Dona Audrey, a senhora me deu uma vida nova. Quero passar a minha vida inteira retribuindo”.

Agora ela estava mesmo “retribuindo” — com traição.

Eu tinha acreditado que gratidão era eterna. Eu não sabia que algumas pessoas já nascem incapazes de se contentar.

Fechei os olhos e respirei fundo.

Raiva não adiantava. Lágrimas não adiantavam. Eu precisava de um plano. Um plano para fazer gente ingrata entender o preço da traição.

Às nove da noite, chamei Hailey para o escritório.

— Sente-se, Hailey. — Tirei documentos do cofre. — Estes são os papéis de transferência das ações da empresa e o meu testamento. Eu quero deixar tudo para você.

Os olhos de Hailey se arregalaram, e as lágrimas começaram a escorrer na mesma hora. — Dona Audrey, eu não posso aceitar isso... a senhora já foi tão boa comigo.

Ela chorava com tanta sinceridade, igual quinze anos atrás, quando eu comprei roupas novas para ela pela primeira vez. Se eu não soubesse do relacionamento dela com Donald, talvez eu me comovesse.

— Não chore, minha querida. — Eu olhei para ela com ternura. — Eu sei que você e o Donald se amam. Eu abençoo vocês dois. Você é mais adequada para esta família do que qualquer outra pessoa.

Hailey me encarou “em choque”. — Dona Audrey... a senhora sabe? A gente não queria que acontecesse, é que... é que...

— Eu sei. — Sorri. — Quando é amor, não dá pra forçar nada. Você vai cuidar bem da Flora, não vai?

— Vou! — Hailey segurou minhas mãos. — Dona Audrey, a senhora é a melhor pessoa do mundo. Eu nunca vou esquecer a sua bondade.

Bondade? Sim. Uma bondade que salvou uma vida, uma bondade que criou e acolheu, e agora uma bondade sem egoísmo.

Às onze da noite, eu me mudei para o quartinho que tinha sido adaptado do depósito — o lugar onde a Hailey morava antes.

A roda tinha dado a volta completa do jeito mais amargo possível.

Toquei a pasta de documentos ao lado da cama — lá dentro estavam todas as provas que eu tinha reunido ao longo dos anos: registros da Hailey desviando dinheiro da empresa, gravações dela encenando lealdade na minha frente, fotos do caso dela com Donald...

— Faltam três dias — eu disse ao espelhinho. — Audrey, deixe que eles se lembrem de uma irmã mais velha tolerante e amorosa. Quando chorarem no meu velório, meu advogado vai contar a eles o que uma traição ingrata realmente custa.

A menina que eu tirei da rua, a irmã que eu tinha amado com a minha vida, finalmente ia pagar o preço.

Eu sabia que eles se arrependeriam, mas, quando isso acontecesse, eu já teria ido embora.

Próximo Capítulo