Capítulo 2
Eu mal dormi na minha primeira noite naquele quartinho — o antigo quarto da Hailey, agora meus aposentos temporários.
A dorzinha surda no estômago me lembrava da urgência do tempo. Faltavam menos de três dias.
Às sete e meia da manhã, ouvi as risadas da Flora e da Hailey subindo lá de baixo. Elas tomavam café na sala de jantar, e a voz do Donald entrava na conversa de vez em quando.
A cena inteira soava tão harmoniosa, como se fosse exatamente assim que aquela família deveria ser.
Eu me esforcei para me sentar, agarrando a beirada da cama quando uma onda de tontura me atingiu. Depois de me lavar com cuidado, desci as escadas bem devagar, com uma mão agarrada ao corrimão.
Na cozinha, encontrei a Hailey ajudando a Flora com a mochila. Ela abriu aquele sorriso carinhoso quando me viu, embora uma preocupação passasse pelos olhos ao notar minha palidez.
— Bom dia, senhorita Audrey. — Ela alisou o cabelo da Flora com carinho. — Vai, Flora, meu amor, dá bom dia pra senhorita Audrey também.
A Flora mal olhou para mim; em vez disso, enfiou o rosto no braço da Hailey.
— Eu só quero falar com a Hailey. Ela é minha mãe de verdade agora.
As palavras me acertaram como um golpe, mas eu forcei um sorriso, me apoiando no batente da porta para não perder o equilíbrio.
— Flora, você quer que eu te leve pra escola? — perguntei, hesitante, embora eu soubesse que mal tinha conseguido descer as escadas, quanto mais dirigir.
A Flora enfim me encarou, com uma expressão quase irritada.
— Pra que eu ia querer isso? Você nem sabe o nome da minha professora. A mamãe Hailey sabe tudo sobre a minha escola.
A Hailey se aproximou e, com delicadeza, me conduziu até uma cadeira.
— Senhorita Audrey, a senhora precisa descansar. Ainda está se recuperando... Eu levo a Flora.
— Tudo bem, vão vocês duas. — Eu assenti, grata por me sentar, mas lutando para manter a compostura.
Eu as vi sair de mãos dadas em direção à porta, a Flora falando animada com a Hailey sobre o desenho que tinham assistido na noite anterior. Cada risada era como uma faca se retorcendo no meu peito — pela dor emocional e pelo cansaço físico.
Que ironia. Eu tinha aberto mão da minha própria capacidade de ter filhos pelo futuro da Hailey, e agora ela tinha tomado para si a minha filha que já existia.
Depois que elas saíram, o Donald apareceu na porta da cozinha, com uma caneca de café na mão. Bastou olhar para o meu rosto sem cor para vir correndo.
— Audrey, você não devia estar de pé ainda. O médico disse pelo menos uma semana de repouso na cama.
— Donald — eu disse baixo, com a voz mais fraca do que eu pretendia. — A gente precisa conversar. Me ajuda a subir pro meu quarto.
Ele me amparou enquanto eu voltava para o andar de cima, cada degrau um esforço monumental. No meu quartinho, afundei na cadeira perto da janela, respirando com dificuldade.
— Donald, vamos nos divorciar. — Fui direto ao ponto, a voz quase um sussurro, mas perfeitamente clara.
Ele quase deixou a caneca cair.
— Audrey, você não está raciocinando direito. Você acabou de passar por uma cirurgia grande...
— Eu estou pensando com clareza. — Com as mãos tremendo, tirei minha aliança e a coloquei sobre a mesinha ao lado. — Eu estou indo embora de tudo. A casa, as contas, a Flora... tudo fica com você. Eu quero que você e a Hailey sejam felizes.
Donald encarou a aliança, o rosto perdendo a cor.
— Audrey, isso é a medicação falando. Você não está sendo você mesma.
"Donald, tem coisas que nós dois entendemos sem precisar dizer, não é?" Mantive a voz suave apesar da dor. "Eu estou exausta e quero acertar as coisas pra vocês dois."
A expressão de Donald mudou. Ele ergueu a cabeça devagar para me encarar. "Você... você sabe de tudo."
Meu coração disparou, trazendo novas ondas de dor na incisão que ainda cicatrizava. Doze anos de casamento, e agora esse momento de reconhecimento silencioso. Mas o que ainda havia para dizer? Eu só tinha mais dois dias.
Ao ver a culpa no rosto dele, uma pontada aguda atravessou meu peito — diferente da dor da cirurgia, mais funda e devastadora.
"Isso não é culpa sua, Donald. É minha." Minha voz continuou firme apesar da fraqueza. "Eu sempre vivi enterrada no trabalho. A Hailey é delicada e cuidadosa, mais adequada pra você e pra Flora."
"Audrey, deixa eu explicar—"
"Não precisa de explicação." Balancei a cabeça devagar, e o movimento me deu tontura. "E, como eu disse pra Hailey, eu também vou transferir o Kingsley Design Studio pra ela. A papelada já está toda pronta."
Donald se levantou num salto. "Você enlouqueceu de vez! Aquilo é o trabalho da sua vida!"
"Eu sei." Encarei ele com os olhos cansados. "Eu já falei com um advogado. A gente pode finalizar tudo amanhã. Ela vai ficar como única proprietária."
"Audrey, você construiu esse estúdio por treze anos — vale mais de oitenta milhões!" A voz de Donald tremeu. "Você está entregando toda a sua posição no mundo da moda!"
"Eu sei muito bem." Fechei os olhos por um instante, juntando forças. "Mas eu não quero brigar por isso."
"Quando duas mulheres amam o mesmo homem, uma precisa soltar. Eu escolho ser a que sai com dignidade."
Donald ficou parado, congelado, sem conseguir falar por um bom tempo.
Mais tarde, naquela mesma tarde, eu estava deitada na cama, com as costas apoiadas, o notebook equilibrado com cuidado no colo. Cada movimento para digitar mandava pequenos choques de dor pelo meu abdômen, mas eu continuei.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Hailey: [Sra. Audrey, o Donald acabou de falar comigo. Eu ainda estou sem chão com a decisão que a senhora me contou ontem, mas prometo que vou cuidar bem de tudo. Obrigada por confiar tanto em mim.]
Respondi com os dedos trêmulos: [Eu é que devia agradecer. Você me mostrou como é de verdade o calor de uma família.]
Depois de deixar o celular de lado, estendi a mão até a pastinha pequena no criado-mudo — ela guardava rascunhos inacabados, incluindo o desenho de um vestido particularmente deslumbrante.
"Faltam dois dias." Passei o dedo, trêmulo, sobre o traço do desenho. "Eu preciso, pelo menos, terminar essa última peça."
A mistura da dor da cirurgia com o câncer no estômago tornava quase impossível me concentrar, mas ainda assim peguei agulha e linha com determinação.
Lá fora, o sol já estava se pondo quando o carro de Donald encostou. As risadas de Flora e Hailey transbordaram de dentro do veículo. Elas tinham chegado — à minha antiga casa, agora delas.
Da minha cama junto à janela, observando as duas através do vidro, eu passaria as últimas quarenta e oito horas da minha vida terminando um último trabalho com sentido.
Mesmo nesse estado despedaçado, era a última coisa que eu podia deixar para trás.
