Capítulo 1 — Sangue na Lua
“Elara, corra!” A voz da minha mãe rasgou o ar, afiada como uma lâmina. As unhas dela cravaram no meu braço, me puxando para longe da porta onde eu estava paralisada.
“Mas, mamãe, não!” Minha garganta queimava enquanto eu gritava. “Eu não posso te deixar!”
“Você tem!” Os olhos prateados dela brilhavam, selvagens de medo. “Se você ficar, eles vão te encontrar. Está me ouvindo? Você tem que sobreviver!”
As paredes da nossa cabana pequena estremeceram quando garras arranharam a madeira. A fumaça entrou em ondas espessas, queimando meus pulmões, embaçando minha visão.
Em algum lugar no meio do caos, meu irmão gritou. “Fiquem longe dela!” A voz dele falhou, se partindo num rosnado quando os lobos inimigos avançaram em bando.
“Sonhos não vão nos deter agora”, outra voz zombou, sombria e cruel. Uma risada veio em seguida, do tipo que congela o sangue.
Eu o vi de relance, o Alfa, Thorne. A sombra dele preenchia a porta, mais alto do que qualquer lobo que eu já tinha visto, a presença pesada como correntes pressionando meu peito. Os olhos dele ardiam como brasas na fumaça.
Meu pai se colocou entre ele e eu, alto e irredutível, mesmo com o corpo tremendo de exaustão. “Você vai se arrepender disso, Thorne. Tirar vidas não vai te dar mais.”
Thorne deu um sorriso de escárnio. “Poupe-me da sua sabedoria. Eu quero o que você vem escondendo de mim. O dom daquela garota. Ela vai me curar.”
“Não!” A voz do meu pai foi firme, mas baixa, serena até diante da morte. “Ninguém escapa do círculo da vida. Você vai morrer como todos os Alfas têm que morrer.”
“Então a sua família morre esta noite.” Os olhos de Thorne se voltaram para mim, famintos, triunfantes.
“Papai!” Eu cambaleei para a frente, mas minha mãe me puxou de volta.
“Vá!” meu pai rugiu e, por um instante, eu vi algo tremular no olhar dele... não medo, não desespero, mas tristeza.
O primeiro lobo avançou. As garras do meu pai cortaram o ar, sangue respingando nas paredes. O grito do meu irmão ecoou enquanto ele lutava, dentes estalando, ossos se partindo. Minha mãe me empurrou de novo, mais forte dessa vez, as unhas deixando marcas na minha pele.
“Corra, Elara!”, ela implorou. “Viva por nós!”
A porta explodiu para dentro. Sombras invadiram como uma enchente. Eu tropecei para trás, caindo com força na terra. Minha respiração engasgou. Meu irmão estava imobilizado, a garganta rasgada. A mente da minha mãe tocou a minha pela última vez enquanto ela sussurrava: “Eu te amo”.
Então, silêncio.
Eu não me lembrava de como minhas pernas se moveram, só que eu cambalei para dentro da floresta, galhos chicoteando meu rosto enquanto eu corria. Meus pulmões queimavam, meu coração se rachava por dentro. Eu devia ter continuado correndo. Mas não continuei.
Eu voltei.
A cabana era quase cinza quando eu cheguei. Minhas mãos tremiam ao empurrar a porta meio queimada. O ar fedia a sangue. Minha mãe tinha sumido. Meu irmão jazia imóvel, os olhos abertos e vidrados. Meu estômago revirou, a bile subindo na minha garganta.
“Papai!” Minha voz falhou.
Uma tosse respondeu. Fraca. Gutural. Eu tropecei na direção dela.
Meu pai estava no chão, o corpo dilacerado, o sangue encharcando a terra. Os olhos dele tremeluziram e se abriram quando eu me ajoelhei ao lado dele.
“Filha...” A mão dele tremia ao procurar a minha.
“Não, não, não, não fala. Eu posso te curar.” Lágrimas embaçaram minha vista. Minhas palmas pressionaram os ferimentos dele, o calor familiar do poder tremeluzindo sob a minha pele, ansioso para fluir. “Eu posso te salvar...”
“Tarde demais.” Ele balançou a cabeça, os lábios se puxando num sorriso fraco. “Você não pode me curar. Nem a mim. Nem a ninguém.”
“Papai, por favor!” Minha voz se quebrou quando o primeiro soluço escapou. “Se eu não tentar...”
“Escute.” O aperto dele no meu pulso se intensificou, me surpreendendo com a força. Os olhos ardiam, desesperados. “Foi Thorne que fez isso. Ele e a laia dele. Prometa, Elara. Você nunca vai curar gente como ele. Jure.”
Balancei a cabeça, as lágrimas derramando sobre o peito dele. “Não me faça prometer isso. Por favor...”
“Jure!” A voz dele ribombou, cortando meus soluços. Então, mais baixa, quase se partindo: “Ou o mal dele vence. Não deixe que a minha morte seja em vão.”
Meus lábios tremeram. Meu coração se despedaçou. “Eu juro”, sussurrei.
O alívio suavizou o rosto dele. Mas então, algo estranho aconteceu. Os olhos dele brilharam mais, prateados e afiados, mais intensos do que eu já tinha visto. Ele ergueu a mão e a pressionou contra a minha testa.
“Para você... eu te dou a minha visão”, ele sussurrou. “Veja a verdade. Veja o perigo. Veja o caminho.”
Um calor me invadiu, ardente, cegante. Minha mente se encheu de flashes... sombras, rostos que eu não conhecia, sangue, traição, fogo. Eu ofeguei, agarrando o braço dele.
“Papai... o que está acontecendo?”
Ele sorriu, fraco. “Você vai entender um dia. Fique longe deles. Nunca confie no sangue deles.”
E então a mão dele caiu, o corpo dele ficou imóvel, e o mundo ficou em silêncio.
Eu gritei até a garganta ficar em carne viva.
Dei um solavanco na cama, engasgando com o ar, com o grito ainda ecoando na minha cabeça.
O teto do meu apartamento me encarou de volta, amarelado por manchas úmidas. Não era a floresta. Não era o fogo. Só um sonho. De novo.
O suor encharcava os lençóis, grudando na minha pele. Meu peito subia e descia como se eu realmente tivesse estado lá... ajoelhada no sangue do meu pai, impotente, inútil.
Sempre tarde demais.
Enxuguei o rosto com as mãos trêmulas. Meu quartinho estava escuro, iluminado apenas pelo brilho doentio do poste do lado de fora. Meu estômago roncou, quebrando o silêncio.
Arrastei meu corpo para fora da cama. O chão estava congelante sob meus pés descalços. O armário rangeu quando abri... meia sacola de arroz, uma lata de feijão. Suspirei. “Café da manhã dos campeões.”
Meu celular vibrou. Peguei-o, meio esperando, meio temendo.
Taxas pendentes. Último aviso.
Deixei o celular cair sobre a mesa. “Fantástico. Estou oficialmente quebrada e prestes a ser expulsa da escola.”
Uma batida sacudiu minha porta fina, me fazendo pular.
“Elara!” Era a voz do meu senhorio, áspera e irritada. “Aluguel! Não me faça pedir de novo.”
Apertei as costas contra a porta, o coração disparado. “Eu vou pagar em breve!”
“Você disse isso mês passado. Ou paga ou faz as malas!”
Os passos dele foram sumindo pelo corredor. Minha garganta queimou. Eu odiava implorar. Odiava ser encurralada. E odiava não ter mais ninguém a quem recorrer.
Sentei à minha mesa bamba, encarando o papel de parede descascando. As palavras do meu pai voltaram: Nunca cure eles. Minhas palmas formigaram de leve, o poder inquieto sob a pele. Ele queria sair. Queria salvar, consertar. Mas eu o empurrei para baixo.
Curar tinha me custado tudo. Eu nunca o trairia.
Meu celular vibrou de novo. Olhei, sem esperar muita coisa.
“Procura-se empregada. Para morar no local. Bom pagamento.”
Franzi a testa. Empregada. Não era exatamente o emprego dos meus sonhos, mas... melhor do que passar fome.
Abri o anúncio, lendo rápido. Candidatura por agência. Residência confidencial. Mansão.
Soltei uma risada sem humor. “Uma mansão. Tá. Como se eles fossem me escolher.”
Mas alguma coisa me fez parar de rolar a tela. Me fez encarar o anúncio por mais tempo do que eu devia. Meu pulso acelerou.
Recostei na cadeira, sussurrando para mim mesma: “Qual é a pior coisa que pode acontecer?”
A resposta, é claro, era: tudo.
