Capítulo 4
Flora puxou, animada, o vestido de Hailey. “Ai, que romântico! Igualzinho nos contos de fadas!”
Todos os olhares se voltaram para mim. Eu achei que assistir aos dois se beijando seria a pior dor que eu sentiria naquela noite.
Eu estava errada.
Flora se virou para me encarar, com a testa franzida. “Mamãe, por que você está aqui?”
Eu tentei andar até ela. “Oi, meu amor...”
Mas ela recuou na mesma hora, se escondendo atrás de Hailey. “Eu não quero você! Você sempre deixa o papai e a Hailey tristes!”
Eu assisti àquela cena em silêncio. Cada palavra que a Flora dizia tinha sido ensinada por Hailey; até o tom era igualzinho.
Mas não importava. Aquilo tudo ia acabar logo.
Hailey passou a mão de leve na cabeça de Flora. “Flora, você não pode falar assim com a mamãe.”
“Eu só quero a mamãe Hailey! Mãe de verdade não deixa todo mundo chateado!”
Um burburinho correu pela multidão. Incontáveis pares de olhos me analisavam.
Meu pai se aproximou com o rosto fechado. “Audrey, como você pôde deixar a Flora ficar assim?”
Minha mãe pareceu constrangida com a cena. “Isso é um evento público, e sua filha fazendo esse escândalo...”
“Talvez seja melhor você ir para casa”, disse meu pai, baixo. “Deixa todo mundo aproveitar a festa.”
Eu abaixei a cabeça. “Eu sei. Você tem razão.”
Minha mãe assentiu, satisfeita. “Que bom que você reconhece seus erros. Pare de arrumar confusão e deixe a criança viver em paz com a Hailey.”
Eu peguei minha bolsa e fui em direção à saída. Ninguém reparou quando eu fui embora. A risada de Flora ecoava no meio da multidão, tão feliz.
Pela janela de vidro, eu vi Donald segurando Flora no colo enquanto Hailey sorria ao lado deles; meus pais conversavam e riam com os convidados.
Uma família tão perfeita, e eu... eu era como um excesso, uma estranha sobrando do lado de fora.
Chamei um Uber de volta para o ateliê. Já estava quase onze, e a dor no meu estômago só piorava, mas eu tinha algo que precisava terminar.
O vestido ainda precisava dos últimos ajustes. Era a única coisa que eu podia deixar para Flora.
Cada ponto era uma tortura. A dor do câncer terminal no estômago me obrigava a parar e descansar a cada poucos minutos. Meus dedos estavam dormentes, e a agulha e a linha pareciam pesadas nas minhas mãos trêmulas.
Eu bordei uma bênção no forro: “Quando você usar este vestido aos dezoito anos, espero que entenda que a mamãe nunca deixou de te amar...”
Eu larguei a agulha e a linha, encarando meu reflexo no espelho — exausta, mas com a mente lúcida.
Uma mãe de verdade não disputa o amor de um filho — ela tira os obstáculos do caminho dele quando isso mais importa.
Às quatro da manhã, o vestido de noiva finalmente ficou pronto. Eu comecei a escrever cartas.
Carta para meus pais: “Obrigada por me criarem. Eu sei que decepcionei vocês... A Hailey vai cuidar melhor de vocês do que eu jamais conseguiria. Por favor, me perdoem por eu não ter sido suficiente.”
Carta para a Flora, aos dezoito anos: “A mamãe sabe que você ama mais a Hailey. Ela realmente é mais doce do que eu...”
Eu parei, lembrando de cada encenação que a Hailey fazia na minha frente, de como ela, com esperteza, tinha afastado a Flora de mim.
Continuei: “Mas, meu amor, a mamãe espera que você aprenda a distinguir entre amor de verdade e controle bem embalado. Amanhã, você vai entender.”
Eu sabia exatamente o que estava fazendo. A Flora precisava aprender a reconhecer a hipocrisia ao redor dela. Era a habilidade de sobrevivência mais valiosa que eu podia deixar para ela.
Depois de muita hesitação, por fim abri o cofre.
Lá dentro havia várias cartas que eu tinha escrito nos últimos meses — observações detalhadas que eu havia registrado com cuidado. Coloquei tudo dentro de um envelope lacrado.
Peguei o celular e liguei para o Marcus. “Eu preciso que você venha ao meu ateliê amanhã de manhã, às 9h30.”
“Dona Kingsley? Já está muito tarde...”
“Se eu não atender a porta nem o celular, é só entrar. Você tem a chave reserva.”
Depois de um longo silêncio, ele concordou. “Eu vou estar aí.”
Não era vingança — era a última proteção de uma mãe.
Às 5h30, peguei meu celular e, por instinto, abri as redes sociais.
A Hailey tinha postado uma atualização nova. Na foto, o Donald estava com a Flora no colo, os três abraçados com força, com a legenda: “Grata pelas duas pessoas mais importantes da minha vida.”
Os comentários estavam cheios de elogios: “Que família linda!” “A Flora tem a melhor mãe!”
Eu encarei a foto e sussurrei: “Que família perfeita...”
Salvei a foto. Seria a última vez que eu veria o rosto sorridente da minha filha.
O dia começava a clarear. Senti meu coração desacelerar, minha visão embaçar. Olhei para o vestido de noiva pronto, tocando com delicadeza cada detalhe.
Era a minha obra-prima e a minha despedida.
Com a última força, eu sussurrei: “Donald... Flora... mãe e pai...”
“Vocês todos acham que eu não sei de nada... mas eu sei muito mais do que vocês imaginam...”
“Mas... eu escolhi um jeito mais inteligente...”
As últimas palavras mal saíram: “Flora... eu espero que você entenda... o que é amor de verdade...”
Então, tudo ficou em silêncio.
Às nove da manhã, o Donald estava em casa tomando café da manhã com a Hailey e a Flora.
De repente, o celular dele tocou com uma ligação. Era o advogado dele, Marcus.
“Marcus?”, o Donald atendeu, a voz tensa.
Uma voz pesada veio do outro lado da linha: “Donald... eu sinto muito em te informar... a Audrey faleceu.”
A xícara de café escorregou da mão do Donald e se espatifou no chão.
