Capítulo 3

Costurei no meu ateliê até as quatro da manhã, cada ponto acompanhado por uma dor aguda, como uma facada, no estômago.

Às nove da manhã, meu advogado particular, Marcus, chegou ao meu escritório. Ele me olhou, horrorizado, enquanto eu jogava um monte de documentos na lareira. “Dona Kingsley! Esses são os registros da Hailey desviando dinheiro da empresa!”

Eu continuei alimentando as chamas com mais papéis. “Junto com os contratos em que ela falsificou a minha assinatura e as fotos do caso dela com o Donald.”

Marcus avançou para me impedir. “Você enlouqueceu? Essa prova pode colocar ela na cadeia!”

Eu abri meu isqueiro com um estalo. “Marcus, minha filha precisa de uma mãe que ela acredite ser perfeita.”

“Mas a Hailey te enganou! Ela roubou seu dinheiro, roubou seu marido!”

Eu vi as chamas devorarem as evidências. “Ela deu à Flora a companhia que eu não pude dar. Essas provas... só iam tirar da vida dela a pessoa que uma menina de sete anos mais ama.”

Marcus ficou em silêncio por um instante. “Você tem certeza disso?”

Eu lancei um último olhar para os documentos queimando. “Tenho. Deixa esses segredos sumirem comigo.”

Às dez da manhã, eu fui para a sala de reunião, onde uma dúzia de funcionários já estava reunida. “A partir de hoje, a senhorita Hailey Jenkins vai assumir todas as operações do ateliê.”

Elena, minha estilista mais antiga, me encarou, chocada. “Dona Kingsley, a senhora tem certeza? Isso é o trabalho de treze anos da sua vida...”

Eu sorri ao entregar as chaves para Hailey. “Eu confio que ela vai fazer melhor do que eu jamais conseguiria.”

Logan, nosso modelista-chefe, parecia confuso. “Mas a Hailey é só uma assistente. Ela entende mesmo de criação?”

Hailey falou, nervosa. “Eu vou fazer o meu melhor pra aprender...”

“Ela é brilhante e entende de gente melhor do que eu.” Minha voz continuou firme.

Ao ver as expressões deles, eu sabia que não entendiam. Mas iam se adaptar à nova chefe cedo ou tarde. Afinal, Hailey era excepcionalmente boa em fazer as pessoas gostarem dela.

À uma da tarde, Hailey me levou de carro de volta ao ateliê. No caminho, ela perguntou, hesitante: “Senhorita Audrey, eu preciso perguntar... por que você está fazendo isso?”

Eu encostei a cabeça no vidro, vendo a paisagem virar um borrão. “Porque o Donald ama você, não a mim.”

“Eu nunca quis destruir o seu casamento...”

Eu me virei para olhar para ela. “Hailey, para de encenação. Nós duas somos adultas.”

Hailey apertou mais o volante. “Eu sinto muito, de verdade...”

“Eu só espero que você seja uma boa madrasta. A Flora precisa de um lar estável.”

“Eu juro que vou amar ela como se fosse minha filha.”

Que palavras bonitas. Eu esperava que ela realmente conseguisse cumpri-las. Afinal, era por isso que eu estava trocando a minha vida.

Naquela tarde, Marcus voltou ao meu ateliê com toda a papelada da transferência. Eu arrastei meu corpo exausto por cada assinatura, concluindo oficialmente os trâmites legais no conforto do meu próprio espaço.

Às três da tarde, voltei à minha mesa de trabalho para os pontos finais. O câncer no estômago transformava cada movimento numa agonia trêmula; meus dedos, dormentes; a visão, embaçada. Mas eu cerrei os dentes e fui em frente.

Cada agulhada parecia uma faca atravessando meu coração, mas eu precisava terminar.

Eu costurei com cuidado cada pérola no corpete, minhas mãos trêmulas colocando-as num desenho que só a Flora entenderia — quando ela vestisse aquele vestido um dia, veria o amor que eu tinha costurado em cada detalhe.

A peça estava quase pronta — faltava apenas uma rosa cor-de-rosa para costurar no decote.

Às oito da noite, ainda no meu ateliê, meu celular tocou de repente.

—Audrey? —a voz de Donald veio pelo telefone, com o barulho da festa ao fundo. —Você pode vir ao Hilton? Os investidores estão todos perguntando por você...

Eu ouvi alguém comentando atrás dele:

—A gente investiu por causa dos designs dela.

—Você vem? —Donald perguntou ao telefone, com a voz hesitante.

Antes que eu pudesse responder, ouvi Hailey ao fundo:

—Ela quer terminar tudo de um jeito positivo antes de o divórcio sair de vez.

—Eu já estou indo. —Desliguei e troquei de roupa, vestindo um vestido preto simples que eu deixava no armário do estúdio.

Dei uma última olhada ao redor do meu estúdio —meu santuário, o trabalho da minha vida, meu último refúgio. Amanhã, tudo aquilo passaria a ser de Hailey.

Quando cheguei ao Hilton, a festa já estava pegando fogo. Donald e Hailey estavam no meio da multidão, o braço dela enlaçado no dele, parecendo um casal perfeito.

Um dos investidores ficou visivelmente chocado quando me viu.

—Audrey, você está... você está bem?

Meus pais estavam lá, como convidados de honra. Minha mãe me avistou:

—Audrey, por que você está tão magra? Você está pálida.

Meu pai apontou na direção de Hailey.

—A Hailey é que tem consideração. Quando a gente ficou internado no mês passado, ela foi lá todos os dias.

Minha mãe assentiu.

—É isso. A Hailey se importa mais do que você, que não ligou nem uma vez.

Eu disse baixo:

—Eu tenho estado muito ocupada ultimamente...

Meu pai franziu a testa.

—Sempre ocupada! Trabalho é mais importante do que seus pais?

Minha mãe pegou a mão de Hailey.

—Ainda bem que o Donald encontrou a Hailey. Ela é realmente a pessoa certa pra ele.

Eu observei o carinho dos meus pais por Hailey e senti meu coração se despedaçar. Anos de dedicação minha valiam menos do que algumas visitas de uma estranha ao hospital.

No auge da festa, Donald pegou o microfone.

—Senhoras e senhores, hoje à noite eu quero anunciar algo importante.

Ele segurou a mão de Hailey e, sob as luzes, eu vi o brilho no dedo anelar esquerdo dela —minha aliança, que Donald obviamente tinha dado a ela.

—Hailey Jenkins e eu estamos oficialmente juntos.

A sala explodiu em murmúrios, e todos os olhares se voltaram para mim, no canto.

Donald continuou:

—Eu sei que isso parece repentino, mas o amor é imprevisível.

Hailey tomou o microfone.

—Eu quero agradecer especialmente a uma pessoa: Audrey. Sem a compreensão e a bênção dela, eu nunca teria essa felicidade hoje. Ela é a mulher mais generosa do mundo.

A sala irrompeu em aplausos, mas eu só fiquei quieta no canto, assistindo às duas pessoas no palco.

Conforme a festa foi chegando ao fim, as luzes diminuíram e um holofote bateu no palco. Donald e Hailey se beijaram devagar, em meio aos gritos e aplausos.

Naquele instante, todo o salão ficou em silêncio, exceto pelos flashes das câmeras. E eu estava bem lá no fundo, vendo aquela cena se desenrolar.

Aquele homem já tinha sido meu marido; aquela mulher já tinha sido minha assistente mais confiável. Agora eles se beijavam na minha frente, recebendo as bênçãos de todo mundo, enquanto eu... eu tinha virado a coadjuvante mais “generosa” dessa história de amor.

Eu olhei uma última vez para o casal no palco: aquela mulher usando a minha aliança e aquele homem que um dia me prometeu “pra sempre”.

Agora eles tinham tudo —minha família, meu negócio, até o amor dos meus pais.

E eu era só uma estrangeira prestes a desaparecer.

De repente, houve um alvoroço na entrada dos fundos. Eu me virei para olhar, sentindo meu coração disparar de um jeito violento.

Era Flora. Ela usava um vestidinho rosa e corria, animada, em direção ao palco.

—Mamãe Hailey! Você e o papai vão casar?

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